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17/03/2006

Quantas vidas Dale Earnhardt salvou?

The New York Times
Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt
Há cinco anos, Dale Earnhardt bateu contra um muro durante a volta final da Daytona 500 e morreu instantaneamente. Um dos pilotos mais amados, intimidadores e bem-sucedidos na história da Nascar, Earnhardt ainda é lamentado até hoje. (Se você assistiu a Daytona 500 em 19 de fevereiro, a primeira e mais proeminente corrida da temporada da Nascar, você certamente viu seu número 3 por toda parte.)

A morte de Earnhardt foi para a Nascar como o 11 de setembro foi para o governo federal: um despertador que levou a uma reforma radical das medidas de segurança. "Ocorreram três ou quatro acidentes feios seguidos em um período de dois ou três anos", disse Matt Kenseth, um piloto de elite da Nascar. "A Nascar está sempre trabalhando arduamente na segurança, mas aquilo (a morte de Earnhardt) realmente acelerou as coisas."

Pilotar um carro de corrida é obviamente um ocupação perigosa. Quando Earnhardt morreu, ele foi o sétimo piloto dentro das três principais divisões da Nascar -a Craftsman Truck Series, a Busch Series e a principal categoria de circuitos atualmente conhecida como Nextel Cup Series- a morrer em um período de sete anos.

E quantos pilotos morreram desde a morte dele em 2001? Zero. Em mais de nove milhões de quilômetros de corrida -e muitos, muitos quilômetros em treinos e voltas de classificação, que são bastante perigosas- nenhum piloto das três principais divisões da Nascar morreu.

Enquanto isso, nas estradas americanas, cerca de 185 mil motoristas, passageiros e motociclistas morreram durante o mesmo período. Mas estas 185 mil mortes ocorreram ao longo de quase de 24 trilhões de quilômetros percorridos. Isto representa uma fatalidade para cada 130 milhões de quilômetros percorridos.

Apesar de acidentes de trânsito serem a principal causa de morte para americanos com idades entre 3 e 33 anos, esta seria uma taxa de fatalidade bem baixa (especialmente por incluir motocicletas, que são bem mais perigosas do que carros e caminhões).

Quanto tempo levaria para uma pessoa percorrer 130 milhões de quilômetros? Vamos dizer que durante um ano inteiro você não fez nada a não ser dirigir,24 horas por dia, a 96 km/h. Em um ano, você cobriria cerca de 845.800 quilômetro; para chegar a 130 milhões de quilômetros, você teria que dirigir ininterruptamente por 154 anos.

Em outras palavras, muitas pessoas morrem nas estradas americanas a cada ano não porque dirigir é muito perigoso, mas porque um número enorme de pessoas está dirigindo um número enorme de quilômetros.

Assim, o recorde de zero mortes da Nascar em cinco anos e mais de nove milhões de quilômetros talvez não seja tão notável como pode soar. Ainda assim, dirigir um carro de corrida seria substancialmente mais perigoso do que dirigir até o supermercado. O que a Nascar fez para produzir seu recorde de zero fatalidade?

É uma longa lista. Bem antes da morte de Earnhardt, cada piloto já usava capacete, macacão e calçados à prova de fogo e cintos de segurança de cinco pontas. Meses após a morte de Earnhardt, a Nascar começou a exigir o uso de contenção para cabeça-e-pescoço que é presa ao capacete do piloto e impede que sua cabeça seja arremessada à frente ou aos lados durante uma colisão. (Como muitos corredores que morreram, Earnhardt sofreu uma fratura na base do crânio.)

Ela também ergueu muros mais altos nas pistas de corrida e começou a coletar meticulosamente dados de colisão. Este Banco de Dados de Incidentes (que a Nascar educadamente não nos permitiu examinar) é obtido a partir de duas fontes principais: uma caixa preta que atualmente é montada em cada veículo e o trabalho de uma nova unidade de investigação de campo.

Estes investigadores de campo realizam medições meticulosas chaves em cada carro antes de cada corrida, e então se um carro se envolve em um acidente, eles refazem as medições.

"No passado, caso um carro se envolvesse em um acidente e o piloto não sofresse ferimentos, a equipe recolheria o carro e iria para casa", disse Gary Nelson, que dirige o centro de pesquisa e desenvolvimento da Nascar.

"Mas agora eles medem cada carro em certas áreas e nós registramos isto.
Como a largura do assento -parece simples, a largura do apoio de cabeça da esquerda para direita. Mas em um acidente, estas coisas podem entortar e quanto entortam podem nos ajudar a entender a energia envolvida. Quando começamos, nós imaginávamos que nossos assentos eram adequadamente fortes, mas descobrimos que eles entortam mais do que imaginávamos. Então voltamos e mudamos as regras."

Apesar de ser extremamente redutor colocar desta forma, um piloto da Nascar tem duas metas principais: vencer uma corrida e não morrer. As recentes medidas de segurança da Nascar parecem ter reduzido consideravelmente a probabilidade de morte. Assim, será que os pilotos agora estariam dispostos a se arriscarem mais?

Quando uma colisão se torna menos cara, um economista esperaria os pilotos batendo feito loucos; será que as medidas de segurança da Nascar teriam levado a menos mortes, só que a mais batidas?

Uma rápida análise dos dados parece sugerir que sim. Nas provas do ano passado da Nextel Cup, 345 carros se envolveram em acidentes, um recorde. Mas como apontou Matt Kenseth, as duas provas da copa realizadas durante2005 na Lowe's Motor Speedway, perto de Charlotte, Carolina do Norte, foram incomumente brutais- a pista tinha uma nova superfície que furou vários pneus- e pode ter de forma anômala afetado o número de acidentes.

"Em Charlotte, praticamente todo mundo bateu em ambas as corridas", disse ele. "Foi culpa da pista e dos pneus -mas se você remover estas duas provas, os acidentes provavelmente empataram." E de fato ocorreram menos acidentes em 2004 do que em 2003.

Apesar do número de acidentes ter subido um pouco desde a morte de Earnhardt (a Nascar não divulgará a contagem anual de acidentes, mas um representante confirmou a tendência), eles não aumentaram tanto quanto um economista poderia ter previsto com base em como as medidas de segurança da Nascar poderiam ter mudado os incentivos aos pilotos.

Talvez isto se deva porque há outros incentivos em ação, talvez mais fortes.

O primeiro é que a Nascar aumentou as penas para direção imprudente, não apenas multando os pilotos, mas também subtraindo pontos do campeonato. O outro está em como o próprio campeonato foi reestruturado.

Há dois anos a Nascar deu à sua temporada de 36 corridas um formato de playoff. Para se classificar para os playoffs -e ter uma chance de ganhar o campeonato de mais de US$ 6 milhões- um piloto deve estar entre os líderes de pontuação após as primeiras 26 provas da temporada.

Apesar de um par de vigésimos lugares nestas 26 primeiras provas não necessariamente arruinarem suas esperanças de ser campeão (cada corrida conta com 43 carros), alguns acidentes feios podem arruinar.

Assim, a Nascar reduziu o risco mas impôs um incentivo financeiro, mantendo assim o equilíbrio delicado e brilhante que cultivou: ela tem acidentes suficientes para agradar seus fãs, mas não demais para destruir o esporte -ou seus pilotos.

(Os fãs da Nascar adoram batidas da mesma forma que os fãs de hóquei adoram brigas; quando você assiste aos compactos de provas da Nascar no Speed Channel, a trama é sempre a mesma: bandeira verde, batida, batida, batida, batida, batida, bandeira quadriculada.)

E aqui se encontra a estatística mais impressionante ligada à Nascar e segurança do piloto. Nos últimos cinco anos, mais de 3 mil veículos bateram nas três principais divisões da Nascar, com nenhuma fatalidade.

Como isto se compara aos acidentes nas estradas americanas? Em viagens interestaduais, há 5,2 mortes de motoristas por 1.000 acidentes. Nesta taxa, seria provável que tais 3 mil acidentes na Nascar tivessem resultado em pelo menos 15 mortes -mas não ocorreu nenhuma.

Certamente há diferenças significativas entre dirigir em uma Interestadual e na Nascar. Um motorista na Interestadual tem que encarar tempo ruim, motoristas bêbados e carros vindo contra ele na direção oposta. Por outro lado, um piloto na Daytona 500 está freqüentemente rodando a 290 km/h em um trânsito de pára-choque encostando em pára-choque.

Com mais de 37 mil americanos morrendo em acidentes de trânsito a cada ano, poderia ser tentador impor algumas das normas de segurança da Nascar ao motorista comum. Mas considerando quão relativamente seguro é dirigir neste país, os custos adicionais, medidos tanto em dólares quanto em conforto, seriam altos.

Você poderia estar disposto a usar um cinto de segurança de cinco pontas em vez do típico de três pontas e certamente seria mais seguro se o fizesse.

Mas você estaria pronto para usar um capacete e um macacão à prova de fogo toda vez que fosse dirigir até o supermercado? George El Khouri Andolfato

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