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18/03/2006

Apesar das alegações, prisioneiro iraquiano não é o homem da fotografia de abuso

The New York Times
Kate Zernike
No verão de 2004, um grupo de ex-detentos da prisão de Abu Ghraib impetrou um processo alegando serem as vítimas do abuso registrado nas fotos que provocaram ultraje em todo o mundo.

Shawn Baldwin/The New York Times 
Ao contrário do que afirmava em reportagem anterior, Ali Shalai Qaissi não é homem na foto

Um deles, Ali Shalal Qaissi, logo despontou como seu principal representante, aparecendo em publicações e na televisão em vários países para detalhar seu sofrimento. Sua proeminência fazia sentido, porque alegava ser o homem na foto que se tornou um ícone internacional do escândalo de Abu Ghraib: em pé sobre uma caixa de papelão, encapuzado, com fios presos em seus braços esticados. Ele até mesmo colocou a silhueta daquela imagem em seu cartão de visita.

O problema é que o homem na foto não é Qaissi.

Investigadores militares identificaram o homem na caixa como um detido diferente que descreveu o episódio em uma declaração juramentada, imediatamente após as fotos terem sido descobertas em janeiro de 2004, mas depois o homem aparentemente se calou.

Qaissi preencheu energicamente o vácuo, viajando ao exterior com exibições de slides para argumentar que o abuso no Iraque continua, como chefe de um grupo chamado Associação das Vítimas das Prisões da Ocupação Americana.

O "New York Times" publicou um perfil dele no sábado passado, em um artigo de primeira página; nele, Qaissi insistiu que nunca buscou a fama por seu status de ícone. Qaissi foi entrevistado em várias ocasiões anteriores, incluindo pelo programa "Now" da "PBS", pelas revistas "Vanity Fair" e "Der Spiegel" e pela mídia italiana como o homem da caixa.

Nesta semana, após a revista online "Salon" ter questionado a identidade do homem na fotografia, Qaissi e seus advogados insistiram que ele estava dizendo a verdade.

Certamente ele esteve em Abu Ghraib e aparece com um capuz em sua cabeça em algumas das fotos que os investigadores do Exército apreenderam no computador pertencente a Charles Graner, o soldado que foi condenado como líder do grupo responsável pelo abuso.

Mas ele agora reconhece que não é o homem na foto específica que imprimiu e segurou na foto que acompanhou o artigo dos "Times". Mas ele e seus advogados argumentam que ele foi fotografado em uma posição semelhante, foi submetido a choques com fios e que ele é aquele que está no cartão de visita. O Exército diz acreditar que apenas um prisioneiro foi tratado daquela forma.

"Eu sei de uma coisa", disse Qaissi na sexta-feira, irrompendo em lágrimas quando contatado por telefone. "Eu vesti o cobertor, eu subi na caixa, fui preso a fios e eletrocutado."

Susan Burke, uma advogada na Filadélfia que está representando Qaissi e outros ex-prisioneiros em um processo contra os interrogadores civis e tradutores em Abu Ghraib, disse que Qaissi sofreu o mesmo abuso que o homem na foto. "O fato triste é que há apenas um homem sobre a caixa", disse ela. "Haj Ali é apenas uma das muitas vítimas de tortura por Graner e outros."

Na entrevista para o artigo, Qaissi apontou para sua mão deformada e disse que era igual à mão na foto. Mas um olhar mais atento à foto não é conclusivo.

Não se sabe se ele foi forçado a subir na caixa e foi fotografado, mas a evidência sugere que ele adotou a identidade do homem na caixa, o símbolo de Abu Ghraib, muito depois de ter deixado a prisão.

Os registros da prisão confirmam que Qaissi se tornou o preso 151716 algum tempo depois de ter sido aberta em junho de 2003, mas não dá datas certas; um ex-membro do Partido Baath de 43 anos e um prefeito de bairro em Bagdá, ele disse ter chegado a Abu Ghraib em outubro de 2003 e que foi libertado em março de 2004, dois meses depois do Exército ter iniciado a investigação do abuso. E ele sofreu os maus-tratos e a humilhação nas mãos das mesmas pessoas que fotografaram o homem sobre a caixa: as fotos que os investigadores apreenderam mostram ele sendo forçado a se agachar, identificável por sua mão aleijada, com o apelido que os guardas lhe deram -"O Garra"- escrito com caneta marcadora em seu macacão laranja.

Mas se era o homem encapuzado sobre a caixa, ele não mencionou em várias ocasiões chaves nos primeiros meses após o estouro do escândalo.

Na primavera de 2004, Qaissi abordou Muhammad Hamid Al Moussawi, o vice-diretor da Organização de Direitos Humanos do Iraque, que propôs aos homens a formação de um grupo de prisioneiros da ocupação, disse Al Moussawi nesta semana. Mas Qaissi nunca disse na época que era o homem na fotografia, lembrou Al Moussawi, apesar de que já tinha sido publicada o bastante para se tornar o emblema do escândalo de Abu Ghraib. Qaissi disse simplesmente que ficou detido em Abu Ghraib e que queria formar uma associação de prisioneiros, disse Al Moussawi.

Um jornalista que entrevistou Qaissi três vezes naquele maio e junho sobre o que aconteceu em Abu Ghraib, também disse que ele nunca mencionou as outras crueldades que descreveu no artigo do "Times". Ele disse, após olhar para suas anotações, que "não há nada sobre ficar em pé sobre uma caixa, nada sobre choques elétricos ou fios".

Um processo do qual Qaissi faz parte, impetrado em 27 de julho de 2004, também não faz citação de que foi eletrocutado com fios ou forçado a ficar em pé sobre uma caixa. Tal alegação só aparece em uma versão emendada da queixa que ele impetrou posteriormente, apresentada no mês passado, que diz que ele foi forçado a subir em uma caixa da qual caiu devidos aos choques elétricos: "Eles repetiram isto pelo menos cinco vezes".

Outro homem que já tinha sido publicamente identificado como o homem sobre a caixa em maio de 2004, quando documentos incluindo os registros e declarações juramentadas dos detidos e soldados vazaram para o "Times".

Em 22 de maio de 2004, o "Times" citou o depoimento de Abdou Hussain Saad Faleh: "Então um soldado negro e alto veio e colocou fios elétricos nos dedos das minhas mãos e pés e no meu pênis, e eu tinha um saco em minha cabeça. Então ele disse: 'Qual é a chave para ligar a eletricidade?'"

Sabrina Harman, um dos soldados que foram posteriormente condenados pelo abuso, identificou o homem por seu apelido, "Gilligan", em sua declaração.

Ela deixou espaço para que se acredite que outros foram sujeitados ao mesmo tratamento. "A parte dos fios", ela disse, foi idéia dela, mas ela disse que Garner e o sargento Ivan Frederick II tinham forçado os detentos a subirem em uma caixa e ficarem acordados e que o fizeram a pedido da inteligência militar. As fotos de Abu Ghraib mostram mais de um exemplo de homem encapuzado a ser forçado a ficar em pé sobre caixas.

Mas Chris Grey, um porta-voz do Comando de Investigação Criminal do Exército, disse que as forças armadas acreditam que Saad foi o único prisioneiro a ser sujeitado ao tratamento exibido na foto.

"Até o momento, e após uma ampla investigação criminal, nós não dispomos nem de informação crível e nem de motivos para acreditar que ocorreu mais de um incidente desta natureza", ele disse.

A advogada de Qaissi, Burke, rebateu: "Nós não confiamos nos torturadores".

Qaissi parece ter começado a se identificar como o homem encapuzado no outono de 2004, no momento em que iniciou seu grupo de prisioneiros em uma mesquita politicamente carregada em Bagdá.

Em um artigo em fevereiro de 2005 para a revista "Vanity Fair", Donovan Webster identificou Qaissi como Haj Ali, o provável homem sobre a caixa, com base em uma ampla investigação dos registros militares. Logo, Qaissi apareceu em vários artigos, incluindo um na revista "Der Spiegel", republicado pelo "Salon", assim como no programa "Now" do canal "PBS", onde descreveu ter sido eletrocutado: "Eu senti como se meus globos oculares estivessem saindo para fora das órbitas. Eu caí e eles me levantaram de novo para mais. Uma vez eu mordi a língua tão fortemente que minha boca ficou cheia de sangue".

Com sua voz suave e humor ocasionalmente autodepreciativo, ele impressionou os espectadores como sendo afável e crível. Ele contou sua história com tamanho detalhe que isto o diferenciava de muitos outros.

Grande parte de suas afirmações e detalhes puderam ser confirmados, Webster e outros enfatizaram. Em sua entrevista de três horas para o "Times", Qaissi não se desviou dos detalhes relatados e parecia confiante em sua discussão, pontuando sua história com uma risada amarga e ocasionalmente lágrimas. Mas ele nunca levantou a possibilidade de que outro homem pudesse também ter sido fotografado na mesma pose.

Os representantes de diretos humanos também ficaram compelidos pela história dele. Em seu artigo no sábado, o "Times" se apoiou em parte nas declarações deles de que ele poderia ser o homem encapuzado, assim como nos registros da prisão e entrevistas com amigos e seus advogados, que disseram estar de posse do cobertor de Qaissi, o mesmo, segundo eles, que envolvia o homem na foto. Oficiais do Exército se recusaram na época a confirmar ou refutar as alegações de Qaissi, citando proteções de privacidade da Convenção de Genebra.

Abdel Jabbar Al Azzawi, que atualmente vive em Bagdá e diz que estava na prisão tanto com Qaissi quanto com o homem apelidado de Gilligan e que participa do processo, disse que viu Qaissi usando o cobertor transformado em poncho retratado na foto, apesar de não ter visto as fotos sendo tiradas.

Os advogados de Qaissi também enfatizam que a foto não é a base do caso. No processo, ele também disse que foi socado, chutado, golpeado com uma vara e acorrentado a sua cela enquanto seus captores jogavam água fria sobre seu corpo nu.

Enquanto isso, não se sabe o que aconteceu ao verdadeiro homem encapuzado, Saad. Um porta-voz do Exército americano disse que ele foi libertado da custódia americana em janeiro de 2004. Líderes tribais e o gerente de uma fábrica de tijolos vizinha do endereço que os registros da prisão apontam como sendo onde ele vivia, disseram nunca ter ouvido o nome; além disso, eles disseram, os detidos freqüentemente inventam identidades quando estão presos. Os advogados de Qaissi disseram que não tentaram procurá-lo.

Hassan M. Fattah, em Beirute, Eric Schmitt, em Washington, e funcionários iraquianos do "The New York Times" contribuíram com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

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