UOL Notícias Internacional
 

19/03/2006

Fé e pobreza marcam a vida em um enclave muçulmano na China

The New York Times
Jim Yardley
Em Dongxiang, China
Não, o velho respondeu, em pé em sua casa despojada no fundo da ravina de uma montanha, ele nunca viu um avião. O homem, Tie Yongxiang, também nunca assistiu a televisão. Ele escutou um questionário pop e pareceu contente quando conseguiu responder a última pergunta de forma afirmativa.

China? Ele já ouviu falar a respeito?

"Eu sei o que é a China", disse Tie, 68 anos. "É um país dirigido por pessoas que deveriam estar nos ajudando."

"Nós", como Tie colocou, se refere à população de Dongxiang, um grupo étnico que vive há oito séculos nas montanhas secas, remotas, que tornam este condado na província de Gansu um dos lugares mais isolados na China.

O censo mais recente encontrou 513 mil dongxiangs na China, e a maioria esmagadora vive no condado de Dongxiang e arredores. Das 25 cidades no condado, 19 não têm nenhum chinês. A maioria não fala chinês e algumas, como Tie, têm apenas uma vaga noção da China, apesar de viverem no meio dela.

O isolamento geográfico tem ajudado a preservar uma cultura islâmica, assim como uma língua antiga, mas também separou a população de Dongxiang da prosperidade que está erguendo outras partes do país. Os dongxiangs, uma das 56 minorias étnicas oficialmente reconhecidas pela China, estão atualmente entre as pessoas mais pobres e analfabetas do país.

Em uma recente sexta-feira, dois após uma forte tempestade de neve ter coberto as montanhas e deixado uma camada de gelo nas estreitas estradas da aldeia, velhos em gorros brancos caminhavam pela neve até diferentes mesquitas. Apesar de alguns serem pobres demais para enviarem seus filhos para a escola, eles levantaram dinheiro para construir mesquitas nas aldeias e também torres graciosas com tetos curvados elegantes que servem como câmaras funerárias muçulmanas.

"O povo de Dongxiang sempre acreditou no Islã", disse Ma Ali, 36 anos, um imã de uma velha mesquita na aldeia de Hanzilin. De fato, mesmo dentro de uma região maior conhecida como o centro do Islã na China, o povo de Dongxiang tem a reputação de ser particularmente dedicada à sua fé.

"As pessoas eram devotas no passado", disse Ma Kui, 75 anos, enquanto se apoiava em uma bengala de madeira e aguardava pelas orações da tarde com outros agricultores vestindo casacos de pele de carneiro. "Elas ainda são devotas agora."

Mas como em toda parte da China, a modernidade está avançando pelas estradas sinuosas até os grandes assentamentos do condado e atraindo muitos jovens. No centro do condado, Suonanba, celulares, calças jeans e cafés de Internet chegaram há vários anos. Assim como empreiteiros chineses, cigarros, álcool e alimentos não preparados segundo o código islâmico.

"O clima islâmico tem se diluído com o tempo e os mais velhos estão cientes disto", disse Ma Chunling, que tem 22 anos. "Então eles querem proteger sua cultura, particularmente o Islã."

Ao crescer, Ma (o sobrenome é bastante comum aqui) sentiu a estranheza de ser de Dongxiang. A mãe dela contava histórias sobre se esconder em cavernas durante sua infância, temerosa da chegada dos "chineses".

"Todas as pessoas na vila aguardavam pela chegada dos chineses, que as massacrariam", disse Ma. "Mas os chineses nunca vieram."

Ma, atualmente uma professora primária, passou três anos em uma escola vocacional na cidade portuária de Tianjin, ao leste, e queria ficar e se tornar uma cabeleireira. Mas ela disse que seus pais eram muçulmanos conservadores que acreditavam ser impróprio para uma mulher solteira viajar para longe de casa.

"Muitos jovens querem partir e ver o restante da China", disse ela. "Mas freqüentemente as famílias não permitem. Ainda é muito, muito isolado."

Por anos, muitos estudiosos chineses presumiram que os dongxiangs descendiam dos soldados mongóis do exército de Genghis Khan, que no final se assentaram em Gansu durante o século 13, quando os mongóis governaram a China sob a dinastia Yuan. Mas a origem exata deles nunca foi plenamente conhecida, uma incerteza que alimentou um complexo de inferioridade.

"Um homem certa vez me perguntou: 'De onde vêm os dongxiangs?'", disse Ma Zhiyong, uma historiador que cresceu no condado mas se mudou para a capital da província, Lanzhou, na adolescência. "Eu tinha 18 ou 19 anos e não pude dar uma resposta. Eu fiquei envergonhado."

Ma decidiu procurar por uma resposta. Ao longo de vários anos, ele realizou pesquisa em várias bibliotecas em Gansu, conversou com outros estudiosos e estudou mapas antigos. Ele descobriu que algumas aldeias de Dongxiang compartilhavam nomes com locais em países da Ásia Central como o Uzbequistão.

Ele também encontrou costumes compartilhados. Ele disse que os camponeses no Uzbequistão e em Dongxiang aprendem a cortar uma galinha morta em 13 pedaços. Ele descobriu que os dongxiangs se descreviam como sarta, um termo que antes se referia aos mercadores muçulmanos na Ásia Central.

Há até mesmo uma semelhança física, já que muitos dongxiangs se parecem mais com pessoas da Ásia Central do que com os chineses han.

Ma decidiu que a história sobre o exército de Genghis Khan estava apenas parcialmente correta. Alguns dos ancestrais dos dongxiangs eram soldados mongóis. Mas ele concluiu que muitos outros eram um grupo diverso de artesãos do Oriente Médio e da Ásia Central recrutados pelo exército mongol durante a famosa campanha ocidental de Khan. Eles trouxeram várias línguas e, em muitos casos, uma forte crença no Islã.

Ma disse que gerações de casamentos, incluindo com chineses han locais e tibetanos, resultaram em um novo grupo étnico e linguagem.

A língua, apesar de uma fonte de orgulho, também é culpada pelo atraso educacional de Dongxiang. A linguagem é oral, de forma que as crianças nunca aprendem a ler ou escrever em sua língua natal.

Na escola de gramática, o currículo é em chinês e muitos estudantes a abandonam. Estatísticas do governo mostram que, em média, os dongxiangs têm apenas 1,1 ano de escolaridade.

Devido ao custo, muitas famílias nunca enviam seus filhos à escola, particularmente as filhas.

"Quando eu estava na escola primária, eu não entendia o que estava aprendendo", disse Chen Yuanlong, uma autoridade local e estudioso. "Eu queria freqüentemente falar com o professor, mas não conseguia comunicar minhas idéias em chinês. Foi muito difícil."

O desafio de tentar ensinar chinês às crianças dongxiangs tem atraído grupos de ajuda internacionais à região. O governo britânico está financiando um grande programa de treinamento para os professores.

Outro programa piloto, pago pela Fundação Ford, tem criado um currículo bilíngüe usando um dicionário dongxiang-chinês desenvolvido por Chen e outros estudiosos. Tal programa já produziu uma melhoria nas notas escolares, mas seus defensores estão buscando por um maior apoio financeiro.

A educação é um problema fundamental para muitas pessoas que ainda lutam apenas para sobreviver. As aldeias nas ravinas mais profundas dependem de batatas e enfrentam fome durante os anos de seca.

Alguns homens que vivem mais próximos das estradas e do comércio se tornaram mulas para traficantes de drogas. Outros partiram para realizar trabalho braçal em cidades maiores, demolindo prédios ou trabalhando como açougueiros ou lavadores de pratos.

Tie, o homem que enfrentou o questionário pop, é velho demais para tais trabalhos. Ele vive na metade da descida de uma ravina com sua esposa e filho mentalmente retardado de 16 anos. "Nós mendigamos", disse Tie. "Nós temos terra, mas quando nossa colheita não é suficiente, nós vamos para as aldeias próximas e mendigamos."

Mais abaixo na ravina, mais próximo da estrada que leva ao centro do condado, Ma Hezhe, 25 anos, cuidava de seu filho de três meses. A família dela parece um retrato de Dongxiang: dois dos irmãos do marido dela deixaram o condado para trabalhar como operários migrantes; sua sogra, aconchegada no canto da cama comum, nunca saiu de Dongxiang em toda sua vida. O minúsculo bebê, a geração mais nova, recebeu um nome islâmico, Ibrahim.

Ma ainda não lhe deu um nome chinês. "Ele não precisa de um até começar a escola", ela disse. É um costume local, ela acrescentou, esperar até a criança "entrar em contato" com a sociedade chinesa.

Ainda levará muito tempo. George El Khouri Andolfato

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