UOL Notícias Internacional
 

20/03/2006

Preços justos para os fazendeiros: idéia simples, realidade complexa

The New York Times
Por Jennifer Alsever
Tim Terman sempre procura o logo preto e branco de certificação da Fair Trade (Comércio Justo) ao comprar sacas de café da Cooperativa Montain People's, em Morgantown, Virgínia Ocidental. Ele paga quase o dobro do preço cobrado pelo café convencional - quase US$ 20 o quilo -, esperando que os dólares extras sejam embolsados por fazendeiros que enfrentam dificuldades. Mas nem sempre é isso o que acontece.

Apesar das boas intenções, a maioria dos consumidores que compra de acordo com as suas convicções sociais não sabe quanto do seu dinheiro chega até às pessoas a quem pretende ajudar. Os críticos dizem que grande parte dos dólares envolvidos nesses processos comerciais acaba nos bolsos de varejistas e atravessadores, incluindo organizações sem fins lucrativos.

Mas as organizações envolvidas na questão do comércio justo afirmam que os benefícios chegam a quem precisa. Paul Rice, diretor-executivo da TransFair USA, que controla as certificações de Fair Trade nos Estados Unidos, afirma que os programas às vezes eliminam até cinco intermediários - comprador local, moedor, exportador, transportador e importador -, possibilitando que os fazendeiros lidem diretamente com um atacadista norte-americano. "Isso está dando aos fazendeiros mais condições para que estes criem um poderoso negócio de exportação", afirma Rice. "Quando eles fazem tal coisa, conseguem preços substancialmente maiores, que com freqüência são o dobro ou o triplo daqueles tradicionalmente obtidos. Se os consumidores pagam um preço extra por esses produtos, isto significa que o conceito está funcionando. Eles colocam o dinheiro onde lhes interessa".

A TransFair USA e outras 19 agências sem fins lucrativos similares em outros países coletam taxas de licenciamento sobre cada produto que utiliza o rótulo Fair Trade. Todas elas respondem a um grupo principal, o Fairtrade Labelling Organizations International, com sede em Bonn, que também monitora os fazendeiros e analisa as taxas para a participação no sistema de comércio justo.

A TransFair descreve as suas taxas para uso da logomarca como bastante módicas. Mas elas estão ficando cada vez mais pesadas. No ano passado, foi gerado US$ 1,89 milhão em taxas de licenciamento de companhias que utilizaram o logo. Ela também investiu US$ 1,7 milhão em salários, viagens, conferências e publicações para a organização que tem 40 funcionários.

Alguns críticos acham tais custos excessivos. "Os fazendeiros freqüentemente recebem muito pouco", afirma Lawrence Solomon, diretor de gerenciamento da Fundação de Pesquisas Energy Probe, uma firma canadense que analisa questões relativas a comércio e consumo. "Muitas vezes o rótulo de comércio justo é vendido a um preço elevado, mas a quantia extra vai toda ela para o bolso dos intermediários".

Os programas de comércio justo, que prometem uma "remuneração justa" às famílias de fazendeiros, cresceram com rapidez. Atualmente, 35 mil lojas e restaurantes em todo o território dos Estados Unidos, incluindo algumas unidade do McDonalds e da Dunkin Donuts, comercializam produtos que trazem o rótulo de comércio justo, o que representa um crescimento de 60% desta atividade em três anos.

Desde 1999, mais de 45 milhões de quilos de produtos como café, cacau, chá, arroz, açúcar, banana, manga, abacaxi e uva com a certificação Fair Trade foram importados pelos Estados Unidos. As vendas de café com tal certificação triplicaram no período, fazendo deste o setor que mais rapidamente cresce no comércio internacional de café.

"Existem atualmente 800 mil agricultores de pequeno porte se beneficiando do comércio justo", afirma Rick Peyser, diretor de advocacia social do grupo de torrefação e moagem de café Green Mountain Coffee Roasters, em Waterbury, Vermont. O café com a certificação de comércio justo corresponde atualmente a 23% das vendas anuais do produto, que chegam a US$ 161,5 milhões.

Mesmo assim, pode ser difícil para os consumidores quantificar o benefício que eles proporcionam aos fazendeiros, ou entender as complexidades dos programas. Atualmente, até 137 rótulos de alimentos, do "não prejudica os salmões" até o "amigo da camada de ozônio", procuram sensibilizar consumidores como Terman, que têm consciência dos problemas sociais.

Os rótulos Fair Trade não especificam as quantias pagas aos fazendeiros. Tais quantias podem variar, dependendo do produto. Uma análise com base em informações da TransFair revela que os produtores de cacau recebem três centavos de dólar por cada US$ 3,49 gastos com uma barra de chocolate de cem gramas que traga o rótulo "comércio justo orgânico", vendida na Target. Os fazendeiros recebem 24 centavos por pacote de uma libra (454 gramas) de açúcar que possui o rótulo de comércio justo, vendido na Whole Foods a R$ 3,79.

"Não há motivos para que os produtos com rótulo de comércio justo precisem ter um preço astronomicamente mais alto do que os produtos tradicionais", opina Nicole Chettero, porta-voz da TransFair USA. "Nós acreditamos sinceramente que o mercado encontrará uma situação de equilíbrio à medida que os produtos com certificado Fair Trade deixem de ocupar um nicho restrito do mercado e passem a ser uma opção de consumo de massa. À medida que a demanda e o volume dos produtos com certificado Fair Trade aumentarem, os vendedores começarão naturalmente a reduzir os preços, para continuarem competitivos".

Na Europa, onde a certificação de comércio justo é mais generalizada, alguns críticos dizem que os comerciantes se aproveitaram de consumidores que não são muito sensíveis aos preços. Em determinado momento, a maior rede de lojas de café do Reino Unido, a Costa Coffee, aumentou o preço da xícara de cappuccino feito com café com certificação Fair Trade em 18 centavos. Mas este café custava à rede apenas um ou dois centavos a mais, segundo Tim Harford, autor do livro "The Undercover Economist" ("O Economista Secreto"). Depois disso, a rede abandonou tal prática.

"Os produtos Fair Trade trazem em si a promessa de que os produtores serão bastante beneficiados", diz Harford. "Mas eles não garantem que o consumidor fará um bom negócio".

Cada produto Fair Trade possui o seu próprio preço de comércio justo, ou o preço mínimo que os produtores receberão, mesmo que os preços dos produtos convencionais despenquem. A idéia é que tal preço permita que eles arquem com os custos da produção e melhorem as suas vidas. Mas um preço que é justo em um determinado país, pode não o ser em outro.

"No Brasil, US$ 1,26 por libra (0,454 gramas) de café é uma fortuna", explica Kevin Knox, consultor de cafeicultura em Boulder, Colorado. "Já na região de florestas das montanhas do México, esse dinheiro mal dá para justificar o cultivo de cafezais".

Em certos casos, fazendeiros individuais podem receber menos do que o estipulado pelas regras do comércio justo, porque o dinheiro vai para cooperativas, que possuem os seus próprios diretores encarregados de decidir quanto será repassado aos fazendeiros.

"Analisamos o processo e descobrimos que, às vezes, aquilo que eles estão pagando aos fazendeiros é apenas 70 ou 80 centavos por libra de café, em vez do preço integral determinado pelas regras do livre comércio, que é de US$ 1,26", afirma Christy Thorns, uma compradora da Allegro Coffee, em Thornton, Colorado, que é propriedade da Whole Foods. Ela diz que a Transfair "não informa claramente aos consumidores a respeito disso".

A Allegro é uma entre várias companhias de café e chá que estão estabelecendo os seus próprios sistemas para trabalharem diretamente com fazendeiros e protegerem o meio-ambiente. A Alegro compra parte do seu café dos fazendeiros inscritos no sistema Fair Trade, pagando-os com base na qualidade, e não nos preços de mercado. Segundo Thorns, em certos casos, a Allegro paga aos fazendeiros até US$ 2,25 por libra.

A Starbucks, que comprou 5,2 milhões de café Fair Trade no ano passado, criou um programa chamado CAFE, acrônimo de Coffee and Farmer Equity Practices (algo como Práticas de Investimentos para Café e Fazendeiros), e procura assegurar qualidade e proteção do meio-ambiente. A Starbucks exige que os fornecedores forneçam recibos demonstrando o quanto recebeu cada componente da cadeia de fornecimento, mas não fixou nenhum preço para o café.

Mesmo assim, o sistema de comércio justo, que é independente da indústria de alimentos, é importante para Shel Horowitz, um escritor de Hadley, Massachusetts. Ele compra produtos fair trade sempre que pode, especialmente aqueles derivados de cacau, depois que leu que grande parte do cacau que vem da Costa do Marfim é produzido com mão-de-obra infantil escrava.

"Quando descobri tal coisa, fiquei horrorizado", conta Horowitz. "Não quis fazer parte de tal esquema. Tento minimizar o impacto do meu consumismo sobre as pessoas que possuem muito pouco". Danilo Fonseca

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