UOL Notícias Internacional
 

20/03/2006

Protestos contra nova lei trabalhista se espalham por 150 cidades francesas

The New York Times
Por Elaine Sciolino, em Paris*
Estudantes uniram forças a professores, trabalhadores, aposentados, políticos oposicionistas e líderes sindicais em mais de 150 cidades e vilas de toda a França no último sábado, no maior protesto de âmbito nacional contra a nova lei de primeiro emprego anunciada pelo governo.

Várias figuras de notoriedade se juntaram à manifestação, incluindo Bertrand Delanoe, o prefeito de Paris; François Hollande, o líder do Partido Socialista; Jack Lang, um ex-ministro da Cultura; e Marie-George Buffet, a líder do Partido Comunista.

As manifestações foram o clímax de uma semana de protestos que causaram a paralisação de dezenas de universidades e fizeram com que o primeiro-ministro Dominique de Villepin enfrentasse uma das crises mais graves dos seus dez meses no cargo.

O enorme sindicato de esquerda CGT estima que 1,5 milhão de pessoas saíram às ruas para protestar em todo o país. O Ministério do Interior calcula que o número de manifestantes foi de 500 mil, e que 80 mil deles estariam em Paris.

Os manifestantes prometeram continuar protestando até que o governo retroceda. Bernard Thibault, o líder da CGT, disse: "Se eles não nos derem ouvidos, teremos que pensar em fazer uma greve geral em todo o país".

Jean-Claude Mailly, o líder da união esquerdista Force Ouvriere, disse em uma entrevista por telefone após o protesto: "O primeiro-ministro precisa entender que tem que anular esta lei trabalhista antes que se possa dar início a um verdadeiro diálogo".

Bruno Julliard, o líder do movimento estudantil que primeiro organizou os protestos, ameaçou: "Se até a noite de sábado o governo não tiver anulado essa lei, continuaremos com os protestos".

Os manifestantes querem o fim da nova lei - conhecida como Contrato de Primeiro Emprego (CPE), e que deverá entrar em vigor em abril - que permite que, durante um período de dois anos, os patrões demitam os novos empregados com menos de 26 anos sem justa causa.

Elaborada pelo governo para ajudar a amenizar a crise de desemprego elevado e crônico, especialmente entre os jovens pobres, após as rebeliões nos subúrbios ocorridas no outono passado, a lei é vista pelos seus oponentes como um passo rumo ao desmantelamento do sistema de direitos e benefícios trabalhistas, há muito apreciado pela população.

Os manifestantes chamam atenção para o fato de a lei ter sido submetida ao parlamento sem nenhum debate, e acusam os seus mentores de discriminação para com a idade. Eles apelidaram a lei de "contrato Kleenex", já que os jovens trabalhadores poderão ser descartados como lenços de papel usados.

O desemprego na França é de quase 20%, e 23% dos cidadãos franceses com menos de 26 anos estão desempregados, o que representa um dos mais altos índices de desemprego da Europa. Em alguns dos grandes subúrbios urbanos este número chega quase ao dobro.

Na última sexta-feira o presidente Jacques Chirac pediu aos manifestantes que demonstrassem "calma e respeito", e as tropas policiais de choque atuaram com energia em toda a França no sábado.

As autoridades estão em alerta com relação àqueles que chamam de "criminosos profissionais", depois que brigas de rua irromperam no final da última quinta-feira em Paris. A polícia usou bombas de gás lacrimogêneo e canhões de água para conter a violência.

Mas os protestos foram, em sua maioria, pacíficos.

Sob o ensolarado céu parisiense, na tarde de sábado, a polícia, antecipando problemas, pediu aos lojistas cujos estabelecimentos ficavam ao longo da rota da passeata, que fechassem as portas.

Mas as manifestações tiveram início com um espírito de festa, com balões e música dos Rolling Stones e de Madonna. Aos manifestantes se juntaram pais com seus filhos. Funcionários dos principais sindicatos, em carrocerias de caminhões, distribuíram faixas e bandeiras. Vendedores de rua vendiam cachorros-quentes e kebabs.

"Estou cansado de todos esses contratos falsos e quero proteger o futuro dos meus filhos", disse Carole Cases, uma enfermeira de 43 anos, acompanhada de dois dos seus filhos, que mora no subúrbio parisiense de Noisy-le-Grand. "Eles estão tentando ludibriar os jovens".

"Villepin, seu imbecil não eleito", dizia uma faixa. Em uma indicação de que a primavera, a temporada de protestos e greves na França, está chegando, uma outra faixa dizia: "Vida Longa à Primavera".

A medida trabalhista não parece ter sido bem recebida pelos jovens desempregados dos subúrbios, que também se preocupam com o fato de a medida não proporcionar qualquer segurança trabalhista de longo prazo.

"É uma medida estúpida", acusa Mariam Sidibe, um estudante de 17 anos, descendente de malineses, que mora em Les Mureaux, um subúrbio de operários de Paris no qual ocorreram rebeliões no outono passado. Ela participou das passeatas do último fim de semana. "Esta lei fará com que haja mais desemprego".

A polícia de Paris usou gás lacrimogêneo para dispersar um pequeno grupo de jovens que jogavam garrafas e pedras contra os policiais na Place de la Nation, o ponto final das passeatas. Os manifestantes quebraram vitrines de lojas e incendiaram um automóvel.

Em Lyon, estudantes franceses que protestavam contra a lei entraram em choque com turcos que faziam uma manifestação contra a construção de um memorial em homenagem às vítimas armênias de um massacre ocorrido em 1915. Os jovens gritaram, "Fascistas!", e "Voltem Para Casa!".

Os dois grupos lançaram objetos um contra o outro e entraram em confronto corporal. A polícia utilizou canhões de água para dispersá-los.

Em Marselha, a polícia usou gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes que substituíram a bandeira francesa tricolor na prefeitura por uma faixa vermelha e preta com os dizeres: "Anticapitalismo e autogerenciamento".

Em Nancy, cerca de 200 jovens bloquearam as estradas de ferro durante uma hora, jogando pedras contra a polícia, que revidou com bombas de gás lacrimogêneo.

Em Rennes, os manifestantes bloquearam uma ferrovia por cerca de uma hora. A polícia usou bombas de gás lacrimogêneo para afastar os manifestantes que atacaram o escritório local do partido governista UMP.

A polícia ainda investiga quais grupos foram responsáveis pela violência no centro de Paris na noite da última quinta-feira.

Foi durante aquele protesto que as tropas de choque dispararam bombas de gás lacrimogêneo para dispersar grupos de jovens que jogavam pedras e garrafas contra os policiais, e que queimaram uma banca de revistas próximo à luxuosa loja Bon Marche. A polícia também usou canhões de água contra os manifestantes que incendiaram uma livraria e destruíram o terraço de um café na praça em frente à Sorbonne.

Grupos de extrema direita, de extrema esquerda e anarquistas estão sendo responsabilizados por incitar a violência. O braço jovem da direitista Frente Nacional, por exemplo, distribuiu panfletos antiesquerdistas com os dizeres: "Parasitas, saiam das nossas universidades".

Cerca de 300 pessoas foram presas em uma semana de protestos. Mais de cem policiais e 21 manifestantes ficaram feridos. Em uma reunião com oficiais das tropas policiais de choque na última sexta-feira, o ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, que, assim como Villepin, deseja disputar a presidência no ano que vem, mostrou um capacete de polícia danificado às câmeras. "Aqueles que fizeram isto não são manifestantes, e sim criminosos", acusou.

Até momento, Villepin, cujos índices de popularidade entraram recentemente em colapso, tem sido o principal alvo das críticas feitas pelos oponentes da nova lei, e Sarkozy pouco falou sobre o assunto.

Na noite de sexta-feira, Villepin se reuniu com um grupo de presidentes de universidades que lhe pediram que suspendesse as novas medidas para "um período de reflexão" de seis meses.

"Nós lhe dissemos que as coisas estão piorando e que a semana que vem poderia ser muito arriscada", disse Yannick Vallee, primeiro-vice-presidente da conferência de presidentes de universidades.

Villepin pediu aos manifestantes que acabassem com os piquetes e deixassem aqueles que não estão em greve estudar. "Queremos que os estudantes se preparem confiantemente para os seus exames, e que tenham o direito de estudar", disse ele.

Segundo o Ministério da Educação Nacional, bem mais da metade das 84 universidades públicas da França se encontrava fechada, ou parcialmente paralisada, devido aos piquetes montados pelos estudantes. Na sexta-feira, estudantes exigindo o direito de estudar fizeram manifestações em Paris e em várias outras cidades universitárias.

* Colaborou Ariane Bernard, de Paris Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host