UOL Notícias Internacional
 

21/03/2006

Ano Novo, com fogos e reunião familiar, desafiando os linhas-duras muçulmanos

The New York Times
Michael Slackman
Em Isfahan, Irã
No fim de semana, ao longo de todo dia e toda noite, a rua principal desta cidade esteve lotada com consumidores correndo para comprar presentes de última hora e doces para se prepararem para a comemoração do Ano Novo iraniano, chamado Nowruz. Atrás de seu balcão amontoado em uma loja de antigüidades, Sayed Ali Zargabashi assistia com grande satisfação enquanto as multidões literalmente não cabiam nas calçadas.

"As pessoas não estão dando ouvidos ao regime", disse Zargabashi, 63 anos. "Elas estão enfatizando e abraçando as comemorações tradicionais. As pessoas querem o melhor que podem ter. Seus olhos estão abertos agora."

Após a Revolução Islâmica em 1979, os aiatolás do governo buscaram erradicar muitas tradições, como o Nowruz, uma comemoração que remonta milhares de anos para marcar a chegada da primavera. A comemoração é considerada por muitos aqui como o mais iraniano dos feriados.

Os aiatolás tentaram e fracassaram.

Agora, quase três décadas depois, algumas pessoas dizem que a celebração cada vez mais entusiástica do Nowruz e de outras tradições antigas representa uma resistência contra os líderes religiosos mais conservadores do país. Poucos dias antes do Nowruz, por exemplo, os iranianos saíram de suas casas para celebrar o Chahar Shanbeh Suri, disparando fogos de artifício e saltando sobre pequenas fogueiras acesas nas ruas, uma prática tradicional que visa trazer boa saúde no ano novo. Vários anos atrás o governo decidiu que não era capaz de impedir a prática e criou parques especiais onde as fogueiras podiam ser acesas.

A comemoração deste ano -um tempo para reuniões familiares- provou ser particularmente vexatória para a liderança religiosa por ter ocorrido na segunda-feira, o mesmo dia em que os fiéis deveriam lamentar a morte do imã Hussein, uma figura cuja derrota em batalha séculos atrás se tornou um momento definidor do xiismo, a seita islâmica dominante no Irã.

Alguns clérigos disseram em entrevistas que era aceitável observar o ano novo, mas como a celebração ocorreria no 40º dia após o aniversário da morte de Hussein, as pessoas não deveriam demonstrar alegria -o que provocou risadas entre algumas pessoas enquanto corriam para se aprontar.

"Eu acho que atualmente há uma resistência silenciosa no Irã, especialmente entre a classe média, disse Hamidreza Jalaipour, um sociólogo. "As pessoas estão resistindo não politicamente, mas socialmente e culturalmente."

Como a maioria dos conflitos em uma sociedade tão complexa quanto esta, a história contemporânea do Nowruz não é unilateral ou exclusivamente sobre resistência. Também é sobre acomodação. Apesar dos líderes religiosos do Irã terem adotado uma política de confrontação com o Ocidente em torno do programa nuclear de seu país, eles a contragosto cederam à insistência popular de reter, e até mesmo reforçar, as tradições não baseadas no xiismo.

Apesar de ter sido o governo reformista do ex-presidente Mohammad Khatami que decidiu estabelecer os parques para a realização das festividades de saltar fogueiras, por exemplo, a prática continuou neste ano após a eleição do presidente ideologicamente conservador Mahmoud Ahmadinejad.

O fato dos líderes religiosos do Irã terem aceito o Nowruz, assim como outras tradições pré-revolução como o Chahar Shanbeh Suri, também demonstra um grau crescente de estabilidade, à medida que a liderança do país tenta conciliar ambas as extremidades da identidade nacional iraniana -fé e cultura, disseram especialistas daqui.

Nas orações de sexta-feira da semana passada, realizadas em uma ampla arena a céu aberto na Universidade de Teerã e transmitidas para todo país, o aiatolá Ahmad Jannati, um dos principais aplicadores da rígida doutrina islâmica do Irã como chefe do Conselho Guardião, não mencionou o Chahar Shanbeh Suri. Ele também não mencionou o Nowruz, apesar de ter reconhecido que recreação era bom, desde que as pessoas continuassem observando as leis da república islâmica.

"Neste ano novo", disse Jannati de uma tribuna bem acima da multidão, "a bondade e a afeição de Deus devem estar com vocês. Nós sempre devemos observar a piedade e todas as leis decididas por Alá. Não se deve cometer pecado nem na alegria e nem na tristeza."

Ainda existe um campo de batalha entre os extremos do debate, os ultra-religiosos que gostariam de apagar elementos da identidade iraniana não explicitamente islâmicos, e outros, incluindo muitos na comunidade expatriada, que tentam minar a credibilidade do governo islâmico apelando ao nacionalismo iraniano por meio de tradições como o Char Shanbeh Suri.

"O que é interessante é que não está claro por que a oposição está tentando se beneficiar com fogueiras em pequenos arbustos e fogos de artifício, o que equivocadamente se transformou em uma tradição, e interpretá-las como uma oposição à república islâmica", escreveu Hussein Shariatmadari, editor-chefe do jornal conservador "Kayhan", na quinta-feira.

Não se sabe quando começou exatamente o Nowruz -que significa "Novo Dia"- apesar de sua origem remontar milhares de anos. No Irã, ele está estreitamente associado ao zoroastrismo, uma religião monoteísta na qual os fiéis realizam orações e rituais na presença de fogo -um símbolo de ordem, verdade e justiça. É dito que os zoroastristas formalizaram a tradição do Nowruz.

Tooran Shahriari, uma membro sênior da comunidade zoroastrista em Teerã, disse que o calendário antigo era dividido em 12 meses de 30 dias cada. No final de cada ano, ela disse, os cinco dias restantes se tornavam "dias especiais" e a base para a celebração.

Em termos práticos, o feriado significa o fim do inverno e o início da nova temporada de plantação, lembrando uma mistura da Noite de Ano Novo e Dia de Ação de Graças. Antes do feriado, os iranianos fazem uma intensa limpeza de primavera.

O feriado tem início no momento exato da primavera, e assim, na segunda-feira, as famílias iranianas se reunirão em suas casas, por volta das 22 horas, ao redor de mesas contendo sete pratos simbólicos, cada um iniciado com a letra 'S' em persa, incluindo itens como vinagre, frutas secas, alho e brotos, que representam a renovação. O feriado termina no 13º dia com um evento chamado Sizdah Bedar, quando todos devem sair para a natureza, realizar piqueniques e desfrutar o início da primavera.

Em Isfahan, havia pressa para se preparar para o feriado. Uma tradição é comprar roupas novas e os alfaiates estavam ocupados para atender as encomendas para a festa. Em uma loja, um alfaiate chamado Akbar disse que quase metade de seus negócios do ano ocorrem um mês antes do feriado. Ele disse estar certo que o Nowruz é tão popular porque as pessoas estão se rebelando contra o governo e seus códigos sociais rígidos de comportamento.

"Eles realmente tentaram tirar o Nowruz das pessoas", disse Akbar enquanto vestia um novo terno em um cliente. "As pessoas estão se afastando da religião. Elas não estão dando ouvidos ao que o governo está dizendo." Ele deu seu nome completo, mas não foi completamente identificado para protegê-lo de uma possível represália por seus comentários sobre religião, algo que freqüentemente é considerado fora dos limites neste país.

Nem todos compartilham o cinismo do alfaiate. Em vez disso, algumas pessoas que se identificaram como religiosas disseram não ver nenhum conflito com a cultura do Irã.

"Os iranianos têm tanto tradição quanto religião e ambas são respeitadas", disse Jaafar Hemmassian, 40 anos, um padeiro do centro da cidade, enquanto vendia pilhas de bombas de creme e caixas de confeitos. "Todas as tradições do Nowruz são aceitas pelo Islã."

Poucos dias antes, enquanto as pessoas se reuniam em um pequeno parque em Teerã para acender as fogueiras e celebrar o Chahar Shanbeh Suri, realizado na última quarta-feira do ano, muitas pessoas disseram estar satisfeitas com o fato do governo ter finalmente cedido -e até mesmo ter ajudado a organizar a ocasião.

"Esta é uma noite importante para nós, especialmente porque este regime finalmente percebeu que deve respeitar a exigência do povo e permitir que ele o celebre", disse Manijeh Emadi, uma professora colegial de 54 anos. "Eles quiseram acabar com o Nowruz e suas tradições por 27 anos. Finalmente eles aprenderam que esta tradição sobreviveu por centenas de anos e também sobreviverá a eles." George El Khouri Andolfato

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