UOL Notícias Internacional
 

21/03/2006

Bush, Cheney e Rumsfeld fazem defesa de política no Iraque

The New York Times
David E. Sanger e
Thom Shanker
Em Washington
No terceiro aniversário de uma guerra que esperavam já estar terminada, o presidente Bush e altos membros do governo alegaram no domingo (19/3) que sua estratégia está funcionando, apesar do aumento da violência no Iraque.

Enquanto isso, o ex-primeiro-ministro iraquiano favorecido pela Casa Branca observou em uma entrevista à BBC que já havia uma guerra civil no Iraque.

Altos representantes do governo dos EUA procuraram marcar o dia com uma mistura cuidadosamente calibrada de otimismo, diante da perspectiva de eventual vitória, e cuidado quanto ao tempo que as tropas americanas ficarão envolvidas. Bush, o vice-presidente Dick Cheney e o secretário de defesa, Donald H. Rumsfeld, soaram como no primeiro aniversário da invasão.

Na época, o esforço de reconstrução havia apenas começado, a ferocidade da insurgência era muito menor e a ocupação americana tinha suprimido temporariamente a violência sectária que aflige o país hoje.

O retrato feito no domingo pelo governo americano bateu de frente com a opinião de Ayad Allawi, homem que Bush chamava de o tipo de líder equilibrado que o Iraque precisava. Em entrevista à BBC no domingo, Allawi disse que o país estava se aproximando do "ponto sem volta".

"Infelizmente, estamos em guerra civil", disse Allawi, que foi primeiro-ministro interino depois da invasão americana e hoje chefia uma aliança secular de 25 representantes na Assembléia Nacional do Iraque, que tem 275 membros. "A cada dia, perdemos em média de 50 a 60 pessoas pelo país, ou mais. Se isso não é guerra civil, só Deus sabe o que é", concluiu.

O general George W. Casey, comandante americano no Iraque, contradisse a avaliação de Allawi: "Estamos longe de uma guerra civil."

Enquanto políticos iraquianos em Bagdá davam mais um passo no domingo para a formação de um governo unificado, ao menos 15 outros corpos foram encontrados em torno da capital, elevando a mais de 200 o número de pessoas mortas em conseqüência da violência sectária das últimas semanas.

A guerra custou mais de 2.300 vidas americanas e entre 33.000 e 37.000 iraquianas, de acordo com estimativas do Projeto de Contagem de Corpos do Iraque, grupo independente que monitora a mídia.

Rumsfeld negou pedidos de retirada, comparando a atual batalha com as duas grandes guerras de sua geração: a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. "Virar as costas ao Iraque hoje seria o equivalente a entregar aos nazistas a Alemanha do pós-guerra", escreveu no Washington Post. "Seria uma grande desgraça, como se tivéssemos pedido às nações liberadas da Europa Oriental para voltarem ao domínio soviético."

Bush, que está entrando no quarto ano de guerra, só pode declarar sucesso em um dos objetivos principais declarados em 2003: o desmantelamento do governo de Saddam Hussein. Seu índice de aprovação, que deu um salto no início da invasão, afundou para a faixa dos 30%.

Cheney, no programa da CBS "Face the Nation", foi questionado quanto as suas declarações de três anos atrás, de que seríamos recebidos como libertadores, e de 10 meses atrás, que a insurgência estava em "seus últimos suspiros".

Ele insistiu que nos dois casos os fatos estavam corretos, mas a mídia criou uma noção diferente apresentando imagens de mortes.

"Acho que não tem tanto a ver com as declarações que fizemos, que estavam basicamente corretas e refletem a realidade. Tem mais a ver com uma noção constantemente alimentada (pela mídia), pois o que vira notícia é o carro-bomba em Bagdá", disse ele.

Os protestos contra a guerra neste último final de semana foram relativamente pequenos nos EUA, se comparados com os dois aniversários anteriores da invasão iraquiana, e podem ter animado o governo Bush. Sete mil pessoas participaram de uma manifestação em Chicago no sábado e houve movimentos menores em Boston, San Francisco e outras cidades. Em Nova York, cerca de 1.000 pessoas foram à Times Square.

A televisão foi o foro onde os representantes do governo e da oposição apresentaram suas estatísticas para provar suas opiniões. Bush argumentou na semana passada que, até o final do ano, as forças iraquianas estariam no controle de mais da metade do país.

O deputado John P. Murtha, democrata que no final do ano passado pediu publicamente a retirada americana, disse no domingo no programa "Meet the Press", da NBC, que esse número não queria dizer nada. "Voei por uma hora e 15 minutos sobre o deserto", disse de recente viagem. "Não havia uma alma viva. Deve ser esse o território ao qual estão se referindo."

Enquanto isso, observou, o desemprego está em alta nas áreas mais atingidas pela violência sectária. A produção de petróleo, que o governo americano dissera que pagaria pela reconstrução do Iraque, está claramente abaixo dos níveis do ano passado.

Com a proximidade das eleições para o Congresso americano, a Casa Branca está preocupada que o apoio à guerra está caindo mais rápido entre os republicanos que defenderam a guerra. Até mesmo conservadores influentes argumentam que o papel da liberação está feito e que as tropas americanas não devem ser deixadas no fogo cruzado da luta civil.

Bush falou sobre a guerra em uma declaração de dois minutos, quando voltou de Camp David à Casa Branca, instando o Iraque a formar um governo de união e dizendo: "Estou animado com o progresso". Depois, ignorando os repórteres que foram encontrá-lo em seu helicóptero, entrou na Casa Branca com sua mulher, Laura.

Bush não respondeu perguntas sobre a diferença entre suas expectativas de três anos atrás e a realidade do Iraque hoje, um retrato do dilema que a Casa Branca enfrenta ao explicar a guerra.

Ele conseguiu evitar maior erosão do apoio para o Iraque em dezembro, explicando sua estratégia política, militar e econômica e admitindo alguns erros. Mas isso foi antes das imagens das brigas entre xiitas e sunitas gerarem nova erosão.

Sobre a questão política crítica -quanto tempo as forças americanas ficarão no Iraque- Casey disse que a presença significativa pode ser necessária por "mais dois anos" e que "em 2006, a redução gradual das forças da coalizão continuará".

Quando a guerra foi iniciada, há três anos, o Pentágono esperava um conflito curto. Seus planos secretos sugeriam a retirada da maioria das tropas americanas até o outono de 2003. Hoje, ainda há cerca de 133.000 homens no país.

Até sexta-feira, 2.313 militares e civis do Departamento de Defesa morreram na guerra. Desses, 1.811 foram mortos em ação e 502 em eventos não hostis, como acidentes, disse um porta-voz do Pentágono no domingo. O porta-voz também citou estatísticas que 7.912 militares foram feridos tão severamente em ação que não puderam voltar ao serviço e que 9.212 foram feridos em ação mas puderam voltar ao serviço.

Rumsfeld, cuja recusa em enviar mais soldados ao Iraque após a invasão inicial fez dele alvo das críticas, disse em suas observações publicadas no domingo que quem está perdendo no Iraque são os terroristas, não a coalizão, o que também foi repetido por Cheney. "Acredito que a história mostrará que esse é o caso."

Assim como Cheney, Rumsfeld insistiu que o problema eram as imagens criadas por noticiários 24 horas por dia. "Felizmente, a história não é feita de manchetes, blogs ou pelo mais recente ataque sensacional", escreveu Rumsfeld. "A história é um retrato maior; leva tempo e perspectiva para ser precisamente avaliada." Enquanto isso, ex-primeiro-ministro iraquiano vê guerra civil no país Deborah Weinberg

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