UOL Notícias Internacional
 

22/03/2006

Treinador de cães é condenado por abusos contra iraquianos

The New York Times
Eric Schimitt
em Washington
Na terça-feira (21/03), um treinador de cães do exército dos Estados Unidos foi considerado culpado por ter atormentado detentos da prisão Abu Ghraib, no Iraque, com o seu ameaçador cão da raça Pastor Belga. O treinador aterrorizou os detentos com o intuito de se divertir.

O militar, o sargento Michael J. Smith, 24, foi considerado culpado em seis das treze acusações feitas contra ele, incluindo a de conspirar com um outro treinador de cães do exército para aterrorizar os detentos até que estes urinassem ou defecassem nas calças. Smith poderá ser condenado a mais de oito anos de prisão, a perder o seu salário e à expulsão com desonra do Exército. Caso fosse considerado culpado em todas as acusações, ele estaria sujeito a mais de 24 anos de prisão.

AFP 
O soldado Michael Smith, que usou cão para intimidar iraquiano na prisão de Abu Ghraib
Uma audiência para determinar a sentença teve início na terça-feira, e continuará na quarta-feira. Várias testemunhas, incluindo o próprio sargento, testemunharam em seu favor.

O caso de Smith, morador de Boynton Beach, na Flórida, é o mais recente em uma longa série de abusos cometidos por membros das forças armadas dos Estados Unidos na prisão Abu Ghraib. Embora autoridades do Pentágono tenham insistido em dizer que apenas uma pequena fração dos soldados norte-americanos se comportou mal, existe amplo consenso de que as suas condutas prejudicaram a imagem dos Estados Unidos no mundo árabe. Além de Smith, nove outros militares de baixa patente foram formalmente acusados de cometerem abusos contra detentos da prisão Abu Ghraib. Entre eles, o cabo Charles A. Graner Jr. foi o que recebeu a sentença mais severa, dez anos de prisão e rebaixamento para a patente de soldado raso.

Um júri composto de quatro oficiais e três soldados rejeitou o argumento da defesa de Smith, que disse que ele estava apenas cumprindo ordens e usando um cão ladrante para manter os prisioneiros enfileirados. O júri também o considerou culpado de praticar atos indecentes por ter ordenado ao seu cão, Marco, que lambesse pasta de amendoim colocados sobre os órgãos genitais de um soldado norte-americano do sexo masculino, e sobre os seios de uma militar norte-americana, enquanto um outro soldado filmava o episódio. Smith foi a única pessoa condenada neste caso.

A promotoria assegurou que Smith tratou os detentos da prisão Abu Ghraib de forma desumana no final de 2003 e início de 2004, um período durante o qual surgiram fotografias mostrando prisioneiros nus e empilhados em pirâmides humanas, ou acorrentados e andando de quatro como se fossem cachorros, enquanto soldados norte-americanos posavam ao lado deles. Uma das imagens mais notórias foi a de Smith contendo, por meio de uma guia esticada, o seu cão feroz a apenas alguns centímetros de um prisioneiro vestido com o traje laranja usado pelos detentos.

Durante o julgamento do treinador de cães veio à tona um tema familiar em cortes marciais similares: a má conduta seria um caso de abuso desautorizado, praticado por um soldado renegado, ou parte de um padrão de técnicas violentas de interrogatório, aprovadas por comandantes militares em Bagdá e por autoridades graduadas do governo em Washington?

O julgamento de uma semana de Smith em Fort Meade, no Estado de Maryland, não trouxe uma resposta a essa questão. Uma das testemunhas, o ex-chefe da inteligência militar da prisão Abu Ghraib, coronel Thomas M. Pappas, vinha sendo considerado um possível elo entre as táticas abusivas utilizadas na prisão e os seus superiores em Bagdá e Washington.

Pappas disse durante o seu depoimento na semana passada que soube que cães de trabalho militar eram um instrumento efetivo de interrogatório ao conversar com uma equipe de oficiais de inteligência que visitaram o Irque em setembro de 2003, vindos da prisão militar da Baía de Guantánamo, em Cuba. Ele disse ter discutido com o general Geoffrey D. Miller, o líder da equipe e comandante da base da Baía de Guantánamo, sobre o "medo que os árabes têm de cães", o que seria uma razão para "estabelecer as condições" para os interrogatórios.

Mas Pappas, que depôs para a defesa, e a quem foi concedida imunidade na corte, disse que o exército carecia de regras claras quanto ao uso de cães em interrogatórios na prisão Abu Ghraib, e assumiu responsabilidade pessoal por não ter conseguido assegurar que oficiais de inteligência e membros da polícia do exército fossem propriamente treinados na utilização de cães.

Pappas admitiu ter aprovado em uma única ocasião a utilização de cães com focinheira em celas de interrogatório, mas disse que só mais tarde descobriu que não poderia dar tal ordem sem a aprovação do general Ricardo S. Sanchez, à época o principal comandante no Iraque. Pappas também afirmou desconhecer o fato de soldados da inteligência militar estarem utilizando cães sem focinheira fora das celas.

"Analisando os fatos em retrospectiva, fica claro que provavelmente precisamos estabelecer algumas regras definitivas e determinar certas diretrizes nítidas para todas as partes envolvidas", afirmou Pappas na sua primeira declaração pública sobre o escândalo. Ele atualmente está engajado em um trabalho de planejamento em Fort Knox, no Estado de Kentucky.

Dois meses atrás, Miller tomou a medida inusual de invocar o seu direito de não dar declarações que pudessem incriminá-lo, e disse que não responderia a perguntas nas sessões da corte marcial para julgar Smith e um outro treinador de cães, o sargento Santos A. Cardona, que deverá ser julgado em maio. Um advogado militar de Miller disse que o seu cliente já respondeu integralmente a todas as perguntas a ele feitas sobre o assunto por comissões parlamentares, investigadores do exército e outros grupos de investigação. Miller disse ter aconselhado o uso de cães apenas para a manutenção da ordem.

Miller esperava entrar para a reserva em breve, mas no início deste mês o Comitê do Senado para as Forças Armadas determinou que o exército adiasse a baixa do militar até que os casos envolvendo os treinadores de cães fossem resolvidos. O líder do comitê, senador John W. Warner, republicano de Virgínia, disse em uma entrevista telefônica na terça-feira, de Bagdá, que convocará Pappas e Miller para deporem novamente depois que terminarem os procedimentos das cortes marciais envolvendo-os.

Avi Cover, um advogado da organização Human Rights First, de Manhattan, que monitorou o julgamento, disse: "O depoimento revelou um grau surpreendente de confusão e comprometeu a cadeia de comando, e certamente Pappas, por ter autorizado tais técnicas em determinados casos".

No segundo semestre do ano passado o Pentágono aprovou um conjunto de regras de interrogatório como parte de uma tentativa de tornar mais rigoroso o controle sobre o questionamento, realizado por soldados norte-americanos, de suspeitos de terrorismo e outros prisioneiros. A instituição também reafirmou que os cães de trabalho militares não poderão ser utilizados em interrogatórios e que a polícia do exército poderá ajudar os interrogadores fornecendo informações sobre o comportamento dos detentos, sem, entretanto, poder ela própria participar dos interrogatórios. Danilo Fonseca

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