UOL Notícias Internacional
 

22/03/2006

Vidas ainda incertas, sete meses depois do furacão

The New York Times
Shaila Dewan, Marjorie Connelly e Andrew Lehren
Quase sete meses depois de o furacão Katrina alagar Nova Orleans e forçar a remoção de centenas de milhares de moradores, a maior parte dos evacuados dizem que não encontraram um local permanente para viver. Eles disseram ter gasto suas economias e consideram suas vidas piores do que antes do furacão, de acordo com um estudo com mais de 300 pessoas evacuadas conduzido pelo "The New York Times".

As entrevistas sugeriram que, apesar de brancos e negros terem sofrido um trauma emocional similar, os últimos carregaram uma carga econômica e social mais pesada.

Enquanto os dois grupos patinam em dificuldades, a maior parte acredita que o resto da nação e os políticos em Washington deixaram-na para trás.

"Acho que ninguém liga, de fato. Nova Orleans é um pouco o fundo do país, e eles se esquecem de nós", disse Robert Rodrigue, programador semi-aposentado que voltou para sua casa no subúrbio de Metairie.

O estudo do "Times" é a primeira grande tentativa de examinar a vida e a opinião dos que foram desalojados pela tempestade seis meses depois, momento em que muitos decidem se vão se estabelecer em um novo lugar ou voltar para casa.

Menos de um quarto dos participantes no estudo voltaram para o mesmo imóvel em que residiam antes do furacão; quase dois terços disseram que sua casa anterior não era mais habitável. Um quinto disse que sua casa ou apartamento tinha sido destruído. Muitos não encontraram trabalho e continuam separados de membros da família.

Ainda assim, a maior parte dos entrevistados quer voltar para a cidade, expressando otimismo com o processo de recuperação e, mais freqüentemente, saudade.

Os 337 entrevistados foram escolhidos ao acaso de um banco de dados na Web com nomes de mais de 160.000 evacuados. Patrocinado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o banco foi criado para ajudar as vítimas do desastre a reencontrarem suas famílias. As entrevistas foram conduzidas por telefone.

O "Times" usou métodos padronizados de pesquisa, fazendo perguntas e gravando respostas. No entanto, o projeto não pode ser considerado científico porque não foi possível determinar as características demográficas de toda a população desalojada, então o grupo não pode ser selecionado com a precisão estatística de uma pesquisa. Por essa razão, não se pôde calcular uma base de erro da para o estudo, conduzido entre os dias 16 de fevereiro e 3 de março.

Apesar de os entrevistados não constituírem amostra estatística, a composição racial do grupo foi similar à população da cidade antes do furacão -dois terços negra. No entanto, mais mulheres e pessoas mais velhas responderam à pesquisa do que a população em geral. Os negros entrevistados tiveram mais freqüentemente suas casas destruídas ou perderam algum amigo próximo ou parente. Apesar da maioria de negros e brancos ter deixado suas residências antes da chegada do furacão Katrina, foi mais freqüente entre os negros a separação dos membros da família.

A maioria de brancos e negros disse ter usado suas economias, no entanto mais negros foram forçados a pegar dinheiro emprestado. Um número maior de brancos manteve o emprego ou encontrou outro similar ou melhor. Além disso, uma proporção muito maior de brancos já voltou para a área de Nova Orleans.

Uma questão central para os moradores da cidade tem sido quantos voltarão. Em cada 10 entrevistados, quatro disseram que definitivamente ou provavelmente voltariam. Um quarto dos entrevistados já estava de volta.

"Nova Orleans está no meu sangue, nos meus genes. É como se eu fosse casado com Nova Orleans", disse Jacob Mitchell, 67, que faz manutenção de hospital e por enquanto mora com sua filha em Slidell, Louisiana.

Sobre o resto de sua família, espalhado em quatro cidades em três Estados, ele disse: "Se tivessem uma casa para voltar, estariam fazendo as malas hoje."

Tayari Kwa Salaam, 56, consultora de vários grupos sem fins lucrativos, está de volta apesar de seus clientes pagantes não. "Para mim, esta é a cidade mais africana dos EUA", disse ela. "Temos uma forma de falar e de ser que é nosso lar."

Salaam, cuja situação financeira está "um nível acima da pobreza", disse que, apesar de se preocupar com o futuro da cidade, começou a procurar formas de voltar assim que saiu para a casa da filha em Baltimore. "Sentimos frio no ar e não era nem outono ainda... e as pessoas de lá... em geral, era frio."

Um quarto dos entrevistados disse que não planejava voltar. A razão mais comum era por temor que o desastre do ano passado se repetisse. Um grupo menor disse que tinha se estabelecido em outro local.

Quase o dobro de pessoas com mais de 40 anos já voltaram em relação aos outros entrevistados. Por outro lado, pessoas com 20 ou 30 anos dizem mais freqüentemente que não voltarão.

Denise Debouchel, 46, disse que seu marido estava morando em um trailer em St. Bernard, uma das paróquias mais atingidas, e ela ainda estava na casa da sua irmã, na Carolina do Norte. Debouchel acredita que as comportas nunca serão altas o suficiente para impedir outra enchente da proporção do Katrina.

"Não posso me imaginar passando por isso de novo", disse ela.

* Colaboraram Brenda Goodman, em Atlanta, e Marina Stefan, em Nova York Segundo pesquisa, menos de um quarto voltaram para o mesmo imóvel em que residiam antes do furacão; quase dois terços disseram que sua casa anterior não era mais habitável Deborah Weinberg

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