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23/03/2006

Crianças chinesas adotadas têm visões diferentes sobre identidade cultural

The New York Times
Lynette Clemetson
Molly Feazel deseja desesperadamente abandonar o grupo de dança chinesa no qual a sua mãe a inscreveu quando ela tinha cinco anos, já que as aulas a afastam dos seus amigos no subúrbio em que mora, no Estado de Virgínia. No entanto, a sua mãe insiste em dizer que Molly, atualmente com 15 anos, um dia apreciará a conexão com a sua cultura.

Qiu Meng Fogarty, 13, prefere o seu nome chinês a Cecelia, o seu nome inglês. Ela faz trabalhos voluntários em grupos de trabalho para ajudar, em Nova York, crianças chinesas adotadas. "Faço isso para que elas saibam que tudo correrá bem", diz Fogarty.

Desde 1991, quando a China flexibilizou as suas leis de adoção para atender às necessidades de um número crescente de crianças abandonadas devido à política nacional de um único filho, famílias norte-americanas adotaram mais de 55 mil crianças chinesas, quase todas meninas. A maior parte dessas crianças tem menos de dez anos, e uma rede cultural organizada foi desenvolvida em torno delas, com grupos de brincadeiras, visitas à China e grupos de apoio online.

Molly e Qiu Meng representam o grupo de maior idade desta população, tendo sido adotadas pouco depois da mudança da lei, e bem antes das adoções se tornarem populares, e até mesmo uma espécie de modismo.

Molly é uma das 61 crianças adotadas por norte-americanos em 1991, e Qiu Meng é uma das 206 adotadas no ano seguinte, quando a lei foi integralmente implementada. No ano passado, mais de 7.900 crianças chinesas foram adotadas por norte-americanos.

À medida que as primeiras crianças adotadas se tornam adolescentes, elas começam - de forma independente e com um misto de entusiasmo e temor - a explorar as suas identidades. As suas experiências são uma indicação das jornadas que ainda estão por ser feitas por milhares de órfãos chineses que estão se tornando a cada ano parte de famílias norte-americanas.

Essas experiências são influenciadas por fatores como o grau de diversidade étnica nos seus bairros e escolas, e pela forma como os seus pais as expõem às suas heranças culturais.

"Somos únicas", disse Qiu Meng.

Essa é uma visão da qual Molly não compartilha. "Não me vejo como diferente de forma alguma", afirma Molly, cujas amigas, segundo a sua mãe, parecem ser todas "altas, magras e louras".

As diferentes visões de mundo são normais, segundo especialistas em adoção transracial.

A maioria dos norte-americanos que trazem as crianças chinesas para os Estados Unidos é formada de indivíduos brancos e da classe média alta. Jane Brown, uma assistente social e mãe adotiva, que dirige grupos de apoio a crianças adotadas e suas famílias, diz que as famílias deveriam confrontar diretamente as questões referentes à perda e rejeição, com as quais as crianças muitas vezes se deparam quando começam a entender as políticas sociais e relativas ao sexo dos filhos. Políticas que fizeram com que as suas famílias originais na China as abandonassem.

Brown também recomenda que as famílias adotivas transraciais abordem as atitudes norte-americanas sobre a questão racial desde o início, de forma consistente e direta.

"Algumas vezes os pais desejam comemorar e até conferir um traço exótico às culturas dos seus filhos adotados, sem realmente lidarem com a questão racial", diz Brown, 52, que é branca e que adotou crianças da Coréia e da China.

"Uma coisa é vestir as crianças com roupas chinesas bonitas, mas essas crianças necessitam de um contato real com norte-americanos de descendência asiática, e não apenas com garçons em restaurantes no Ano Novo chinês. E elas precisam de uma validação real sobre as questões raciais que experimentam".

O Instituto de Adoção Evan B. Donaldson, um grupo de pesquisas com sede em Nova York, está estudando as crianças adotadas da Ásia, que são atualmente adultas, para tentar descobrir maneiras de ajudar as crianças mais novas a formar identidades saudáveis.

Nancy Kim Parsons, uma cineasta que foi adotada na Coréia, está fazendo um documentário comparando as experiências de adultos que foram adotados uma geração atrás na Coréia, àquelas das crianças adotadas na China.

A Coréia foi o primeiro país no qual os norte-americanos adotaram crianças em quantidades significativas, e o país ainda está entre os líderes em termos de adoção internacional, juntamente com a Rússia, a Guatemala, a Ucrânia, o Cazaquistão, a Índia e a Etiópia. As experiências dos coreanos proporcionaram lições úteis às famílias que adotam crianças da China.

Hollee McGinnis, 34, diretora de políticas do Instituto Donaldson, foi adotada na Coréia por pais brancos e foi criada no condado de Westchester, no Estado de Nova York. Dez anos atrás, ela fundou um grupo de apoio a adultos, chamado Also Known As (Também Conhecido Como), que atualmente também trabalha com crianças adotadas na China.

"Foi na faculdade que eu realmente comecei a entender o que as outras pessoas viam na minha face", disse ela. "Antes disso eu não entendia de fato o que significava ser asiática".

Esse é um processo que McKenzie Forbes, 17, que foi adotada na China e criada em cidades nos Estados de Virgínia e Virgínia Ocidental, onde há poucos outros asiáticos, está apenas começando a absorver. Para ela, a faculdade representa a promessa de algo de novo.

"Estou me sentindo pronta para me soltar um pouco", diz McKenzie. "Quando estou próxima a outros asiáticos, sinto uma conexão que não ocorre em torno de outras pessoas. Não consigo explicar isto com exatidão. Mas creio que seria divertido conhecer outras pessoas e ouvir as suas histórias".

McKenzie, que foi aceita pela Faculdade Dickinson, na Pensilvânia, só se inscreveu para universidades que possuem grupos de estudantes asiáticos. Confiante e pensativa, ela gosta de música clássica e rock punk. Ela adora desenhos animados japoneses, um hobby que pretende transformar em carreira, e gostaria de viajar ao Japão. "Explorar a China é aquilo que todos esperariam de mim", diz ela.

Adotada aos dois anos, McKenzie está entre as mais velhas integrantes do atual grupo de crianças adotadas na China. Assim como vários norte-americanos que adotaram crianças no exterior naquela época, a família McKenzie se voltou para a China devido a um movimento de assistentes sociais afro-americanos que desencorajaram a adoção de crianças negras por famílias brancas.

"Em se tratando de uma criança afro-americana, não tínhamos garantia de que a mãe ou uma assistente social não apareceria e levaria a criança embora", explica a mãe de McKenzie, Maree Forbes. "Com as crianças da China, nos sentimos seguros de que ninguém viria tomá-las de nós".

McKenzie tem uma irmã mais nova, Meredyth, 15, também adotada na China, e os irmãos Robert e John, gêmeos de 11 anos, adotados no Vietnã. A família deixou Culpepper, no Estado de Virgínia, quando McKenzie tinha cinco anos, depois que crianças da escola se afastaram dela pelo fato de ser chinesa.

Porém, segundo McKenzie e Meredyth, mais freqüentes que o racismo direto são as ofensas geradas pela ignorância. Elas foram chamadas para fora de suas salas de aula, na atual escola, por exemplo, porque o orientador queria que fizessem um teste de língua inglesa para estudantes imigrantes. "Nós provavelmente falamos inglês melhor que o orientador", diz Meredyth.

A experiência foi diferente para Qiu Meng Fogarty. Após se recuperar de um surto de gargalhadas que tinha algo a ver com um garoto, Qiu Meng olhou para as amigas Celena Kopinski e Hope Goodrich, que também foram adotadas da China, e deu um suspiro bem humorado.

"É como se fôssemos parentes", diz ela, sentando-se na sua cama em sua casa na região de Upper West, em Manhattan. "É bom porque estamos todas na mesma situação".

As três garotas já não conseguem mais se lembrar há quanto tempo são amigas. Os seus pais ajudaram a criar o grupo de apoio Families With Children From China (Famílias com Filhos da China), em 1993, e que atualmente possui filiais em todo o mundo.

Algumas adolescentes perdem o interesse no grupo porque as atividades deste se concentram em crianças mais novas. Mas Qiu Meng, uma garota vivaz, dona de um riso contagiante, ainda está entusiasticamente envolvida com o projeto. Ela vendeu camisetas com os dizeres "Year of the Dog" ("Ano do Cachorro") em um evento do Ano Novo chinês em janeiro, e auxilia crianças mais jovens nos grupos de trabalho.

Ela diz que se lembra de como era difícil falar sobre experiências dolorosas quando era mais nova, e de como as crianças na escola repuxavam os olhos e caçoavam dela. "Não existem muitas crianças capazes de falar aberta e facilmente sobre coisas como essa", explica Meng. "Assim, me sinto bem por ser capaz de ajudá-las".

No verão passado, Qiu Meng, Celena e Hope participaram de um acampamento para crianças adotadas em todas as partes do mundo. Quando o evento terminou, os conselheiros reuniram os participantes em um círculo e os uniram com um pedaço de barbante. As crianças voltaram para suas casas com um pedaço do barbante amarrado nos pulsos, como um lembrete das suas experiências compartilhadas.

Quanto um técnico de voleibol pediu mais tarde a Qiu Meng que cortasse o barbante para participar de um jogo, ela o retirou cuidadosamente do pulso e o pendurou na parede do quarto, em meio a vários desenhos e pinturas chineses.

Todos os adolescentes reconheceram que estão apenas começando um longo processo de alto-definição, e mesmo que Molly ainda esteja tentando persuadir os pais a permitirem que abandone as aulas de dança chinesa, ela admite reservadamente que se beneficia com a iniciativa.

"Se os meus pais não me pressionassem, sei que abandonaria tudo isso completamente", diz ela. "E, assim, eu não teria mais nada com o que me relacionar mais tarde".

Molly, Qiu Meng e McKenzie dizem que não gostaria de ter sido criadas de nenhuma outra forma, e que desejam algum dia adotar uma criança da China. "É algo de bom de se fazer", diz Meng. "E, considerando que eu sou asiática, meus filhos adotivos não se sentiriam diferentes". Danilo Fonseca

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