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23/03/2006

Eles adoram matá-lo, mas ele não reclama

The New York Times
David Carr
Os diretores adoram Steve Buscemi. Eles lhe dão grandes papéis, diálogos estelares, tempo em cena e depois -e não há uma forma simpática de dizer isso- geralmente chutam-no.

"Quando sou escalado, sempre leio o final do roteiro para ver se meu personagem apanha ou morre", disse Buscemi, lembrando seu histórico de esfaqueamentos, machadadas, tiros e atropelamentos. "Realmente pensei que depois de ser morto em 'The Sopranos' eu não devia aceitar mais roteiros em que morro. Quero dizer, não há mais para onde ir, depois de ser morto por Tony Soprano."

"Mas então me ofereceram um ótimo papel em 'The Island'", disse ele, dando de ombros como quem diz "o que eu posso fazer?" "Não cheguei nem à metade do filme."

"Venho sobrevivendo muito mais ultimamente, porém", acrescentou alegremente.

Em "O Solitário Jim", que estréia na sexta-feira (24/3), Buscemi não morre, talvez porque dirigiu o filme e não fez nenhum papel.

O Jim do título, interpretado por Casey Affleck, não é nenhum herói; ele lembra muitos dos perdedores, vítimas e criminosos de Buscemi. Vai do centro da cidade para casa de ônibus. Não está exatamente com o rabo entre as pernas, mas parece que o arrasta. Ele é sugado por uma família que ele odeia em silêncio e contamina com sua miséria -ele diagnostica sua condição como "desespero crônico" com ondas de enfado. É mais perdedor do que, digamos, o motorista do caminhão de sorvete de "Ponto de Encontro" (1966), o primeiro longa dirigido por Buscemi, mas tem um pouco mais de sorte com as mulheres. O interesse feminino, interpretado por Liv Tyler, vê algo nele que o próprio Jim, infelizmente, não vê.

"Não vejo esses personagens como perdedores", disse Buscemi, 48, diante de um prato de ovos no French Roast, em Greenwich Village. "Gosto das dificuldades que as pessoas têm, pessoas que se sentem desajustadas na sociedade, porque ainda me sinto um pouco assim."

Durante o café da manhã, depois de tomar o trem da linha F do Brooklyn, onde mora, Buscemi de forma alguma parece o louco que freqüentemente faz nos filmes. Longe dos papéis de homicida ou de caso perdido, ele é um ator que trabalha, casado com a autora e diretora Jo Andres, e eles têm um filho de 15 anos. Depois que fez Pink em "Cães de Aluguel", de Quentin Tarantino em 1992, ele obteve grandes papéis em grandes filmes -"Armageddon" e "Con Air -A Rota de Fuga". Mesmo assim, continua a fazer filmes menores com os amigos dos tempos de estudante, nos anos 80, inclusive Mark Boone Junior. Boone faz Evil em "O Solitário Jim", uma espécie de Hells Angel que anda de mobilete.

Boone, que conhece e trabalha com Buscemi há 25 anos, não fica surpreso com seu sucesso. "Ele tem um ótimo rosto, ótimos olhos, conhece sua estrutura e sabe usá-la", disse ele. Apesar de Buscemi estar em toda parte, Boone diz: "Acho que é pouco usado. Há muitas coisas que ele pode fazer além desses papéis."

"O Solitário Jim" fez sua primeira apresentação no ano passado, no Festival de Cinema Sundance, com críticas heterogêneas. Apesar de Buscemi não esperar grande reconhecimento em seu trabalho como diretor, ele tem dificuldade em entender o funcionamento do ramo.

"Por mais que você se diga: 'Fizemos o filme; aqui está ele, e isso é suficiente', você quer levar alguma coisa", diz ele. "Não recebemos distribuição, não saímos com prêmios. Você se sente meio invisível. E, no entanto, assisti a apresentação em uma sala lotada e senti que o público gostou do filme. É muito confuso."

Ele considera seus sucessos tão surpreendentes quanto seus fracassos.

"Tive muita sorte", disse ele. "Há todo um outro nível nesse ramo. Não tenho interesse no que essas pessoas estão tentando conseguir. Também, eu não poderia conseguir essas coisas, de qualquer forma."

Ainda assim, ele participou de mais de 75 filmes e dirigiu três. Atualmente, está tentando conseguir fundos para dirigir uma refilmagem de "Interview", de 2003, do diretor holandês assassinado Theo Van Gogh.

Apesar de seu sucesso constante no cinema, Buscemi é honesto em suas credenciais de perdedor. Produto do Valley Stream, onde se ambienta o "Ponto de Encontro", ele veio do Colégio Comunitário Nassau, mas estudou teatro no Instituto de Teatro Lee Strasberg. Ele pegou a febre depois que foi escalado com um amigo para o coro da peça do "Violinista no Telhado" no colégio. No entanto, não conseguia ficar sentado esperando papéis. Trabalhou como bombeiro no Posto 55, nos anos 80, e também participou de programas de humor no teatro. Chamou a atenção pela primeira vez com seu retrato de um músico com Aids em "Parting Glances" (1986).

Os irmãos Coen encontraram uma musa em Buscemi e trabalharam com ele em "Fargo", "O Grande Lebowski", "Ajuste final", "Barton Fink - Delírios de Hollywood" e "A Roda da Fortuna". Seus personagens, em geral, têm um olhar amalucado, com cuspe no canto da boca e um jeito que sugere que têm uma arma no bolso.

Os diretores tendem a se concentrar em seu rosto, fazendo-o parecer com um prato de purê de batatas esculpido por um machado. Em pessoa, ele é bonito, com olhos azuis calmos e mantém o olhar dos outros de forma tímida e cativante. Seus dentes são, como já se observou, um desastre de trem, mas ele diz: "Nunca parecem tão tortos no espelho", disse ele.

A direção de Buscemi do episódio "Pine Barrens" dos "Sopranos", em 2001, virou lenda da televisão -um passeio na floresta em que tudo dá errado. Foi nomeado ao Emmy, mas ele sugere que foi pura sorte.

"Não planejamos a neve, e lá estava", disse ele.

Sua morte como Tony Blundetto nas mãos do outro Tony em "The Sopranos" foi resultado de um castigo mortalmente temporário.

Até como gangster de Nova Jersey, Buscemi tinha um lado mais suave; ele estava tentando deixar o ramo e se tornar massagista. Mas o ator que fez o leão covarde de "O Mágico de Oz" na quarta série não é mole.

Já teve a dura profissão de bombeiro -inclusive saiu da aposentadoria depois de 11 de setembro, para trabalhar em seu velho posto por alguns dias; depois, foi preso em manifestação contra o fechamento dos postos de bombeiros no Brooklyn. Ele tem cicatrizes de facadas para demonstrar que não se acovardou quando provocaram seu amigo Vince Vaughn, em um bar em Wilmington, Carolina do Norte, durante uma filmagem. Apesar de ter apenas 50 kg no colégio, usava seus braços esguios para acotovelar os colegas.

"Era minha arma secreta", disse ele. "Mas certa vez, no final do ano, todos já sabiam dela, então perdi o elemento surpresa."

O público reconhece-o a um quilômetro de distância. Ele se tornou Aquele Cara. Quando aparece na tela, as pessoas sabem que não vai ficar com a mocinha -a não ser que a seqüestre com uma arma.

"É estranho; eu não era um cara durão no colégio, mas acabei fazendo todos esses papéis de psicopatas e criminosos", disse Buscemi. "Realmente não me incomodo, desde que sejam pessoas complicadas e que estejam passando por algo que eu possa compreender e transmitir." Deborah Weinberg

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