UOL Notícias Internacional
 

23/03/2006

Jogar um avião em um prédio? Quem poderia imaginar?

The New York Times
Maureen Dowd
em Washington
Três palavrinhas: ainda empregado aqui.

De todos os momentos absurdos dos últimos dias, o mais estranho foi esse: o agente do FBI que prendeu e interrogou Zacarias Moussaoui disse a um júri que tinha alertado seus superiores cerca de 70 vezes que Moussaoui era fundamentalista islâmico radical, que odiava os EUA e poderia estar planejando seqüestrar um avião.

Setenta vezes? Isso é uma vez para cada virgem que aguarda Moussaoui no céu. A julgar pela forma desastrosa que vai o processo, as virgens terão que esperar.

Poderíamos ter impedido o complô de 11 de setembro se o FBI não fosse administrado por beócios. Os advogados de Moussaoui tiveram uma folga porque, de acordo com o testemunho do agente Harry Samit, se o FBI fosse mais bem administrado poderia ter descoberto o caso mesmo sem a confissão do terrorista.

No dia 10 de setembro de 2001, Samit confidenciou a um colega que estava "desesperado para entrar no computador de Moussoui". Entretanto, não obteve resposta da unidade do FBI responsável por Bin Laden antes de 11 de setembro -o que a unidade tinha de mais importante a fazer do que pegar Bin Laden? Além disso, Samit foi obstruído por membros da sede do FBI, que ele chamou de "criminosamente negligentes".

Ele citou dois funcionários que não quiseram arriscar suas carreiras com uma agressividade excessiva contra fundamentalistas radicais: David Frasca e Michael Maltbie, que na época trabalhavam na Unidade Fundamentalista Radical.

Apesar de Condi Rice ter dito à comissão de 11 de setembro que "ninguém poderia ter imaginado" a possibilidade de terroristas jogarem um avião contra o World Trade Center, o agente do FBI fez exatamente isso. Segundo o testemunho de Samit, um colega, Greg Jones, tentou acender um fogo sob Maltbie instando-o a "impedir Zacarias Moussaoui de jogar um avião no World Trade Center".

Mais tarde, Jones disse a Samit que tinha sido um "chute de sorte".

Kenneth Williams, agente de Phoenix, também enviou um memorando de advertência ao flegmático Frasca em julho de 2001, depois de suspeitar de um esquema de Osama de enviar extremistas do Oriente Médio aos EUA para treinarem aviação.

"William Carter, porta-voz do FBI, disse que nem o escritório nem Maltbie e Frasca, que ainda estão empregados ali, têm comentários", escreveu Neil Lewis no The Times na terça-feira (21/3).

Ainda empregados? Como podem Maltbie e Frasca ainda estarem empregados no FBI? Como pode Michael Chertoff ainda estar empregado na Segurança Interna? Como pode Donald Rumsfeld ainda estar empregado no Pentágono?

Os erros de 11 de setembro, os erros do Katrina, a mutilação do Iraque, a dívida de US$ 9 trilhões (em torno de R$ 18 trilhões) -essas coisas não fazem nenhum funcionário perder o emprego. Somente dizer algo honesto -como fez o previdente general Eric Shinseki- pode merecer o cartão vermelho.

Rummy disse aos repórteres na semana passada que os militares estavam se preparando para uma guerra civil no Iraque, mas ele não considerava a atual situação uma guerra civil -apesar de admitir que é difícil dizer exatamente quando o caos se torna guerra civil.

"Não acho que vai se parecer com a Guerra Civil americana" acrescentou esperançosamente.

Sim. No Fort Sumter, Lincoln deixou o inimigo atirar primeiro. Então o secretário de defesa acredita que, se a contagem de mortos ficar abaixo dos 600.000 da era da Guerra Civil, o Iraque vai atingir uma democracia saudável de Estados azuis e vermelhos?

Um membro do governo diz que Rummy não tem a mais influência nas reuniões como antes, que é tratado como um velho excêntrico, que aparece e é ignorado. Mas por que W. não pode simplesmente demiti-lo?

Em vez disso, o presidente o elogia por fazer "um bom trabalho" em duas guerras e transformar os militares, quando Rummy de fato levou os militares a concordarem com seus esquemas imprudentes no Iraque e enfraqueceu a antes temida máquina de guerra.

Em sua conferência com a imprensa improvisada na terça-feira, o presidente se apresentou como um sujeito legal, fazendo um trabalho difícil, sempre rindo de si mesmo com os repórteres. Ele criticou a imprensa por fazer a vontade dos terroristas ao apresentar as más notícias do Iraque -"Eles são capazes de explodir vidas inocentes para que a notícia apareça na sua televisão". Enquanto isso, surgiam reportagens sobre a invasão de uma prisão nas cercanias de Bagdá, em que os insurgentes mataram 18 policiais e soltaram os prisioneiros; em seguida, houve um ataque insurgente na sede do Exército Iraquiano em Kirkuk. Em vez disso, o presidente acha que a televisão deveria mostrar o aumento nas vendas de melão no mercado?

Quando os bushistas anunciam o treinamento das forças de segurança iraquianas para que os EUA possam entregar o país, algo não se encaixa. Em 2003, os EUA tiraram o Baath do controle do Iraque e apostou em seus amigos, os xiitas. Agora, com as suspeitas de esquadrões da morte e milícias xiitas, os EUA querem trazer de volta os sunitas para o sistema. Então em quem acreditamos? E por quanto tempo?

Perguntado se via o dia em que não haveria mais soldados americanos no Iraque, o presidente disse: "Isso é um objetivo, é claro." Mas acrescentou que a decisão seria tomada por futuros governos iraquianos e futuros presidentes americanos.

Quando W. não estiver mais no emprego. Deborah Weinberg

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