UOL Notícias Internacional
 

25/03/2006

Espírito de Sharon paira sobre eleição de terça-feira

The New York Times
Steven Erlanger
em Jerusalém
No 78º aniversário de Ariel Sharon há poucas semanas, as pessoas mais próximas dele se juntaram a seus dois filhos ao lado do leito onde ele se encontra, silencioso e em coma, em um hospital em uma alta colina sobre Jerusalém. Eles conversaram e comeram um bolo feito por uma amiga de sua falecida esposa, Lily, usando uma receita dela.

Uri Dan, um amigo íntimo e cronista de Sharon desde 1954, estava entre eles. "O César judeu está lá vivo", ele disse. As pessoas vêm até Dan o tempo todo para expressar sua dor, ele disse.

"Elas sabiam que podiam dormir à noite porque ele não estava dormindo, que havia alguém para guiar o navio sionista em um mar cheio de minas", ele disse. "Elas sentem que o capitão se foi."

Quase três meses após o grave derrame de Sharon em 4 de janeiro, seu espírito paira sobre esta eleição israelense, enquanto o país se prepara para dar na terça-feira seu veredicto ao Kadima, o partido centrista que ele criou.

Ehud Olmert, o primeiro-ministro em exercício, deixa a grande cadeira de Sharon vazia no centro da mesa do Gabinete e não usa a sala do primeiro-ministro. A foto imensa de Sharon está coberta no quartel-general suburbano do Kadima, que significa "para frente", e as mensagens de e-mail ainda vêm do endereço kadimasharon.co.il.

Mas a imagem de Sharon, até recentemente considerada uma figura indispensável na política israelense, agora desapareceu das propagandas e até mesmo dos programas de televisão.

Olmert tentou cuidadosamente sair da sombra imensa de Sharon, forçado pela política a criar sua própria identidade como primeiro-ministro, e não a de um assessor esperto fumante de charuto. Ele e o Kadima prestam todas as devidas reverências ao seu líder caído.

Mas é a oposição, particularmente o Partido Likud do qual Sharon se desligou, que mais usa a imagem de Sharon para retratar o ex-general, ao qual o Likud afastado do poder enfrentou até o fim e o considerava como traidor, como uma figura heróica diferente de seu atual adversário, Olmert.

"A verdadeira disputa de Olmert não é contra a oposição", disse Aluf Benn, um correspondente político do jornal "Haaretz". "É contra a sombra, o candidato que não está aqui: Sharon." Por ora, ele disse, "a população não fala muito sobre Sharon".

Mas a ausência de Sharon provavelmente custou ao Kadima pelo menos seis cadeiras no Parlamento. Seu estado de saúde e um grupo menos dinâmico de candidatos parecem ter tirado a paixão de uma eleição que envolve questões importantes, incluindo a próxima retirada israelense na Cisjordânia.

O Kadima está bem à frente nas pesquisas, apesar da complacência e da expectativa de um baixo comparecimento dos eleitores poderem prejudicá-lo.

Sente-se a falta de Sharon nos corredores do mercado Mahane Yehuda, onde os cidadãos de Jerusalém faziam compras no fim de semana em meio aos aromas de temperos, pão assado e carne fresca. "Eu penso nele o tempo todo", disse Leah Nakash, 70 anos, quando perguntada sobre Sharon. Ela parou para apalpar alguns tomates e então disse: "Eu espero que ele melhore, mas acho que não há esperança. Nós rezamos por ele".

Ela teria votado em Sharon no comando do Kadima sem hesitar, ela disse. Agora ela não sabe ao certo, dividida entre o Kadima de Olmert e o Likud de Benjamin Netanyahu. "Não era um país muito seguro com Sharon", disse Nakash. "Mas agora é um pouco mais perigoso."

Yitzik Sasson, 51 anos, tem quatro filhos e vive no assentamento de Kiryat Arba, onde trabalha na segurança. Ele disse que se mudou para lá não por ideologia, mas pelo preço baixo da moradia, mas que também teria votado em Sharon. Agora ele está dividido entre o Kadima de Olmert e o Israel Beiteinu de Avigdor Lieberman, um partido linha-dura de orientação russa que deseja trocar cidades árabes israelenses por assentamentos na Cisjordânia.

Sharon tem um grande legado, disse Sasson, e o país está melancólico, mas a vida continua. "É claro, eu espero que ele melhore", ele disse. "Mas ele não voltará para coisa alguma."

A princípio, a imagem de Sharon estava em toda parte e as primeiras propagandas de televisão do Kadima enfatizavam sua administração e sua "equipe". Mas no final de janeiro, o jingle do partido era "Kadima Israel", não, como planejado, "Kadima Sharon".

Eyal Arad, um dos assessores políticos mais próximos de Sharon, continua aconselhando o Kadima. "Sharon fundou o Kadima, selecionou as pessoas e Ehud Olmert como seu vice", disse Arad. Dentro do novo partido, "há um forte compromisso em dar continuidade ao que ele começou para fazer com que aconteça", ele disse.
"O compromisso emocional é mais forte do que você normalmente consegue em campanhas."

Os grupos focais continuam mostrando forte fidelidade a Sharon, disse Arad, como aquele que garante a segurança. "Agora que ele se foi, as pessoas se
perguntam: 'O que acontecerá conosco?' Elas estão à procura de alguém não com uma declaração política em particular, mas alguém que possa dar continuidade ao mesmo caminho de Sharon."

O esforço tem sido para retratar Olmert e sua equipe "como pessoas boas o bastante para seguirem os passos de Sharon", disse Arad. "As pessoas gostaram do centro e Sharon prometeu construir um lar para elas lá. Elas gostavam do construtor. Mas o desejo pelo centro e o apreço pelos planos não desaparece."

Mas há menos paixão.

Dan, o amigo e defensor de Sharon, é altamente esperançoso. Israel é "um país de pelo menos um milagre por dia", ele disse. "E podemos nos ver algum dia nos dirigindo a Sharon, 80 anos e recuperado, e lhe perguntando: 'Você pode nos tirar desta encrenca?'"

Mas Idan Haroush, 23 anos, como a maioria dos israelenses, não tem tal fé. Ele trabalha na loja de ferragens de sua família; ele usa brinco e veste uma camiseta dizendo: "Não ao Poder Ruim!" "Eu sou muito patriótico", ele disse. "Eu penso no que Sharon fez pelo país. Mas Sharon é história, lamento dizer." George El Khouri Andolfato

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