UOL Notícias Internacional
 

25/03/2006

Preocupado com o boom da Índia e da China? Elas também

The New York Times
Thomas L. Friedman
Quanto mais eu cubro assuntos internacionais, mais eu desejo ter estudado educação na faculdade, porque quanto mais eu viajo, mais descubro que os debates mais acalorados em muitos países giram em torno do ensino. E aqui está o que é realmente engraçado -todo país pensa que está atrasado.

Tony Blair tem lutado com seu próprio partido pela permissão de escolas mais inovadoras. Cingapura está obcecada com a melhoria de suas notas de matemática, já entre as melhores do mundo, antes que outros países a alcancem. E os Estados Unidos reclamam que suas escolas públicas precisam de melhorias em matemática e ciências. Eu estava recentemente em Mumbai, participando de uma reunião anual da associação de alta tecnologia da Índia, a Nasscom, onde muitos oradores manifestaram preocupação com o fato do ensino na Índia não estar gerando "inovadores" suficientes.

Tanto a Índia quanto a China, que já dominaram o ensino de rotina e têm assustado todo mundo com seus crescentes exércitos de engenheiros, também estão se perguntando se matemática e ciência demais -sem o fermento da arte, literatura, música e humanidades- não estão tornando Indira e Zhou crianças obtusas demais e não boas inovadoras. Muito poucos produtos globais surgiram na Índia ou na China.

"Nós não temos ninguém procurando por artes e todos estão buscando engenharia e administração", disse Jerry Rao, executivo-chefe da MphasiS, uma das maiores empresas indianas de terceirização. "Nós estamos nos tornando uma nação de programadores aspirantes e vendedores. Se não tivermos pessoas suficientes com humanidades, nós perderemos a próxima geração de V.S.
Naipauls e Amartya Sens", ele acrescentou, se referindo ao autor indiano e ao economista indiano, ambos recebedores do Nobel. "Isto é triste e perigoso."

Inovação é freqüentemente uma síntese de arte e ciência, e as melhores inovações freqüentemente combinam as duas. O co-fundador da Apple, Steve Jobs, em seu envolvente discurso de formatura em Stanford no ano passado, lembrou como abandonou a faculdade mas permaneceu freqüentando o campus e fazendo um curso de caligrafia, onde aprendeu a arte da grande tipografia.
"Nada disto tinha a menor esperança de ter qualquer aplicação prática em minha vida", ele lembrou. "Mas 10 anos depois, quando estávamos projetando o primeiro computador Macintosh, tudo voltou para mim. E inserimos tudo no Mac. Ele foi o primeiro computador com fontes tipográficas bonitas."

Há cinqüenta anos o estudioso de sânscrito era respeitado na Índia, notou Rao, mas hoje o único interesse é em se tornar engenheiro, programador, administrador, economista ou médico. "Mais pessoas obterão Ph.D. no estudo de sânscrito na América neste ano do que na Índia", afirmou Rao, "e o sânscrito é a raiz de nossa cultura!"

Por que toda esta ansiedade atual em relação ao ensino? Porque os computadores, cabos de fibra ótica e Internet nivelaram o campo de jogo econômico, criando uma plataforma global onde mais trabalhadores em qualquer parte podem atualmente se conectar e participar. O capital agora fluirá mais rápido do que nunca para explorar os talentos mais produtivos onde quer que estejam, de forma que todos os países estão lutando para atualizar sua base de talento humano.
Quando todos têm acesso à mesma plataforma de tecnologia, o talento humano, como os consultores John Hagel III e John Seely Brown escreveram, é a "única vantagem sustentável".

Daí a preocupação que encontrei na Índia de que ela deve mudar rapidamente da terceirização de processos de negócios (BPO)- atender telefones ou escrever códigos para empresas americanas- para a terceirização de processos de conhecimento (KPO): a criação de designs e produtos mais originais.

"Nós precisamos encorajar uma maior incubação de idéias para tornar a inovação uma iniciativa nacional", disse Azim Premji, o presidente da Wipro, um das principais empresas de tecnologia da Índia.
"Nós, como indianos, somos criativos? Dada a nossa rica herança cultural, nós dispomos sem dúvida de grande arte e literatura. Nós precisamos trazer o mesmo espírito para nossas áreas de economia e negócios."

Mas dar tal salto, disseram os empreendedores indianos, exigirá uma grande mudança no sistema educacional rígido, nunca desafie o professor, indiano. "Se não permitirmos que nossos estudantes perguntem por quê, mas apenas ficarmos lhes dizendo como, então apenas obteremos o tipo de terceirização transacional, não as coisas de ponta que exigem interações complexas e juízo para entender as necessidades de outra pessoa", disse Nirmala Sankaran, executiva-chefe da HeyMath, uma empresa de ensino sediada na Índia. "Nós temos um problema de criatividade neste país."

Meu palpite é de que estamos no início de uma convergência global na educação: a China e a Índia tentarão inspirar mais criatividade em seus estudantes. Os Estados Unidos serão mais rigorosos em matemática e ciências. E esta convergência será uma grande promotora de crescimento global e inovação. É um caso vitória-vitória. Mas alguns vencerão mais que outros -e serão aqueles que atingirem este equilíbrio mais rapidamente, na maioria das escolas. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h16

    -0,05
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host