UOL Notícias Internacional
 

26/03/2006

Anti-semitismo cresce entre filhos de imigrantes na França

The New York Times
Craig S. Smith
Em Sarcelles, França
Em subúrbios parisienses operários como este, altamente habitado por imigrantes do Norte da África, a palavra "judeu" agora é um epíteto padrão. Ele aparece em pichações nas paredes dos colégios, nos playgrounds dos bairros e nas bocas dos jovens.

"É negros e árabes de um lado e judeus do outro", disse Sebastian Daranal, um jovem negro que estava com dois amigos no estacionamento de um projeto habitacional subsidiado pelo governo.

Oito homens espancaram o filho de um rabino aqui em março. Outro judeu foi atacado no dia seguinte. Após a tortura e morte em fevereiro de Ilan Halimi, um judeu de 23 anos, a atenção tem se concentrado em um problema inegável: o aumento do anti-semitismo entre os jovens da segunda geração de imigrantes na França, cujo alto índice de desemprego o governo está tentando resolver com uma lei que tem provocado enormes protestos por todo o país.

As escolas são o campo de batalha do anti-semitismo e os professores se queixam que o governo tem feito pouco, apesar de muitas propostas.

"O ministro da Educação não fez nada", disse Jean-Pierre Obin, um inspetor geral de educação na França, que escreveu um relatório em 2004 sobre o que chamou de anti-semitismo "ubíquo" nas 61 escolas inspecionadas. "Ele prefere não falar a respeito."

Ianis Roder, 34 anos, um professor de história do ensino médio no nordeste de Paris, disse que ficou atônito com o que testemunhou após 11 de setembro de 2001. No dia seguinte, alguém pichou na escada da escola a imagem de um avião colidindo com o World Trade Center ao lado das palavras: "Morte aos EUA, Morte aos Judeus".

Quando ele disse para sua classe, meses depois, que Hitler tinha matado milhões de judeus, um garoto falou sem pensar: "Ele teria dado um bom muçulmano!"

Roder contou sobre uma professora muçulmana que dispensou sua classe depois de um bate-boca sobre propaganda nazista. Os estudantes disseram que as imagens ofensivas descreviam precisamente os judeus.

Mesmo hoje, ele disse, há uma ampla crença de que os ataques de 11 de setembro foram um plano judeu e que os judeus foram previamente avisados.

Barbara Lefebvre, uma professora de história que lecionou em vários subúrbios operários, disse que muitas pessoas minimizam o anti-semitismo entre os jovens franceses.

"Eles dizem: 'É assim que os jovens falam -eles não falam sério, da mesma forma como você ou eu falaríamos'", ela disse.

Lefebvre, que é judia, disse que teve que discutir com o diretor de sua escola, vários anos atrás, para que fosse realizada uma investigação quando um estudante escreveu "judia suja" em um caderno usado em sua aula.

O estudante, um menino árabe-francês, acabou recebendo apenas duas horas de detenção pós-aula.

Alguns professores simplesmente atenuam assuntos que possam provocar respostas anti-semitas. Lefebvre disse que conhece professores que até mesmo mostram filmes de ficção, como "A Vida é Bela" de Roberto Benigni, em vez de tratarem do Holocausto diretamente.

A França foi o primeiro país europeu a oferecer plena cidadania aos judeus e fez muito para exorcizar quaisquer fantasmas da colaboração nazista.

Mas o clima do pós-guerra para os judeus tem azedado constantemente à medida que a atenção tem se concentrado na causa palestina e com a imigração de muçulmanos em grandes números.

Com o segundo levante palestino contra Israel em 2000, aumentaram os ataques anti-semitas na França. Apesar do número de incidentes relatados ter caído desde o pico em 2004, o anti-semitismo está agora entrincheirado em muitos dos projetos habitacionais de classe trabalhadora do país.

As comunidades árabes do Norte da África não contam com o senso de culpa pelo Holocausto do pós-guerra.

Para elas a tensão devido à criação de Israel em 1948 reforçou a raiva contra os judeus a ponto de sucessivas ondas de tumultos anti-semita terem levado a maioria dos judeus do Norte da África para Israel e
para a Europa -principalmente a França- nos anos 50 e 60.

Algumas pessoas dizem que muitos dos árabes norte-africanos que posteriormente se mudaram para a França trouxeram o anti-semitismo consigo e o passaram para a segunda geração, onde foi reforçado pelo apoio à causa palestina. E a culpa dos franceses pelo colonialismo tem tornado tais preconceitos mais difíceis de combater.

"Quando o anti-semitismo vinha da extrema direita, havia uma reação", disse Lefebvre, que escreveu sobre o anti-semitismo e o sexismo nas escolas. "Mas quando veio de uma parte da população que era ela própria uma vítima de racismo, ninguém quis ver."

Sentado em uma sala com pôsteres condenando o racismo em um centro jovem em La Courneuve, um subúrbio nos arredores de Paris, Yannis, o filho de 16 anos de um pai francês e mãe argelina, disse que a conversa racista é comum. "Nós nos acostumamos com ela, a ouvindo todo dia, de forma que começamos a falar da mesma forma", ele disse, acrescentando que mesmo as
crianças de 7 anos dizem "não coma feito um judeu", se alguém é egoísta com a comida. Fahima, 14 anos, com cabelos negros longos e olhos límpidos, que estava fazendo a lição de casa ao lado dele, falou do
confronto que ela teve com um professor judeu há dois anos.

"Ele disse: 'Vocês negros e árabes nunca terão apartamentos em Paris'", ela disse, explicando que ele quis dizer que os estudantes nunca conseguiriam sair dos bairros pobres. Fahima, que á franco-argelina,
disse ter respondido: "Vocês judeus apenas têm apartamentos lá porque foram atormentados durante a guerra".

"Eu fui má", disse ela, brincando com um reluzente celular. "Mas não sou anti-semita."

As garotas que estavam com ela se queixaram do professor, dizendo que ele fala com freqüência do sofrimento da família dele no Holocausto. "Ele chora toda vez que menciona a avó", disse uma garota com
irritação.

Algumas escolas tentaram atenuar o problema sem abordá-lo diretamente.

Depois que uma garota judia foi agredida em Saint-Ouen dois anos atrás, a diretoria da escola dela decidiu exibir "Nuit Et Brouillard", um forte documentário de 1955 que inclui imagens explícitas dos campos de
extermínio nazistas.

Inicialmente, os professores temiam que a exibição do filme poderia incitar comparações confusas entre o Holocausto e o conflito entre israelenses e palestinos, mas então cederam.

No final do filme, um garoto -não-muçulmano- perguntou como os judeus que conheceram tamanho sofrimento podiam tratar os palestinos "da mesma forma".

Ninguém respondeu, apesar de Carole Diamant, uma professora de filosofia, ter dito que falou privativamente com ele sobre o motivo de estar errado.

"Eu senti que estávamos sobre arame farpado", ela disse, descrevendo a tensão.

De lá para cá, a escola passou a incluir o Holocausto em um programa mais amplo sobre genocídio. O anti-semitismo é sentido mais agudamente em
comunidades como Sarcelles, onde muitos norte-africanos se estabeleceram nos anos 50 e 60.

Sarcelles é lar de uma das comunidades judias mais concentradas da França, cercada por uma feia imensidão de blocos de apartamento onde vivem os imigrantes norte-africanos e africanos sub-Saara que chegaram
depois.

A França tem uma comunidade judia bem estabelecida com raízes européias, com muitos de seus membros ocupando os altos escalões da sociedade francesa. Mas foram os centenas de milhares de judeus norte-africanos mais pobres, que chegaram mais recentemente, que incharam o número de membros da comunidade para cerca de 600 mil, a tornando a maior comunidade judia na Europa. Estes judeus norte-africanos e seus filhos suportam o pior do anti-semitismo nos bairros operários.

Toda vez que ataques anti-semitas viram notícia, o Ministério do Interior da França promete mais segurança em torno das instituições judias. Só que "mais polícia não é a resposta porque continua no
espírito das pessoas", disse o dr. Marc Djebali, um porta-voz da comunidade judia de Sarcelles.

Laurent Berros, o rabino da sinagoga, disse que os imãs locais têm rejeitado sua sugestão de uma reunião de líderes judeus e muçulmanos nos bairros problemáticos. "Eles dizem que levar um rabino a estes bairros não é fácil", ele disse. "Há o temor de serem vistos como colaboradores."

A deterioração do clima tem levado milhares de judeus franceses a se mudarem para Israel nos últimos cinco anos, incluindo cerca de 3.300 no ano passado, o maior número em 35 anos. "Os pais temem que seus filhos se
transformem em vítimas ou respondam à violência com violência", disse Berros.

Murielle Brami, 42 anos, sente que a história está se repetindo.

"Todos os judeus na França querem uma coisa, partir para Israel ou para os Estados Unidos", disse Brami, cujos pais imigraram para a França para escapar dos tumultos anti-semitas na Tunísia.

É uma hipérbole, mas é um sinal da ansiedade que toma conta da comunidade judia francesa.

"Quando nossos pais vieram, era um paraíso aqui", disse Brami, que lembra de ficar na rua até tarde sem se preocupar com sua segurança.

Agora ela evita certos bairros mesmo de dia e não permite que seu filho use o kipá na rua, depois que alguns jovens colocaram uma faca em sua garganta no ano passado. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,21
    3,129
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h35

    0,04
    76.004,15
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host