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26/03/2006

E eu gostaria de agradecer ao meu treinador

The New York Times
Mireya Navarro
Em Los Angeles
Sempre que Bryce Dallas Howard provocava seu pai, o ator e diretor Ron Howard, sobre quão bem os atores ganhavam, ele dizia: "É para que possam pagar seus terapeutas".

Mas décadas após o pai dela ter atingido o sucesso em Hollywood, Howard, 25 anos, está obtendo seu próprio sucesso em atuação e está livre de terapeutas. Mas ela visita uma "life coach" ("treinador de vida", um
treinador de motivação e autodesenvolvimento). Bryce, que está atualmente em locação filmando "Homem-Aranha 3", disse que sua treinadora a ajuda a navegar pelas exigências do show business nos termos dela, incluindo arrumar tempo para escrever e proteger um certo grau de privacidade durante as entrevistas sem perder a compostura.

"Não se trata de revirar o passado", disse Bryce, que disse que está "realmente voltada ao autodesenvolvimento". Ela procurou Sherri Ziff Lester, sua treinadora, depois que um amigo empresário lhe passou o nome dela no ano passado.

"Com Sherri", ela disse, "se trata de 'vamos conversar sobre esta semana'. Ela me faz uma série de perguntas para que eu veja minhas prioridades e decida o que preciso fazer".

O treinamento de motivação e autodesenvolvimento se tornou um lugar comum na televisão, com treinadores ajudando a acertar as vidas de homens solteiros, patinhos feios, esposas sexualmente insatisfeitas e
outras mulheres em programas como "Nip/Tuck", "The Swan", "Starting Over" e "Modern Men". Os life coaches, com seu título vago de auto-ajuda, têm recebido uma dose considerável de ceticismo e ridicularização. "The Daily Show with Jon Stewart" dedicou nesta semana um quadro para gozar do treinamento e dos "treinados" que acabam se tornando treinadores.

Mas nos bastidores os life coaches estão encontrando bastante trabalho na indústria do entretenimento. À medida que as fileiras deles incham nacionalmente -a International Coach Federation diz que seu número de
filiados dobrou para 9.500 treinadores pessoais e corporativos desde 2001, 56% nos Estados Unidos -um número crescente está se especializando em celebridades e Hollywood.

Apesar da federação não monitorar as especialidades de treinamento, os treinadores que se dedicam ao ramo de entretenimento -muitos deles ex-atores, executivos de televisão, produtores cinematográficos ou roteiristas que vendem seus serviços como pessoas de dentro do
ramo- dizem estar encontrando mais aceitação e uma duplicação ou triplicação da demanda por seus serviços nos últimos três ou quatro anos.

Os life coaches, que não são regulamentados e variam enormemente em sua formação e credenciais, dizem que ajudam os clientes a definirem e buscarem suas carreiras e metas pessoais. A abordagem orientada de ação e resultados, eles acrescentam, tem apelo em um ramo onde tanta coisa parece deixada ao acaso e poucos estão preparados para o sucesso quando ele chega.

Em uma profissão com propensão a treinamento -o treinador de atuação, o treinador de voz, o treinador de roteiros- parece haver espaço para mais um treinador, o encarregado da felicidade, que não deve ser confundido com o terapeuta à moda antiga.

"A diferença entre treinamento de motivação e terapia é que a psicoterapia visa ajudar as pessoas a curar suas feridas", disse Phil Towle, um psicoterapeuta e life coach, "e o treinamento visa ajudar as pessoas a atingirem o máximo de realização, felicidade ou sucesso, estejam feridas ou não". O trabalho de Towle (a um preço de US$ 40 mil por mês) com os briguentos membros da banda Metallica foi narrado no documentário de 2004, "Metallica: Some Kind of Monster".

Atores, diretores, roteiristas e outros atualmente encontram workshops e programas como nomes como Centre Sua Celebridade e Guerra e Paz na Sala dos Roteiristas, assim como encontram certificados para sessões gratuitas de treinamento em sacolas de presentes em eventos como o Oscar e o Video Music Awards.

Os treinadores dizem que os diretores de pessoal nos estúdios e produtoras também os estão procurando mais, não apenas para desenvolver os executivos em perícia administrativa (o uso tradicional do treinamento de executivos em corporações), mas também para resolver
problemas em situações como ajudar um jovem produtor a lidar com disputas de poder e personalidade em uma produção.

Scott Zakarin, 42 anos, um produtor de cinema e televisão que recentemente produziu o reality show "Kill Reality" para a E! e "The Scorned", o filme gerado pelo programa, dá crédito ao seu treinador por
ter salvo sua empresa. Ele disse que procurou um life coach, David Brownstein, há alguns anos, devido aos confrontos e apontar de dedos em sua produtora, e que agora mantém Brownstein ao alcance enquanto luta para administrar seu negócio sem comprometer o que chama denatureza visionária de seu trabalho.

Zakarin, que disse que conhecia Brownstein quando o treinador era ele próprio um produtor de cinema, disse que amigos que formaram suas próprias produtoras contam com seus próprios life coaches para lidar com
problemas semelhantes.

"Assim que eles realizam o feng shui em seus escritórios, o treinamento parece ser o passo seguinte", ele disse.

Penelope Brackett, uma treinadora de motivação e carreira em Nova Jersey, disse que estava virtualmente sozinha quando começou a treinar atores no teatro, televisão e cinema em Nova York no início dos anos 90.
Nos últimos dois anos, ela disse, mesmo escolas de interpretação adotaram o conceito de "ter uma vida e não apenas desenvolver uma carreira ou se dedicar à excelência do ofício".

Uma ex-atriz, diretora e produtora que no ano passado publicou "Seven Keys to Sucess Without Struggle" (sete chaves para o sucesso sem luta), um livro de auto-ajuda para atores, escrito com Lester Thomas
Shane, Brackett disse que é regularmente convidada a dar seminários em universidades como Brandeis e Rutgers.

Os life coaches, que trabalham de forma pessoal ou por telefone e cujos preços geralmente começam a partir de mais de US$ 100 a sessão, dão crédito parcial ao aumento da demanda por seus serviços à famílias
descentralizadas e dispersadas: o life coach, alguns dizem, assume o papel da mãe, pai ou outro parente mais velho, que dava conselhos para tomada das decisões na vida e solução de conflitos. O fato de
mais pessoas terem mais de uma carreira e estarem procurando por metas com mais significado também influi, eles dizem.

Em Hollywood, os treinadores lidam com metas de curto prazo como eliminar o bloqueio dos roteiristas para que possam concluir seus roteiros e desafios mais abrangentes como preparar iniciantes a lidarem com a rejeição ou ajudar os que atingiram o sucesso a não perderem a cabeça diante da celebridade.

"Ser famoso não é o que parece na E!" disse Ziff Lester, um ex-roteirista de séries de televisão como "Barrados no Baile" e "SOS Malibu". "Isto o atinge como um tsunami e a menos que você saiba navegar em tal oceano, você se afogará."

Carmit Maile, 31 anos, a ruiva do sexteto Pussycat Dolls que recentemente mudou seu nome de Carmit Bachar, disse que deu início a sessões por telefone com Ziff Lester em julho passado para mantê-la
concentrada no que queria realizar. O álbum de estréia das Dolls, "PCD", ganhou disco de platina e na semana passada elas deram início a uma turnê nacional, abrindo para o Black Eyed Peas.

Carmit, que disse que encontrou um certificado para os serviços de Ziff Lester na sacola de presentes dada aos artistas que participaram de um concerto no ano passado, acrescentou que ela não quer que o sucesso a
impeça de trabalhar com crianças com lábio leporino (fendas labiais e palatais).

Já tendo se submetido a cirurgia para corrigir o problema, Carmit disse que já sofreu rejeição no show business e quer ser um exemplo para meninas como ela, que não são fisicamente perfeitas. "Minha preocupação
é me perder no meio do superestrelato e deixar de ter um impacto como ser humano", disse ela, chamando seu treinador de um facilitador para ajudá-la a permanecer no curso. "Há tanta coisa acontecendo que é fácil
perder o rumo."

O sucesso pode promover igualmente a busca pessoal atrás da câmeras. Jeff Davis, 30 anos, o criador e produtor executivo de "Criminal Minds", uma série da CBS, procurou um treinador enquanto tentava lidar,
como ele disse, "com as disputas políticas e de ego" que encontrou quando sua série foi ao ar.

"Eu me vi deixando de escrever roteiros em um café para a produção de uma série de televisão de um dia para o outro, em um piscar de olhos", ele disse.

Ele descreveu a diferença de "trabalhar com 100 pessoas, me ver atolado de perguntas e tendo que me tornar um líder quando mal era capaz de lidar comigo mesmo". Davis, que disse ter sido encaminhado ao seu
treinador, Brownstein, pelo seu estúdio, acrescentou: "Eu nunca participei de tantas reuniões na minha vida".

Se submetendo a sessões de treinamento duas vezes por mês, Davis entrou em contato, ele disse, com "meu matador interno" e aprendeu quando convocá-lo e quando ser gentil.

Ele também percebeu que queria criar outra série, para a qual ele disse que está escrevendo o piloto.

Os resultados, ele disse, o fizeram acreditar no treinamento motivacional, apesar de seu ceticismo inicial.

"A indústria do entretenimento pode certamente contar com alguma ajuda, considerando o número de lunáticos que trabalham nela", acrescentou Davis. "É literalmente como ter um personal trainer. O trabalho
do life coach é motivar você."

Mas os críticos consideram os life coaches como a indulgência final.

"Isto é para pessoas com dinheiro demais", disse Jon Winokur, um escritor de Los Angeles que incluiu o termo life coach em sua "Encyclopedia Neurotica", uma edição de 2005 de "tiques, trejeitos e manias" que também inclui termos como "terapia de varejo".

"Você pode encontrar um mercado ou eleitorado para todo tipo de insanidade aqui", disse Winokur.

A Associação Americana de Psicoterapia não tem uma posição oficial sobre os life coaches, mas Kelly Snider, falando em nome da associação, disse que os "treinadores devem ser responsáveis por reconhecer se há um problema que deve ser tratado por alguém no campo da psicologia".

A International Coach Federation reconhece que apenas uma fração de seus membros se submeteram ao seu processo de certificação, que exige treinamento específico e exames, porque tal atividade se tornou mais formalizada apenas na última década, aproximadamente. Ela pede aos clientes que procurem por profissionais com treinamento especializado em
técnicas de treinamento.

Aqueles que pagam por life coaches, às vezes com grande sacrifício financeiro, dizem que precisam de um chute no traseiro como apoio.

"O treinamento motivacional me organizou e me ajudou a realizar as coisas mais estrategicamente", disse Ari Shine, 30 anos, um cantor e compositor que visita T.C.

Conroy, uma treinadora de Hollywood que explora sua experiência na indústria musical, incluindo trabalho com bandas como coordenadora de produção. Ela é a ex-esposa de Dave Gahan, da banda britânica Depeche
Mode.

A sessão de Conroy com Shine, em uma recente quinta-feira, assumiu a forma de um brainstorming sobre quem seria o melhor empresário para ele. Durante outra sessão, com Nancy Noever, uma gerente de produção de comerciais de televisão quarentona que está tentando vender seu primeiro roteiro para televisão, a treinadora misturou o profissional com o
pessoal.

"Eu nunca quis que se tratasse de peso, eu nunca quis que se tratasse de finanças, eu nunca quis que se tratasse de gerenciamento de tempo", disse Nancy, enquanto estava sentada em um sofá bebendo água de uma
garrafa diante de Conroy, que fazia anotações em uma prancheta. "Eu preciso descobrir por que não consigo colocar a mim mesma em primeiro lugar."

"Por que você não se coloca em primeiro lugar", corrigiu Conroy, notando que ela é capaz de fazer isto.

Nancy traçou formas de dar atenção às suas prioridades -concluir as 15 páginas finais do seu roteiro, começar a perder 11 quilos, se livrar de sua dívida- com a expectativa de não fazer perfeitamente da primeira
vez, desde que consiga colocar as coisas em ação.

"Eu sou muito mais importante do que um comercial do McDonald's", disse ela, com confiança renovada. George El Khouri Andolfato

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