UOL Notícias Internacional
 

28/03/2006

Moussaoui admite papel em plano para atacar a Casa Branca

The New York Times
Neil A. Lewis

em Alexandria, Virgínia
Zacarias Moussaoui, que está enfrentando a pena de morte pelos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, sentou no banco das testemunhas em sua própria defesa na segunda-feira, apenas para reforçar o argumento do governo ao reconhecer sem hesitação as acusações contra ele no indiciamento, acrescentando algumas poucas declarações novas e auto-incriminadoras.

Ele disse que sabia com antecedência dos planos da Al Qaeda de lançar aviões de passageiros contra os prédios do World Trade Center e afirmou que estava sendo treinado para arremessar outro avião contra a Casa Branca. Ele disse que seria acompanhado na missão suicida por Richard C. Reid, o chamado homem do sapato-bomba, que foi condenado posteriormente em uma tentativa separada de explodir um avião em vôo.

Apesar de Moussaoui ter dito nos últimos anos que era membro da Al Qaeda e que estava aprendendo a pilotar um avião para participar de uma "segunda onda" de ataques terroristas, até o momento ele vinha insistindo que sabia pouco sobre o plano de 11 de setembro e prometia combater a pena de morte até o fim de suas forças.

Mas quando ele deu início ao seu muito aguardado depoimento na segunda-feira, ele ofereceu uma longa descrição de um envolvimento bem mais profundo com a Al Qaeda e seus planos. Ele não era apenas um membro da rede terrorista, ele disse ao júri; ele disse que conhecia a maioria dos seqüestradores de 11 de setembro, admitiu que mentiu aos investigadores sobre seu conhecimento do plano quando foi preso por violações de imigração, três semanas antes dos ataques em Nova York e Washington, e contou como ficou extático quando, ainda atrás das grades, ele soube da notícia dos ataques devastadores pelo rádio que comprou apenas para este propósito.

Antes do dia acabar, o júri também teve a experiência extraordinária de ouvir a leitura do depoimento dado por Khalid Sheik Mohammed, o mentor do plano de 11 de setembro que está preso em algum local no sistema secreto de detenção no exterior da CIA. Tal depoimento, no qual Khalid Sheik Mohammed respondeu a perguntadas acertadas pelos promotores e advogados de defesa, parecia contradizer a afirmação de Moussaoui de que seria um piloto em 11 de setembro.

Khalid Sheik Mohammed retratou Moussaoui como uma figura periférica que poderia ser usada em uma segunda onda de ataques, se necessário.

Por mais de uma hora, Michael Nachmanoff, um defensor público, recitou as respostas de Khalid Sheik Mohammed no que lembrava uma estranha leitura literária. Ele leu o depoimento de que a segunda onda de ataques planejada "estava apenas nos estágios mais preliminares" e que os alvos nem tinham sido selecionados.

Mas apesar disto poder minar a versão de Moussaoui dos eventos, o relato do réu em primeira pessoa, pintando seu papel em grandes pinceladas, foi o principal evento do dia.

Quando um dos seus advogados nomeados pela corte perguntou se ele seria o chamado 20o seqüestrador -um membro da equipe do avião que caiu na Pensilvânia, com apenas quatro seqüestradores a bordo enquanto os outros três aviões, o que atingiu o Pentágono e os dois que atingiram as torres do World Trade Center, continham equipes de cinco- ele respondeu: "Não, eu não seria o quinto seqüestrador".

Mas, ele continuou, "eu deveria arremessar um avião contra a Casa Branca".

"Além dos outros quatro aviões?" perguntou seu advogado, Gerald T. Zerkin.

"Está correto", respondeu Moussaoui.

Ele também afirmou, pela primeira vez, que um dos membros de sua equipe seria Reid, um britânico convertido ao Islã que foi preso em 22 de dezembro de 2001, enquanto tentou detonar um explosivo em seu sapato durante um vôo de Paris para Miami.Investigações anteriores não produziram nenhuma evidência do envolvimento de Reid em quaisquer outros planos ou de quaisquer esforços para entrar nos Estados Unidos no verão de 2001.

Quando chegou a vez de Robert J. Spencer, o promotor chefe, Moussaoui concordou praticamente com todas as perguntas incriminadoras.

Spencer perguntou se o motivo de ter mentido ao agente do FBI que o interrogou em Minneapolis, em 16 de agosto, visava "permitir que a operação prosseguisse?"

"Está correto", respondeu Moussaoui.

Após sua prisão, ele ficou aguardando notícias dos ataques?

"Sim, pode-se dizer que sim", ele disse calmamente.

Ele usou a frase "está correto" dezenas de vezes enquanto o promotor o conduzia pelos fatos apresentados no indiciamento.

Ele disse estar correto que sabia que os seqüestradores estavam nos Estados Unidos para uma missão iminente que envolvia o arremesso de aviões contra prédios.

Sua intenção de lançar um avião contra a Casa Branca era matar americanos? "Está correto", ele disse.

Moussaoui, cujos acessos no passado provocaram repreensões da juíza, falou calmamente com forte sotaque francês, se reclinando para frente no banco das testemunhas, às vezes segurando casualmente um copo vazio para que o oficial de justiça o enchesse de água.

Ele pareceu impaciente apenas quando interrogado por seu próprio advogado, que tentava com pouco sucesso obter respostas que pudessem ajudar o seu argumento. O depoimento de Moussaoui até mesmo minou um dos pilares da defesa montada por seus advogados, o de que não conhecia nenhum dos 19 seqüestradores que morreram em 11 de setembro. Enquanto Spencer mostrava a ele as fotos deles, Moussaoui disse que conhecia 17 deles dos dias em que ajudou a dirigir uma casa de hóspedes da Al Qaeda em Kandahar.

Moussaoui, um francês de 37 anos descendente de marroquinos, já tinha se declarado culpado de seis crimes de conspiração ligados aos ataques de 11 de setembro. A única pergunta perante o júri é se ele deve ser executado ou passar o resto da vida na prisão.

O Departamento de Justiça argumenta que ele deve pagar com a vida porque se não tivesse mentido, o Birô Federal de Investigação (FBI) e a Administração Federal de Aviação teriam agido rapidamente para impedir o plano.

A defesa poderá concluir seu caso na terça-feira e a juíza Leonie M. Brinkema disse aos jurados que já poderiam deliberar na quarta-feira. Segundo a lei federal de pena de morte, o júri deve primeiro considerar se as ações de Moussaoui causaram algumas das mortes de 11 de setembro. Se decidirem por unanimidade que sim, eles passarão para outra fase na qual considerarão se a pena de morte é apropriada.

Os advogados de Moussaoui, nomeados pela corte e com os quais ele não fala, certamente não queriam que ele depusesse como fez. Mas segundo a lei eles não tinham poder para impedi-lo.

Até Moussaoui sentar no banco das testemunhas, o momento parecia favorável para a defesa, que argumentava que ele era uma figura periférica na Al Qaeda, cujos os líderes não o tinham em alta consideração.

Além disso, o caso do governo enfrentou muitos problemas. Após a revelação de que uma advogada do governo tinha instruído indevidamente algumas testemunhas de segurança da aviação, o depoimento de duas outras testemunhas sobre como o FBI lidou com a investigação antes de 11 de setembro colocou em dúvida a atuação do governo assim como a responsabilidade de Moussaoui.

Mas Moussaoui pode ter sido a principal testemunha do governo, concordando prontamente com os elementos do argumento da acusação. Além disso, ele reconheceu para Spencer o tamanho do seu ódio pelos americanos em termos vívidos perante um júri que decidirá se ele viverá ou morrerá.

Ele concordou que se rejubilou com a morte de quase 3 mil americanos em 11 de setembro e que, em agosto de 2002, escreveu que achou "maravilhosa" a gravação da comissária de bordo implorando por sua vida dentro de um dos aviões.

David Johnston e David Stout contribuíram com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h00

    -0,25
    3,261
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h09

    0,25
    63.917,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host