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29/03/2006

Fed eleva taxa de juros pela 15ª vez consecutiva

The New York Times
Eduardo Porter

em Washington
Na primeira reunião de Ben S. Bernanke como presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), o slogan foi "nada de surpresas".

Conforme se esperava, a comissão do Fed encarregada de promover tais alterações, elevou a taxa de juros na terça-feira (28/03) em 0,25%, para um valor de 4,75%, e sugeriu que pelo menos mais um aumento está por vir. Esse foi o 15º aumento ocorrido em reuniões consecutivas do grupo.

No seu comunicado descrevendo a decisão, o banco central norte-americano em pouco diferiu das suas avaliações anteriores sobre a economia e o rumo esperado da política monetária, enfatizando a decisão assumida por Bernanke de manter o curso estabelecido pelo seu predecessor, Alan Greenspan.

Apesar da sua previsibilidade, a declaração do Fed perturbou ligeiramente os mercados financeiros, fortalecendo o dólar nos mercados de câmbio estrangeiros e provocando queda das ações e dos títulos do governo. O índice Standard & Poor 500 caiu 0,64% ficando em 1.301,61.

Embora praticamente todos os investidores esperassem o aumento da taxa de juros, uma minoria substancial de operadores em Wall Street alimentava esperanças de que o Fed indicasse que esta elevação fosse a última no ciclo que teve início em junho de 2004, quando a taxa era de 1%. Eles ficaram desapontados devido à sugestão clara de que o Fed ainda vê necessidade de promover maiores elevações dos juros.

"Bernanke estava pavimentando o caminho para um outro salto nos juros", disse Mickey Levy, economista do Bank of America. "Ele sabe muito bem que com este tipo de linguagem o mercado tende a saltar para um patamar de 5%".

A declaração do Fed utilizou um texto quase idêntico àquele usado após a reunião anterior da comissão em janeiro, que foi a última de Greenspan, após
18 anos na presidência do banco central. Segundo a declaração, "alguma política extra de estabilização pode ser necessária" para manter a inflação sob controle.

O texto observou que a economia está crescendo de forma robusta, depois de sofrer uma desaceleração no quarto trimestre do ano passado. Segundo a mensagem, a inflação básica, desconsiderando a sofrida por alimentos e energia, aumentou muito pouco. Mas o documento adverte que os preços crescentes da energia e de outros produtos poderão aumentar as pressões inflacionárias no futuro.

Embora a declaração do comitê tenha sido dissecada por analistas financeiros em busca de qualquer indicação das intenções do novo presidente, os tremores do mercado pareceram ter pouco a ver com a nova direção no Fed.

Espera-se que Bernanke acabe por impor o seu próprio estilo no banco central. Ele diz há muito tempo que apóia mais transparência, e que deseja que os mercados saibam mais claramente como o Fed chega às suas decisões e qual é o rumo esperado da política do banco central. Ele defendeu o estabelecimento de uma meta específica para a inflação - dentro de um parâmetro - a fim de tornar explícitos os objetivos do Fed.

Porém, Bernanke aparentemente não considerou a terça-feira como sendo um dia para a adoção de medidas ousadas. Ainda em fase de testes como presidente do Fed, Bernanke tem um nítido interesse em projetar uma imagem de continuidade do Fed de Greenspan.

No máximo, a nova declaração ofereceu apenas uma mera pista sobre o desejo de transparência expresso por Bernanke. "Foi a mesma mensagem de política econômica, mas com uma pequena inovação em termos de comunicação", opinou Laurence Meyer, um ex-diretor do Fed, que atualmente trabalha como analista econômico na Macroeconomic Advisers, em Washington.

A discreta mudança apareceu no segundo dos cinco parágrafos da declaração do Fed, a passagem freqüentemente chamada de "parágrafo síntese", na qual o comitê expõe a sua avaliação das atuais condições econômicas. Desta vez, foi oferecida uma análise das condições atuais mais detalhada do que aquela revelada em janeiro.

Um fato importante foi que o texto reduziu os temores de que saltos salariais pudessem alimentar a inflação ao sinalizar que os ganhos de produtividade estão compensando o crescimento dos custos com mão-de-obra.

Ao mesmo tempo, o Fed foi além da descrição esperada da atual situação da economia para elucidar aquilo que o banco vê como a sua provável rota futura. "O crescimento econômico foi vigorosamente retomado no atual trimestre", anunciou o banco, acrescentando: "Parece provável que o crescimento sofra uma moderação até atingir um ritmo sustentável".

Bernanke assume o controle do banco central dos Estados Unidos em um momento delicado para a política monetária. Desde que o Fed começou a aumentar a taxa de juros, os mercados financeiros passaram a esperar um aumento de 0,25% desse índice em todas as reuniões do comitê.

Mas após 15 aumentos consecutivos, o ciclo de arrocho monetário está atingido o seu ápice, quando a taxa de juros se aproxima daquilo que parece ser uma taxa "neutra", que não é tão alta a ponto de desacelerar o crescimento econômico, e nem tão baixa que permita o retorno dos temores quanto a uma ressurgência da inflação.

Com a inflação residual em 1,8%, excluindo alimentos e energia, o patamar preferido pelo Fed ainda está entre a faixa de 1% a 2%, considerada confortável pela maioria das autoridades financeiras. Isso faz com que o Fed debata até que ponto deve aumentar as taxas de juros simplesmente para conter o risco de uma inflação maior, em oposição a uma realidade na qual os preços subam rápido demais.

Em uma nota aos investidores, o economista Andrew Tilton, da Goldman Sachs,
disse: "O potencial para desacordos quando às decisões relativas à política econômica aumenta agora que o Fed está mais ou menos em um patamar "neutro", e os dados se tornam mais importantes".

Com a economia crescendo em um ritmo saudável, mas se deparando com o potencial obstáculo representado por um mercado imobiliário em queda, a decisão sobre quando dar um fim ao ciclo de aumentos da taxa de juros não será trivial.

A perspectiva de inflação é um pouco pior do que em janeiro, com aumentos nos preços para produtores e consumidores. As folhas de pagamentos sofreram um crescimento de cerca de 200 mil empregos ao mês, e as vendas no varejo aumentaram intensamente.

Os economistas do Fed argumentaram que um mercado imobiliário em desaceleração provavelmente prejudicará o crescimento econômico geral. No entanto, o setor ainda não está afundando. As vendas de imóveis aumentaram em fevereiro, as vendas de residências continuaram robustas e, de acordo com certos parâmetros, os preços dos imóveis ainda estão subindo.

Na sua sabatina no Congresso no mês passado, Bernanke argumentou: "Nos próximos trimestres o comitê de políticas financeiras do Fed terá que fazer análises atualizadas e condicionais sobre os riscos, tanto no que se refere à inflação quanto ao crescimento, e a ação política monetária dependerá cada vez mais dos dados que forem surgindo".

"Considerando tais incertezas, Bernanke assumiu o cargo no momento exato em que este se tornou interessante", afirma Ethan Harris, economista da Lehman Brothers. Danilo Fonseca

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