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29/03/2006

Segredos de Michelangelo não são mais segredo

The New York Times
Alan Riding

em Londres
A aclamada nova exposição de desenhos de Michelangelo no Museu Britânico é um convite ao voyeurismo, apesar de não, como pode-se supor, devido à adoração indisfarçada do corpo nu masculino pelo mestre florentino. Em vez disso, é porque nunca foi a intenção de Michelangelo que seus desenhos fossem vistos por outros olhos que não os seus, os de seus parentes e pupilos.



Logo após sua morte em Roma em 1564, aos 88 anos, ele ordenou que muitos de seus desenhos e outros papéis fossem destruídos em duas fogueiras. O registro mostra que ele também queimou alguns desenhos em 1518. E no ínterim, indicam cartas que sobreviveram, ele repreendeu seu pai por ter permitido que trabalhos em papel fossem vistos por outros e ignorou os repetidos apelos de um nobre para que lhe vendesse um desenho.

Por que tamanha reserva?

Michelangelo acreditava que a escultura era a arte suprema, seguida pela pintura e pela arquitetura. E ele provou sua genialidade em todas as três formas de arte -com as obras-primas em mármore "Pietà" e "Davi", com a Capela Sistina e com o domo da Basílica de São Pedro, em Roma. Por sua vez, os desenhos lhe serviam apenas como instrumentos para preparação destas e outras obras monumentais.

Ele tinha dois bons motivos para não compartilhar estas "notas", apesar de não se saber qual -ou se algum- era o motivo real para o sigilo: sua intenção poderia ser esconder evidência do esforço considerável empregado em sua arte, ou poderia temer que as idéias revolucionárias em seus desenhos seriam plagiadas. Certamente, Michelangelo estava determinado a preservar sua aura.

Desta forma, "Desenhos de Michelangelo: Mais Perto do Mestre", que estará aberta ao público até 25 de junho, consegue o que o artista aparentemente esperava evitar: ao exibir 90 dos cerca de 600 desenhos e esboços sobreviventes, a exposição fornece um insight notável da forma como ele trabalhou ao longo de uma carreira que durou mais de seis décadas.

"Eu queria contar a vida dele por meio de seus desenhos", disse Hugo Chapman, o curador do Museu Britânico para desenhos italianos de antes de 1800, que organizou a exposição.

Para tal fim, o Museu Britânico uniu seus desenhos de Michelangelo aos do Museu Ashmoleano, em Oxford, e ao Museu Teylers em Haarlem, Holanda, onde a exposição foi originalmente apresentada. A exposição não inclui as obras da Coleção da Rainha ou do Courtauld Institute of Art, porque, como Chapman notou, seu propósito não era recriar a última grande exposição de desenhos de Michelangelo realizada aqui, em 1975.

Em vez disso, ela liga os desenhos tanto às esculturas, pinturas e projetos arquitetônicos do artista e à sua vida, passada quase que totalmente entre Florença e Roma. Assim, eles são acompanhados não apenas de textos explicativos e exemplos de sua poesia, mas também por uma tela no alto exibindo closes do teto da Capela Sistina e telas interativas indicando onde os desenhos específicos se encaixam nos afrescos da capela.

Os resultados conquistaram elogios quase unânimes dos críticos de arte britânicos, com apenas Richard Dorment lembrando no "The Daily Telegraph" que alguns especialistas em Renascença ainda questionam se todos os cerca de 600 desenhos podem de fato ser atribuídos a Michelangelo. Mas outros críticos saudaram a exposição como, nas palavras de Charles Derwent, do "The Independent" no domingo, "imperdível".

Escrevendo para o "Financial Times", Jackie Wullschlager foi ainda mais
longe: "Para mim, a exposição torna o artista conhecido já durante sua vida como 'o divino Michelangelo', pela primeira vez comovente, dolorosa e profundamente humano em todo seu brilhantismo, paixão, dúvida e terror".

Michelangelo, ao que parece, nunca questionou a importância do "disegno", a palavra italiana para o desenho, um elemento central da arte florentina depois que o papel se tornou facilmente disponível no século 15. Um desenho dos anos 1520 apresenta suas instruções para um pupilo: "Desenhe Antonio, desenhe Antonio, desenhe e não perca tempo". Após ter visto uma obra de Ticiano, ele também disse que lamentava o fato dos venezianos nunca terem aprendido a desenhar.

A exposição é apresentada de forma cronológica e, apesar de não terem sido encontrados estudos para a "Pietà" e "Davi", esboços sobreviventes dos "Banhistas", o afresco inacabado de Michelangelo da "Batalha de Cascina", ilustra imediatamente sua fascinação pelo torso masculino. Com giz preto e alvaiade capturando a beleza e a tensão dos corpos torcidos, o efeito é quase tridimensional, como se mesmo aqui Michelangelo estivesse buscando formas esculturais.

Com os desenhos preparatórios para a Capela Sistina, a seqüência passa de esboços simples nos quais ele testa várias poses até o assombroso "Estudo de Adão", a grande figura nua estendendo sua mão para ser tocada pelo dedo de Deus no painel central do teto da capela, "A Criação de Adão". E por toda a volta há mais esboços de joelhos, cotovelos, ombros, mãos e olhos.

"Eu terminei a capela que estava pintando, o Papa está muito satisfeito", escreveu o artista ao seu pai em 1512.

Mas ele voltaria a ela mais de duas décadas depois para pintar "O Juízo
Final". E aqui novamente, muitos estudos sobreviveram das figuras presentes neste afresco gigante. Interessantemente, apenas os homens estão nus; e nas raras ocasiões em que Michelangelo retratou mulheres, a musculatura delas -e a freqüentemente bizarra "anexação" de seios- sugere que ele provavelmente usou homens como modelos.

Ainda assim, esta exposição não trata da sexualidade de Michelangelo e
inclui apenas um dos desenhos que ele dedicou a Tommaso de Cavalieri, o
jovem nobre que foi o objeto de sua paixão na meia-idade. Esta obra, "A
Queda de Faetonte", que descreve Faetonte caindo para a morte de uma biga, considera-se como uma ilustração do poder destrutivo do amor.

Mais notável, talvez, seja a paixão dos desenhos religiosos posteriores de Michelangelo. Em "A Lamentação", onde o corpo inerte de Cristo jaz nos braços de sua mãe, Maria olha tristemente enquanto outras figuras aflitas a cercam. Então, no clímax da exposição, se encontram três desenhos da Crucificação. Ao lado deles se encontra o texto de um soneto no qual o artista contempla sua própria vida e morte com estas palavras de encerramento: "Nem pintura nem escultura podem mais acalmar minha alma". George El Khouri Andolfato

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