UOL Notícias Internacional
 

30/03/2006

Questão dos imigrantes é vista como ameaça aos republicanos

The New York Times
David D. Kirkpatrick

em Washington
A batalha entre os republicanos em torno da política de imigração e segurança nas fronteiras está ameaçando colocar por terra um esforço de uma década do presidente Bush e seu partido para atrair eleitores latinos, no momento em que ambos os partidos estão se preparando para as eleições de 2006.

"Eu acredito que o Partido Republicano já prejudicou a si mesmo", disse o reverendo Luis Cortes, um pastor de uma megaigreja da Filadélfia próximo de Bush e líder de uma organização nacional de membros latinos do clero protestante, acrescentando que ele entregou pessoalmente tal mensagem ao presidente na semana passada, em uma reunião na Casa Branca.

Para ressaltar a lealdada abalada dos eleitores latinos, disse Cortes, ele também trouxe uma delegação de 50 pastores latinos para se encontrar com os líderes de ambos os partidos, incluindo o que chamou de discussão produtiva com Howard Dean, o presidente do Partido Democrata.

O debate em torno da imigração e segurança, que tem provocado grandes manifestações nos últimos dias de moradores latinos em cidades de todo o país, ocorre em um importante momento para ambos os partidos. Nas últimas três eleições nacionais, os apelos persistentes de Bush e outros líderes republicanos ajudaram a dobrar o percentual de votos obtidos junto aos eleitores latinos, para mais de 40% em 2004, em comparação a cerca de 20% em 1996. Como resultado, os democratas não podem mais contar com os 42 milhões de latinos do país como parte natural de sua base.

Em uma almoço-reunião de republicanos do Senado no início desta semana, o senador Mel Martinez da Flórida, o único republicano latino no Senado, deu a seus colegas um alerta severo. "Esta é a primeira questão que, no meu entender, tem mobilizado a comunidade latina na América como nenhuma outra", disse Martinez para eles.

Particularmente prejudicial, disse Martinez em uma entrevista, foi o plano republicano para reprimir os imigrantes ilegais que foi aprovado pela Câmara no ano passado. "Sem dúvida", ele disse. "Não foi bem recebido."

Ainda resta ser visto qual será o resultado final. O presidente da Câmara, Dennis Hastert, disse na quarta-feira que reconhece a necessidade de um programa de trabalhadores convidados, abrindo a porta para um possível acordo com o Senado em torno da ferozmente debatida legislação de imigração.

Os democratas vêem uma oportunidade de "mostrar aos latinos quem são seus verdadeiros amigos", como colocou o senador Charles E. Schumer, de Nova York, o presidente do Comitê Democrata de Campanha ao Senado.

Mas a questão também é delicada para os democratas. As pesquisas mostram que a maioria da população apóia fronteiras mais fechadas como uma questão de segurança nacional e se opõe à anistia aos imigrantes ilegais. Muitos eleitores de classe operária na base democrata se ressentem do que consideram um constante afluxo de mão-de-obra barata.

O que está em jogo é enorme, porque os latinos agora representam um em cada oito habitantes dos Estados Unidos, e cerca da metade do recente crescimento na população do país. Apesar dos latinos terem representado apenas 6% dos votos nas eleições de 2004, as taxas de natalidade prometem uma explosão iminente no número de eleitores. "Há uma grande onda demográfica de crianças latinas que nasceram no país e que completarão 18 anos em números cada vez maiores ao longo dos próximos três, quatro e cinco ciclos eleitorais", disse Roberto Suro, diretor do não-partidário Centro Latino Pew.

Em nenhum outro lugar o debate em torno da imigração é mais acalorado do que no Arizona, onde cerca de 28% da população é latina e onde o senador John Kyl, um republicano que apoiou uma severa lei de imigração, enfrenta uma disputa potencialmente difícil para reeleição. Tanto Kyl quanto seu adversário democrata, Jim Pederson, contrataram empresas latinas ou dominadas por latinos para dirigir suas campanhas.

Uma multidão de cerca de 20 mil pessoas, a maioria latina, se reuniu em frente ao escritório de Kyl no último fim de semana para protestar contra as penas criminais contra os imigrantes ilegais que foram incluídas no projeto republicano da Câmara, apesar da proposta de Kyl não incluir a medida.

Mario E. Diaz, o diretor de campanha de Pederson, condenou a proposta de Kyl, que exigiria que os imigrantes ilegais ou futuros trabalhadores temporários voltassem aos seus países antes de poderem estar aptos ao status legal nos Estados Unidos.

"A linguagem de Kyl, que é cercá-los e deportá-los, é ofensiva e repulsiva para a comunidade latina", disse Diaz.

Kyl, por sua vez, acusou os democratas de estarem pintando todos os
republicanos de antilatinos, uma prática que ele disse que a maioria dos latinos rejeita.

Mas Kyl também reconheceu alguns dos temores de que o debate em torno da imigração poderá afastar alguns eleitores latinos. Ele disse que pediu aos seus colegas republicanos para que discutissem a questão com mais sensibilidade para com "os sentimentos de muitos latinos".

Ele acrescentou: "Eu espero que alguns de nossos colegas que não têm uma população latina grande ao menos tenham alguma deferência para com aqueles de nós que têm".

Os analistas de pesquisa de cada partido dizem que os latinos, como outros grupos, geralmente classificam a imigração abaixo em importância de outras questões, especialmente a educação. Mas eles respondem fortemente quando acreditam que a retórica em torno do debate sataniza os imigrantes ou latinos, como ocorreu quando o governador da Califórnia, Pete Wilson, um republicano, apoiou uma iniciativa de 1994 para excluir os imigrantes ilegais de escolas e serviços públicos. Muitos analistas disseram que a resposta dos eleitores latinos arrasou o diretório estadual republicano por uma década.

Como governador do Texas, Bush é contra tais medidas e tem pressionado o Partido Republicano a atrair os eleitores latinos.

Na semana passada, Sergio Bendixen, um analista de pesquisa do Comitê
Democrata de Campanha ao Senado, divulgou uma rara pesquisa multilíngüe
mostrando que 76% dos imigrantes legais latino-americanos disseram acreditar que o sentimento anti-imigrante está aumentando. A maioria dos imigrantes disse acreditar que o debate em torno da imigração é injusto e desinformado.

Ken Mehlman, presidente do Comitê Nacional Republicano, rejeitou as
preocupações em torno da imagem do partido junto aos latinos. Ele disse que Bush, que apóia o programa de trabalhador temporário, já alertou
repetidamente contra a satanização dos imigrantes. "Em um debate emocional como este, as pessoas precisam baixar sua energia e lembrar que a meta final é algo consistente com o fato desta ser uma nação de leis e uma nação de imigrantes."

Danny Diaz, um porta-voz do partido que cuida do contato com os latinos, disse que o partido tem promovido o recrutamento de candidatos e eleitores latinos. Ele notou que Mehlman apareceu 23 vezes em eventos com grupos latinos desde que se tornou presidente do partido após a última eleição, abordando temas clássicos republicanos como impostos mais baixos, Medicare (o seguro-saúde público para idosos e inválidos) e valores tradicionais. Um foco em particular tem sido os latinos freqüentadores de igreja e pastores como Cortes, cuja igreja recebe fundos federais de uma iniciativa de serviços sociais baseados em fé.

Os democratas disseram que interpretaram o sucesso de Bush junto aos latinos como um despertador. Os líderes democratas na Câmara e no Senado expandiram suas comunicações em língua espanhola e, após 2004, o Partido Democrata prometeu deixar de se apoiar em pagamentos para organizações e grupos latinos para ajudar a atrair eleitores latinos durante as últimas semanas de campanha.

"Como você pode gastar seu dinheiro em iniciativas para atrair eleitores a votar quando está começando a perder sua participação no mercado?" disse Bendixen. "Mas os democratas não tinham experiência em fazer campanha pelos corações e mentes dos eleitores latinos. Eles os tratavam como os eleitores negros, que só precisam ser estimulados para saírem para votar."

Ambos os lados dizem que é o tom e o resultado final do debate da imigração que poderão dar aos democratas sua melhor oportunidade para conquistar os eleitores latinos. Martinez, um imigrante cubano que fez parte do seu primeiro discurso no plenário em espanhol, alguns meses atrás, se referiu ao nervosismo entre os latinos quando foi perguntado se falaria em espanhol novamente na questão da imigração. "No atual estado eu estou prestes a ser mandado de volta", ele disse brincando. "É melhor ter cuidado." George El Khouri Andolfato

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