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31/03/2006

"Instinto Selvagem 2": Fêmea mais velha, e mais fatal do que nunca

The New York Times
Manohla Dargis
Não deve ser motivo de surpresa o fato de "Instinto Selvagem 2" ("Basic Instinct 2: Risk Addiction", EUA, 2006), a seqüência que demorou a ser produzida do filme baseado no zeitgeist de 1992, ser um desastre da mais alta, ou talvez da mais baixa, ordem. Não é também de se surpreender que este cálculo infeliz, que foi dirigido por Michael Caton-Jones, e que não conta nem com a sagacidade nem com a loucura do primeiro filme, seja uma lição tão básica sobre a degradação que é capaz de vitimar as atrizes de Hollywood, especialmente aquelas com mais de 40 anos. Representar um papel no cinema sempre envolve um grau de autodegradação, mas o simples fato de assistir a porcarias como essa é algo de degradante.

Divulgação/Sony Pictures 
Uma Sharon Stone mais velha volta e continua fatal, mas não consegue salvar a seqüência

Mais uma vez, Sharon Stone interpreta Catherine Tramell, uma escritora de romances policiais de consumo de massa com uma psique tão agitada quanto o seu estilo de prosa. Uma Jacqueline Susann pela via de Jeffrey Dahmer, esta Catherine (Catarina) a Não-Tão-Grande tem algo de complexo da viúva negra, a julgar pelo número de corpos que deixa atrás de si no filme original.

Os velhos hábitos são difíceis de morrer, especialmente em filmes de gênero. E, assim, "Instinto Selvagem 2" tem início com Catherine correndo por uma paisagem urbana cubista que parece ser a fantasia futurista usual, mas que é na realidade apenas a velha e suja Londres a altas horas noite. Com a sua vítima do momento babando no banco do passageiro, ela exercita a sua ambidestria trocando de marchas de forma maníaca, enquanto, simultaneamente, se auto-satisfaz. Com a missão cumprida, ela imediatamente sai da estrada e ruma para o Rio Tâmisa, afundando o carro.

Esta abertura divertida e barata logo revela ser, assim como a própria Catherine, uma cruel provocação. Escrito por Leora Barish e Henry Bean, "Instinto Selvagem 2" acaba sendo nada mais de que um trabalho policial padrão com alguns bons talentos de interpretação (David Morrissey, Charlotte Rampling, David Thewlis) e truques para causar um pouco de sensação (garrotes, algemas e correntes). Entre as balas e as respirações ofegantes, os escritores inseriram algumas alusões à intelectualidade que sugerem ou um desespero profundo ou uma pretensão extrema.

Certamente este tinha que ser o único filme dos confiáveis mercadores de produtos de segunda categoria Mario F. Kassar e Andrew G. Vajna - Kassar nos trouxe o original "Instinto Selvagem", e juntos eles participaram em grande parte dos trabalhos de Sylvester Stallone - a exibir a palavra "lacaniano".

Mencionar de forma pedante uma abstrusa escola de teoria psicanalítica provavelmente pareceu, em determinado momento, ser algo incrivelmente inteligente. No entanto, em se tratando deste filme, é um fundamento para o inferno da redação de roteiros. O conceito de uma mulher bonita que mata os seus amantes golpeando-os fatalmente com uma picareta de gelo ajudou a transformar "Instinto Selvagem" em um sucesso (a ausência de calcinha também ajudou).

Ao mesmo tempo sedutoramente feminina, e fatalmente masculina, uma descomunal vagina dentata e uma bizarra mulher fálica, a Catherine original era uma elaboração da fantasia sexo-igual-a-morte, fomentada na década anterior em "Atração Fatal" ("Fatal Attraction , EUA, 1987). Assim como a desequilibrada personagem interpretada por Glenn Close, ela encarna tanto o pânico sexual quanto uma massa agitada de temores quanto ao poder feminino. E, assim como a sua irmã má, e assim como qualquer mulher má que assuma temporariamente o controle da tela, ela parece pronta e ansiosa para entrar em ação.

O problema é que Catherine não morreu. "Atração Fatal" termina com a mulher vitimada atirando na rival que destrói o seu lar. Já Catherine enfrenta um fim pior em "Instinto Selvagem": após sair matando a esmo para se entreter, a personagem acaba na cama com o detetive Michael Douglas.

Por pior que isso pareça ser, nada se compara ao destino que aguarda Stone simplesmente pelo fato de ficar mais velha - mais velha pelo menos na escala cronológica de Hollywood. Atualmente com 48 anos, a atriz retém a mesma expressão lúcida e o corpo esguio, mas neste filme a sua face está estranhamente inerte, e ela parece com freqüência estar profundamente enferma. Stone negou veementemente ter feito cirurgia plástica, e talvez isso seja verdade, mas o fato é que no filme ela está meio estranha.

É claro que mudar de aparência faz parte do trabalho do ator: colocar barbas, perucas e narizes engraçados, fazer voltar o relógio com tintura de cabelo e fita adesiva facial. E sempre foi parte do trabalho dos astros e estrelas fazer uma pequena correção cirúrgica, um pouquinho aqui, um pedacinho acolá.

Dito isso, e independente de Stone, a mania crescente pelas faces de aparência jovem - essas bizarras superfícies sem nenhuma marca, onde não se fazem presentes as marcas normais de expressão, e nas quais não há sequer uma linha de sorriso - parece ser fundamentalmente diferente dos antigos estratagemas por meio dos quais a atriz da Broadway temporariamente puxava a sua pele caída para trás com um pouco de fita adesiva. A fita adesiva saiu de cena. E, ao contrário do ator de cinema, o artista que encarna personagens no teatro não precisa navegar pelos close-ups traiçoeiros das câmeras, que inevitavelmente revelam cada segredo, não importa com que maestria tenha sido escondido.

As últimas décadas têm sido calamitosas para as atrizes do cinema norte-americano (de qualquer idade), que vêm sendo cada vez mais marginalizadas pela própria indústria que ajudaram a construir. Seria injusto colocar toda a culpa pela aparência e a performance de Stone em "Instinto Selvagem 2" na indústria cinematográfica. A avareza e a vaidade certamente tiveram uma parte nisso, assim como as brigas por trás das telas (David Cronenberg foi um dos diretores cogitados para dirigir o filme).

A julgar pela iluminação desfavorável e pelos ângulos das câmeras, Caton-Jones não sente um afeto particular pela sua estrela. Ele nunca esteve a ponto de salvá-la dela própria, e parece ter decidido que a melhor forma de lidar com o roteiro é dividi-lo em dois filmes: o primeiro é uma peça padronizada e sonolenta com atores britânicos; a outra, um bloco centrado em uma estrela coberta de traços histéricos de Hollywood.

Em termos de diversão, é possível encarar "Instinto Selvagem 2" como uma metáfora das relações políticas contemporâneas entre norte-americanos e britânicos (uma ianque psicótica atrai um britânico decente para uma rede de enganos e assassinatos), mas isto seria uma recompensa muito pequena para duas horas de uma trama cinematográfica errante de má qualidade. O campo de prazeres fugazmente prometido pela abertura tresloucada e pelos primeiros minutos de atuação de Stone logo dão lugar à chatice e à oportunidade de se constatar, mais uma vez, como é brutal ser uma atriz em Hollywood.

No ano passado, Sharon Stone teve uma atuação maravilhosa em "Flores Partidas ("Broken Flowers", EUA/França, 2005) de Jim Jarmusch, reconfirmando que o seu trabalho em filmes como "Cassino" (EUA, 1995) não foi uma aberração. Ela foi brilhante e comovente no filme de Jarmusch, em parte porque o trabalho exigiu que fizesse um papel de uma pessoa da sua idade, e ela acatou alegremente a decisão.

NOTAS DE PRODUÇÃO:

"INSTINTO SELVAGEM 2"

Dirigido por Michel Caton-Jones; escrito por Leora Barish e Henry Bean, baseado em personagens criados por Joe Eszterhas; diretor de fotografia, Gyula Pados; editado por John Scott e Istvan Kiraly; música de John Murphy; diretor de arte, Norman Garwood; produzido por Mario F. Kasar, Andrew G. Vajna e Joel B. Michaels, lançado pela Columbia Pictures juntamente com a Metro-Goldwyn-Mayer Pictures. Duração: 120 minutos.

COM: Sharon Stone (Catherine Tramell), David Morrissey (Dr. Michael Glass), Charlotte Rampling (Dra. Milena Gadosh), David Thewlis (detetive Roy Washburn) e Hugh Dancy (Adam Towers).

Nos Estados Unidos, "Instinto Selvagem 2" tem classificação R (indivíduos com menos de 17 anos precisam estar acompanhados dos pais ou guardiões legais). Cenas de sexo leve e violência pesada. Danilo Fonseca

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