UOL Notícias Internacional
 

31/03/2006

No Brasil, um cardápio exótico para a turma mais aventureira

The New York Times
Seth Kugel
Pode-se chamar Manaus de a anti-Roma. Não há estrada nem caminho que nos leve até essa capital amazônica, a menos que você esteja vindo do sul da Venezuela para o Brasil. Os únicos prédios impressionantes foram construídos praticamente de uma hora para outra, durante o efêmero ciclo da borracha, entre o final do século 19 e o começo do século 20. Quer pizza? Claro que existe por lá, só que com coberturas de frutas tropicais como o tucumã ou cupuaçu, e servida com embalagens opcionais de maionese.

Kevin Moloney/The New York Times 
Barcos cheios de peixes chegam às docas do porto de Manaus e fazem festa dos restaurantes

É uma cidade com cerca de um milhão e meio de habitantes, que fica às margens do Rio Negro, a uns nove quilômetros acima do encontro com o Amazonas. Manaus não é um típico destino turístico, mas serve de passagem para os aventureiros que desembarcam dos vôos para incursões na floresta tropical ou para quem quer fazer a viagem rio abaixo até Belém.

Grande parte da cidade é maltratada e nada acontece aos domingos; mas mesmo assim Manaus é uma cidade portuária fascinante, com muito o que fazer em seis dias da semana. As TVs de tela plana que se vê por lá podem perfeitamente ter sido produzidas na zona franca industrial que fica na região e frotas de táxis bem modernos chegam pelos barcos. Mas a falta de estradas para a Bahia, Brasília ou São Paulo ainda dão a Manaus uma estranha atmosfera de marcante isolamento. As pessoas por aqui freqüentemente têm marcantes características faciais indígenas em vez do tradicional espectro que vai do louro ao bronzeado ao negro, que se encontra em tantas cidades brasileiras.

E há muito o que fazer, especialmente com seus companheiros de viagem em busca de novos sabores. Os visitantes podem se deliciar com a muitas vezes surpreendente culinária da Amazônia (região que abrange nove estados, incluindo o Amazonas, cuja capital é Manaus), que utiliza peixes frescos com nomes de enrolar a língua e frutas que são tão exóticas que fazem a goiaba se transformar num fruto totalmente corriqueiro.

Entre as refeições, e especialmente antes do café da manhã, os mercados e o porto central abarrotados fervem de tanta atividade, o que é igualmente fascinante tanto para professores de microeconomia quanto para os apreciadores de abacaxis bem baratos. E nos meses de abril ou maio, os visitantes podem encerrar o dia com uma boa ópera. É verdade.

Uma boa maneira de abrir o apetite é aproveitar o comecinho da manhã nas docas. Não é preciso entrar para o sindicato dos estivadores - basta caminhar sobre as oscilantes pequenas plataformas de madeira que levam aos românticos e rústicos barcos de cores vívidas, estacionados ao longo do pier. Há um intenso fluxo de mercadorias por toda parte - são cachos da banana carregados nos ombros pelos estivadores e caixas, com abacaxis ou garrafas de refrigerante de dois litros, equilibradas sobre as cabeças.

Muitos desses barcos também carregam os amazônicos rio abaixo e rio acima (eles dormem em redes nas viagens mais longas), e assim as docas funcionam como se fossem uma rodoviária central. O porto é onde os barcos começam as excursões até o Encontro das Águas, onde o escuro Rio Negro encontra o Rio Solimões (é assim que os brasileiros chamam o Amazonas mais setentrional) com sua cor de areia.

O que torna a confluência tão especial é que os rios não se integram imediatamente - suas águas parecem que flertam e se insinuam, formando padrões que lembram um coquetel em camadas ou então uma experiência científica de escola elementar. Excursões administradas por várias agências operadoras turísticas em Manaus fazem uma parada por ali, como parte de uma viagem de dia inteiro pelo rio abaixo (que custa cerca de R$ 100), mas você também pode alugar um barco no porto para navegar até o encontro das águas, o que levará apenas algumas horas.

Grande parte dos produtos que saem dos barcos vai para as tendas do mercado que fica ali por perto. Os vendedores de lá negociam um pouco de tudo - podem ser raízes de uso medicinal, maçãs vindas de São Paulo ou camisetas made in Manaus. A fachada do Mercado Central, construída durante o ciclo da borracha, beira o glamuroso, inspirada pelo mercado francês Les Halles. Mas lá dentro, é tudo bem brasileiro, incluindo a peixaria onde os funcionários retalham postas de pirarucu e partem pela metade os feiosos e barulhentos peixes-gato.

Muito do que se vê por aqui e em outros mercados das redondezas - incluindo uma prodigiosa variedade de frutas e peixes locais - irá parar no seu prato de logo mais. A variedade de frutas, quase onipresentes em Manaus, é quase inimaginável nos Estados Unidos. Os "brasilófilos" conhecem o açaí, o fruto de uma palmeira local que já é famoso por proporcionar muita energia e ser fonte antioxidante.

Até em Manaus é difícil encontrar essa fruta silvestre azul escura em sua forma original; você mais provavelmente irá encontrá-la numa vitamina um tanto granulada, às vezes misturada com banana e coberta com granola. É difícil descrever o sabor. Maça, uva e blueberry (vacínio) com uma pitada de chocolate? Ou framboesa-pêra com um pouco de lama?

A bebida pode ser saboreada por todos os cantos de Manaus, mas é especial no Açaí e Companhia, um agradável e sofisticado (para o padrão da cidade) restaurante no próspero bairro de Vieiralves, que fica a uma pequena distância de táxi do centro, onde o refeitório tem cobertura de palha e paredes de bambu. O açaí de lá não é doce, se comparado com o que é servido nas lanchonetes do Rio de Janeiro.

Além do açaí, há também o cupuaçu, uma fruta branca com pele semelhante à do kiwi. Em confeitarias como a Alemã, no centro da cidade, na rua José Paranaguá, 126, você irá encontrar o cupuaçu em bolos, pudins e numa grande torta que também leva doce de leite. O guaraná, que é um pouco conhecido nos Estados Unidos em pó ou em xarope presentes em "shakes" energéticos, também pode ser encontrado por toda parte em Manaus, assim com o refrescante, alaranjado e rascante suco de taperebá, que alguns poucos podem conhecer como suco de seriguela.

E se você não for tão ligado em frutas, sempre haverá o peixe. Os minimalistas adoradores do pescado estarão no céu por aqui: os seres e frutos do mar estão por toda parte, frescos e preparados de maneira simples. As espécies são tão divertidas de se comer quanto de se pronunciar: tambaqui, tucunaré, jaraqui, pacu e o enorme pirarucu, tanto o fresco quanto o desidratado e salgado, como o bacalhau.

Os restaurantes, até mesmo os melhores, raramente são requintados. Um dos melhores é o Canto da Peixada, no centro da cidade, onde o cardápio mistura e combina vários tipos de peixes, quanto ao tipo de corte e preparo: pode ser grelhado, frito, ao molho de camarão etc.

Com todo o seu movimentado comércio, Manaus provavelmente é mais conhecida por sua extravagante Ópera em cor salmão, que mais parece um iglu, tão deslocada que está em meio às ruas com prédios funcionais e cobertos de fuligem. O Teatro Amazonas foi finalizado em 1896, quando Manaus era a ultra-próspera capital mundial da borracha e a cidade podia importar os melhores arquitetos da Europa.

Na verdade vale a pena visitar o Teatro Amazonas duas vezes, a primeira para fazer um tour pelo seu glorioso interior, onde guias que falam inglês explicam que a pintura na abóboda é a trompe l'oeil vista de baixo da Torre Eiffel, e pedem que os visitantes vistam divertidas e enormes pantufas para poder visitar o salão de baile ornado por madeiras raras como o jacarandá.

Até mesmo fora da temporada de ópera, há uma atraente programação noturna, com peças, um festival de cinema e até a Amazonas Jazz Band. Também há concertos noturnos grátis numa praça nas imediações, cheia de cafés. O Festival de Ópera do Amazonas desse ano, a 10a edição, irá de 23 de abril a 30 de maio, contando com as versões de "Otello" tanto de Verdi como de Rossini, com elencos distintos em versões brasileiras e internacionais.

Uma diversão do tipo menos formal pode ser encontrada perto da praia. Embora não tenham o oceano por perto, os habitantes de Manaus adoram ir à praia. Felizmente eles têm uma boa praia em Ponta Negra, a uns onze quilômetros rio acima - fica na região da cidade, mais limpa e levemente estéril, que também abriga o Tropical, o mais distinto hotel de Manaus. Embora a largura da praia varie muito conforme a época do ano, os restaurantes e cafés a céu aberto como o Laranjinha sempre contam com diversão ao vivo, desde um terrível imitador de Michael Jackson até shows de música e dança regional, num estilo conhecido como o boi-bumbá.

Os turistas que estiverem bem dispostos também poderão cair de cabeça na jovial, animada - e talvez pouco elegante - vida noturna da cidade. Artistas brasileiros de destaque sempre se apresentam no Sambódromo, bom nome para o ginásio de concertos. Mas a noite ferve mesmo é em enormes galpões de baile longe do centro da cidade, principalmente ao ar livre, onde há ritmos brasileiros para grandes multidões; entre eles, há vários "balneários", espécie de country clubs populistas, onde por poucos reais você pode nadar durante o dia e assistir a um show lotado com muita dança, bebendo caipirinhas até tarde da noite.

Mas a maioria dos turistas preferirá ir para cama mais cedo, já que o melhor mesmo na cidade acontece de madrugada, ao ritmo do mercado e ao sabor de um bom suco de seriguela.

A VIDA RIBEIRINHA

Por Seth Kugel

Chegando lá, se movimentando

A maioria dos vôos de Manaus que saem dos Estados Unidos inclui a conexão em São Paulo. Os vôos no final de abril têm preços ao redor de U$ 1.050. Os viajantes que fizerem ao menos quatro vôos dentro do Brasil devem consultar sua companhia aérea para ter grandes descontos com o Brazil Air Pass para as viagens domésticas, começando por volta de U$ 479 por quatro vôos.

Dá para caminhar tranqüilamente entre o porto, o centro e o Teatro Amazonas. Mas para os outros programas a solução é pegar táxis, caros porém abundantes em Manaus.

Onde ficar

O código telefônico internacional de Manaus é 55-92.

Bons hotéis são raros. Para ficar no centro da cidade, e não muito longe do porto, a melhor pedida é o Best Western Lord Manaus, na rua Marcilio Dias, 217; telefone 3622-7700. O quarto duplo sai a partir de 127 reais por noite, cerca de U$ 60, considerando o dólar a 2,18 reais.

O melhor hotel, com 594 quartos, é o Tropical, mas fica longe do centro, na estrada da Ponta Negra, 2123-5000; www.tropicalhotel.com.br. A partir de 260 reais.

Onde comer

O Canto da Peixada, considerado por alguns como o melhor restaurante de peixes na cidade, é um local simples e agradável, com aperitivos que custam de 10 a 23 reais. Fica na rua Emílio Moreira, 1677, na praça 14 de Janeiro; 3234-3021.

O Galo Carijó é outro restaurante de peixes próximo ao porto, com pratos que custam por volta de 20 reais; rua dos Andradas, 536; 3233-0044.

Açaí e Companhia, que tem de tudo, incluindo açaí, peixes e patos, é sofisticado para o padrão de Manaus; na rua Acre, 98, no bairro Vieiralves; 3635-3637. Prepare-se para pagar cerca de 70 reais pelo jantar com um drink.

Um bom lugar para se comer o tacacá, a sopa de camarões (por 5 reais), é a barraca na praça da Polícia, perto das avenidas Getúlio Vargas e Sete de Setembro; e você pode encontrar sobremesas por bom preço na Confeitaria Alemã, na rua José Paranaguá, 126; 3215-2254.

Na sorveteria self-service Glacial, na rua Henrique Martins, 585, 3233-6767, você pode experimentar todos os sorvetes tropicais que conseguir colocar num copo, por R$ 14,50 o quilo.

A Ópera

O décimo Festival de Ópera do Amazonas Opera irá de 23 de abril a 30 de maio, incluindo "Otello" de Verdi, "Otello" de Rossini, a "Gioconda" de Almicare Ponchielli e a "Fosca" do compositor brasileiro Antônio Carlos Gomes. Cadeiras vão de 5 a 50 reais. O Teatro Amazonas fica na rua Eduardo Ribeiro; 3622-2420. Marcelo Godoy

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