UOL Notícias Internacional
 

31/03/2006

Oposição da Venezuela dividida em boicote à eleição

The New York Times
Juan Forero

em Quibor, Venezuela
Julio Borges é um político incomum entre a oposição fragmentada da
Venezuela. Ele está concorrendo a um cargo.

Enquanto grande parte da oposição tem a intenção de boicotar a eleição
presidencial neste ano, Borges estava ocupado aqui em uma visita de campanha de dois dias, apertando mãos, beijando rostos e enfrentando grandes adversidades para tirar eleitores do presidente Hugo Chávez.

"Nós passamos sete anos tentando retirar Chávez de Miraflores", disse
Borges, se referindo ao palácio presidencial. "O que temos que fazer é tirar Chávez dos corações das pessoas."

Ele é o primeiro a admitir que é uma tarefa solitária. Chávez continua
altamente popular, com um índice de aprovação de 55% nas pesquisas de
opinião, por ter canalizado bilhões de dólares da receita do petróleo para os pobres. Talvez mais importante, ele deixou sua marca em quase todos os aspectos da vida e em cada instituição de poder real.

Borges argumenta que boicotar as eleições apenas aumentará o poder de Chávez e que isto torna a Venezuela um Estado de um só partido. Os defensores do boicote dizem que Chávez tem minado as instituições da democracia, de forma que buscam minar sua legitimidade estragando as eleições.

Eles acusam o presidente de ter lotado a Suprema Corte e o Conselho
Eleitoral Nacional, composto por cinco membros, de ter registrado falsos
eleitores e de controlar como os venezuelanos votam -acusações que o governo nega.

Muitos defensores do boicote fazem parte de um segmento da oposição que
fracassou em remover Chávez com um golpe e uma greve do petróleo de dois
meses em 2002, assim como em um referendo em 2004. Em dezembro, eles
organizaram um boicote de cinco partidos das eleições para a Assembléia
Nacional, perdendo toda a representação no governo.

Alguns líderes de oposição consideraram o boicote um sucesso porque 75% dos eleitores se abstiveram, mostrando seu descontentamento com o sistema eleitoral estabelecido por Chávez.

"É um sistema diabólico", disse Antonio Ledezma, um líder da Resistência
Nacional, um grupo de líderes da oposição que defende o boicote neste ano. "Nós venceremos pela resistência, não ficando sob o polegar de um governo que deseja nos dominar."

Apesar dos monitores eleitorais internacionais terem considerado justas as últimas eleições realizadas aqui, eles também notaram a profunda
desconfiança pública nas autoridades eleitorais e pediram por uma reforma do Conselho Eleitoral, que supervisiona as eleições.

Um editor de jornal, Teodoro Petkoff, e o governador do Estado de Zulia,
Manuel Rosales, são considerados possíveis candidatos presidenciais, mas
Borges é o único que declarou sua candidatura até o momento. Ele disse que seu maior obstáculo é unir uma oposição desiludida, cujas muitas fraturas têm se tornado as maiores vantagens de Chávez.

"O desafio mais difícil é superar o ruído de nossa própria oposição", disse Borges, 36 anos, um advogado de Caracas. "A oposição não desfruta do luxo de simplesmente desistir da política. Aqui, algumas pessoas dizem: 'Não vamos fazer nada. Vamos esperar por um milagre'. Eu não acredito nisto."

Como no restante da Venezuela, as pessoas neste Estado, Lara, apóiam
solidamente Chávez e a revolução que ele tem proclamado e estão indiferentes ao pequeno Partido Primeiro Justiça de Borges. Os eleitores potenciais são educados mas distantes.

Quando uma simpatizante ousada, Carmen Martinez, abraçou
Borges -sussurrando, "Que Deus e o Primeiro Justiça sejam nossa esperança"- aquele foi um momento positivo em uma campanha que tem se mostrado difícil.

Borges não mascara o óbvio: sua campanha está bem atrás, carece de recursos e de apoio. Sua única vantagem pode ser a de que a grande maioria dos venezuelanos -84%, segundo uma recente pesquisa da Greenberg Quinlan Rosner, um empresa de pesquisa de Washington- apóia a participação na eleição, mesmo questionando a imparcialidade das autoridades eleitorais.

Sua primeira grande batalha foi dentro de seu próprio partido, que foi
contra ele e votou por não participar das eleições legislativas do ano
passado. Mas ele também enfrenta um problema de imagem. Muitos venezuelanos vêem seu partido, cujos membros são na maioria jovens profissionais de bairros ricos de Caracas, como ligado ao governo Bush, elitista e fora de contato com a base de Chávez nos bairros pobres do país.

"Eles são vistos como o partido yuppie e o desafio é como chegar até os mais pobres", disse um alto diplomata americano em Caracas, que falou sob a condição de anonimato devido às regras da embaixada.

Quem quer que termine concorrendo contra Chávez terá uma tarefa difícil de responder aos programas sociais populares do governo, disse o diplomata. Para ser eficaz é preciso desistir da estratégia ineficaz de simplesmente criticar o presidente.

"Não basta ser anti-Chávez", disse outro diplomata americano. "É preciso
oferecer um plano e uma alternativa."

Para isto, Borges e seus assessores disseram que atacarão o presidente em questões onde está vulnerável. Enquanto Chávez parece estar obcecado com os Estados Unidos, Borges disse que as pesquisas de sua campanha mostraram que os venezuelanos estão muito mais preocupados com o desemprego e o criminalidade desenfreada.

"Eu votarei em Borges", disse Johanna Padilla, 29 anos, momentos antes de se encontrar com Borges enquanto ele ia de casa em casa no bairro dela. "Tudo o que temos aqui é crime. Não há trabalho. Se você consegue um emprego, é por três meses e então acaba."

Em sua visita de campanha, vestindo jeans e um pulôver azul, Borges desceu do ônibus amarelo e azul de campanha e distribuiu alguns folhetos
intitulados "os presentes do presidente", sobre a ajuda venezuelana a outros países.

"Nós queremos mostrar que somos mais nacionalistas, mais patrióticos, mais preocupados com a Venezuela do que Chávez", ele disse. "Ele está mais envolvido em tentar se tornar o presidente da América Latina. Isto é bom para nós."

Por ora é uma mensagem difícil de ser vendida. A dádiva de Chávez aos
pobres, afinal, lhe conquistou um sólido apoio que não será trocado por um desconhecido como Borges.

"Eu adoro o homem e agradeço a Deus por ele estar no poder", disse Elizabeth Jimenez, 37 anos, sobre o presidente. "A oposição -a cada dia ela perde mais espaço. Eles criticam tudo, tudo que é para o povo. Mas quando estão no poder eles nunca fazem nada." George El Khouri Andolfato

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