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31/03/2006

Pelos caminhos do sotaque - é a sonoridade que importa, não a aparência

The New York Times
Tim Sultan
Eu até quis beijar Lori Austin, a garçonete no August 25, restaurante perto de Wales Center, no estado de Nova York. Fingindo interesse na observação de um painel exposto por lá - com a paisagem de um por-do-sol num horizonte em formato circular - eu na verdade forçava o ouvido para escutar a conversa das três senhoras numa mesa por perto. E quanto mais eu conseguia escutar mais silenciosamente elas falavam.

"Thee-at painting?" (Aquela pintura?), Austin disse às outras de repente. "Ah, foi feita por um homem daqui. E você, quer um pouco mais de café? E que tal esse "snee-ap" (biscoito) geladinho?

Obrigado, sra. Lori Austin, eu mesmo me disse. Você acaba de me proporcionar a pronúncia de duas vogais acentuadas antes de consoantes mudas, que eu levei cerca de quinhentos quilômetros para conseguir ouvir.

Após várias paradas em restaurantes de beira de estrada (aquela já era a minha terceira porção de torta com café, e ainda nem era hora do almoço), eu estava em plena viagem pelas terras que compõem o cenário vivo da lingüística americana. Meu guia não era o Rand McNally, mas "The Atlas of North American English" (O Atlas do Inglês Norte-americano) de William Labov, Sharon Ash e Charles Boberg, a primeira pesquisa completa sobre a fonética do país, editada no final do ano passado pela Mouton de Gruyter.

O atlas é um volume bem grosso, caro (U$ 620) e, sem dúvidas, é um tratado acadêmico. Ele vem com demonstrações em áudio e 139 mapas que não indicam o caminho mais curto entre as cidades de Ashtabula e Kissimee, mas que mostram em que ponto da estrada vai ocorrer o fenômeno do "monotongo" (que produz uma vogal mais singular, em contraste com o ditongo) antes de consoantes mudas.

Quando eu liguei para Labov em seu laboratório de lingüística na universidade da Pensilvânia, propondo uma viagem de campo através da fonética - uma jornada que se fundamentaria na escuta, como se fosse a viagem empreendida por uma pessoa cega, em busca da experiência lingüística - ele ficou animado. "Quando eu viajo", ele me disse, "sempre me pergunto o que de especial irei ouvir que me indicará que estou num determinado lugar e não em outro?"

De acordo com Labov, a cidade de Nova York é o ponto de partida mais indicado. É na costa leste que se encontra a mais ampla variedade de dialetos no país. "É por lá que começaram as primeiras colonizações, com as maiores concentrações de grupos imigrantes", segundo o cientista. "Conforme você vai viajando em direção ao oeste, a partir de Ohio, as mudanças na fala vão ficando menos diferenciadas."

O leste da Nova Inglaterra parece ser o destino mais óbvio, aproveitando o hábito que seus nativos têm ao perder o "r" em frases como "pahk the cah in Hahvahd yahd" (em vez de "park the car in Harvard yard"- estacione o carro na área de Harvard). Mas esse sotaque nova-iorquino já foi tão explorado que a região parece até ser um rio que já foi excessivamente devastado pela pesca.

Por isso Labov sugere um destino mais exótico:

Rochester, ao norte do estado de Nova York.
"Ao sair de Nova York tomando a direção noroeste, você poderá detectar uma mudança gradual na fala, mas quando chegar a Rochester você estará nitidamente no que chamamos de região do Interior Norte", diz o cientista. "Essa área inclui as cidades que circundam os Grandes Lagos, de Rochester até Chicago. O dialeto falado por aqui é normalmente conhecido como o sotaque de Chicago, apesar de as pessoas em Rochester não saberem que falam do mesmo jeito que as pessoas em Chicago."

Ele passa uma dica. "Se você não tem certeza sobre como falam os cidadãos de Chicago assista a alguns velhos episódios de `NYPD Blue' e esperem até o detetive Sipowicz perguntar `What hee-appened?' ('O que aconteceu'). Escalar Dennis Franz, nascido em Chicago, interpretando um policial de Nova York é como tentar encaixar um pino quadrado num buraco."

Eu saí do distrito de Brooklyn no meio da tarde, subindo a Rota 17, uma estrada de quatro pistas que dá uma boa sensação de se estar no campo, depois que você passa por Monticello. A neve foi caindo e os montes Catskills começaram a surgir em cadeia pelos dois lados da estrada, como dorsos de animais adormecidos. As cidades eram pequenas e poucas. Cidades como Roscoe. Fishs Eddy. Deposit. E eu lá atravessando a região do sotaque da Nova Inglaterra Ocidental - onde as falas populares soam como uma versão atenuada da encontrada no Interior Norte - mas eu nem estava me detendo pelo tempo suficiente para perceber as diferenças.

Para Labov, que já investiu 40 anos nos registros vocais de milhares de norte-americanos, identificar um sotaque regional é uma tarefa bem simples. Na verdade, se ele fosse arrancado de seu escritório, com os olhos vendados, e o seqüestrassem por um longo percurso e o abandonassem num restaurante qualquer de beira de estrada, ainda assim ele saberia para onde foi levado, só de ouvir o povo local pedindo os pratos do dia.

Mas para um não-lingüista, não é tão fácil assim identificar as mudanças na maneira de falar enquanto, digamos, paramos para abastecer. Labov sugeriu vários procedimentos para detectar essas mudanças

"A gente sempre fica esperando que as pessoas digam as mesmas palavras em regiões diferentes, para que se possa fazer uma comparação direta", diz o cientista. "Por exemplo, se você quiser ouvir como os moradores de um local pronunciam o 'a' curto e anasalado, você pode perguntar onde fica uma rua fictícia, como a Tasker Avenue. Se tiver sorte, eles coçarão a cabeça e dirão bem alto `Tee-asker Ee-avenue?"'

Uma abordagem mais direta é a de escrever cartazes com várias palavras freqüentemente utilizadas em estudos lingüisticos - como "cot" e "caught", "don" e dawn ou "pin" e "pen" - e pedir às pessoas para que as repitam, em alto e bom. No Sul, "pin" (pino) e "pen" (caneta) são palavras pronunciadas da mesma forma, e em metade do país os sons referentes a "cot" (beliche) e "caught" (do verbo pegar) são idênticos ("caht"). Em Rochester, "cot" e "caught" irão soar de maneira distinta. Há o "o" curto que lembra o som de "a" em "cat". Rochester se transforma em "Ratchester". "Socks" (meias) soa como sax. E "caught" irá soar um bocado como se fosse "cawt".

O primeiro sinal de que eu havia entrado numa região com dialeto diferente ocorreu no pub Market Street Brewing Co. em Corning, no estado de Nova York, a mais de 300 quilômetros de Manhattan. Bisbilhotando a conversa do dono do bar com um cliente, descobri um indefectível toque a la Fargo na fala deles. Aí vieram os cartazes com as palavras. "Cot" e "caught". Iguais ou diferentes? Diferentes. Nas bocas desses dois nativos de Corning, "cot" soava como "caht". "Socks" ficava que nem "sax". E eles não se davam conta de que havia algo de diferente quando falavam.

No dia seguinte, no restaurante familiar Silver Lake em Warsaw, estado de Nova York, Lois e Russ Hurlburt dividiam um prato de ovos beneditinos. Lois Hurlburt, 90 anos, é uma professora aposentada de literatura para o ensino médio, e o marido dela foi um leiloeiro. Os dois tinham um legítimo interesse pela experiência lingüística e estavam animados para responder ao meu teste. "Cot" e "caught". "Don" e "dawn" (madrugada). Iguais ou diferentes? Diferentes: "dahn" e "dawn". Eles pronunciavam essas palavras exatamente como as pessoas de Corning, e ficaram surpresos ao saber que outras pessoas teriam falado de uma outra forma.

"Ninguém que fale o dialeto Chicago-Rochester se dá conta disso", diz Labov. "Eles não têm autoconsciência sobre a própria fala. Dê a um nova-iorquino ou a um sulista um pedaço de papel com uma palavra escrita nele e peça para eles falarem o que está escrito - eles vão começar a suar."

Após muitas conversas e testes de pronúncia com leitura de cartazes, fazendeiros e caçadores deixavam claro que o sotaque do Interior Norte dominava nessas cidadezinhas além de Buffalo e Rochester.

E agora era hora de consultar novamente o atlas de Labov.

Em direção ao sul fica a Região Central, uma ampla região fonética que se estende da Pensilvânia até as Grandes Planícies, margeando o rio Ohio em direção ao sul. Uma área de transição e amortização entre o Interior Norte e o Sul, potências do sotaque, a Região Central tem poucos traços lingüísticos em comum e em muitos aspectos é considerada referência do Inglês Norte-Americano: é assim que o dialeto Americano soa quando os pequenos dialetos regionais desaparecem ou não estão presentes.

A Região Central não atrairia muito interesse para um pesquisador de sotaques, se não fosse por três enclaves que mantém suas falas peculiares: St. Louis, Cincinnati e, em especial, Pittsburgh, que aparenta ser como as isoladas Ilhas Galapagos do dialeto Norte-Americano.

"Pittsburgh é um caso especial", diz Labov. "Geralmente, os dialetos locais são absorvidos pelos dialetos regionais mais abrangentes. Mas Pittsburgh, embora faça parte da Região Central, mantém suas próprias características de fala. Na verdade, Pittsburgh fala de um jeito que ninguém mais fala, pronunciando "ow" como se fosse "ah" e muitas vezes esquecendo o "l" quando ele vem no final de uma palavra." (Radial, por exemplo, acaba soando como radio.)

Julie Schoonover, a dona do bar em Corning, já descreveu o dialeto da Cidade do Aço de maneira mais sucinta: "Se você quiser escutar uma fala esquisita, então vá para Pittsburgh", ela me disse. "Em vez de dizer "vai para o centro" como "is going downtown", lá eles falam `yinz goin' dahntahn'".

E saber onde um sotaque regional termina para outro começar é, claro, uma noção um tanto fluida. E lingüistas como Labov já passaram alguns anos realizando testes, antes de poder demarcar com certeza as fronteiras das várias regiões fonéticas.

A bibliotecária em Westfield, NY, ainda exibia a clássica fala com o padrão do Interior Norte. Mas foi só seguir uma hora em direção ao sul que encontramos a mulher no balcão de informações do Centro de Hospitalidade da Pensilvânia na estrada Interestadual 79 falando "cot/caught" e "don/dawn" (dahn/dahn) sem distinção, exatamente como os mapas de Labov previram que aconteceria, assim que o viajante saísse da região do Interior Norte.


Nevava muito do lado de fora do bar Lou's Little Corner no bairro italiano de Pittsburgh, também conhecido como Bloomfield. Lá dentro, acontecia uma discussão acalorada sobre o presidente e as armas de destruição em massa. Será que ele sabia das armas? Ou não sabia? A atendente, Donna Bruno, cujo noivo está no Iraque, não tinha uma opinião formada. Mas sobre a existência do "Pittsburguês", ela foi bem incisiva.

"Claro que nós falamos de um jeito engraçado", disse Donna. "Nós engolimos as palavras. East Liberty vira "S'liberty". "Down the street" (na parte inferior da rua) se torna "dahnthestreet". E "o que estão fazendo?" é sempre "what yinz doin"? Não sei porque falamos desse jeito, mas pode ser porque cada bairro foi colonizado por diferentes etnias durante os anos do aço." Labov basicamente concorda com essa teoria.

Dawn Spring, uma garçonete que trabalhava no turno do café da manhã no restaurante Tom's Diner na rua East Carson, já sabia por experiência própria que os pittsburgeses falam uma linguagem toda peculiar. Durante um certo tempo ela viveu no Texas. "Eu dizia "I'm gonna redd up my car", o que em Pittsburgh significa lavar o carro, e lá pelo Texas ninguém entendia. Nós dizemos "yinz", eles dizem "y'all (para "todos vocês"). Nós dizemos "gum band" em vez de "rubber band" (elástico). Nós aqui em Pittsburgh podemos até não falar o inglês mais apropriado, mas nós sabemos do que estamos falando. E é isso que importa, não é mesmo?"

Labov concorda, até um certo ponto. "Eu adoro a variedade que existe no idioma. Mas o fato intrigante em todo esse negócio dos dialetos é que a mudança na sonoridade não nos ajuda na comunicação. Os dialetos nos impedem de nos compreendermos uns aos outros. E em vez de ficarem enfraquecidos, como poderíamos esperar com tanta comunicação via televisão e serviços telefônicos, os dialetos regionais estão se fortalecendo. Esse é o mistério."

Mas não houve mistério algum quanto ao significado daquelas luzes azuis piscando para mim, quando saí da avenida Liberty, no centro de Pittsburgh. "Carteira de motorista e registro do carro", disse o policial se debruçando sobre a minha janela no carro. "Meu filho, você está na faixa exclusiva dos ônibus."

"License" (carteira) "registration" (registro), "bus" (ônibus) "lane" (faixa). Não havia nada de extraordinário na maneira como essas palavras foram enunciadas. Será que ele não poderia ter dito algo mais típico e cheio de sotaques como "I cot you driving dahntahn in the bus lane, son"? Eu cheguei até a pensar em fazer o teste dos cartazes com o policial, mas rapidamente mudei de idéia. A boa idéia parecia mesmo ser apenas perguntar pela melhor maneira de pegar a estrada para Nova York. E ele me deixou seguir, apenas com uma advertência.

E, pela primeira vez em dois dias, realmente me pareceu que o que foi dito estava de acordo com a maneira como foi dito.

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Os dialetos não são definidos apenas pela maneira como as palavras são pronunciadas, mas também pelo vocabulário regional (confiram um regionalismo curioso no site www.popvssoda.com). Exemplos de vocábulos peculiares:

Alligator pear (Pêra de Jacaré) - Abacate, em Nova Orleans.

Betty - Uma beldade, em Los Angeles.

Bubbler - Bebedouro, em Wisconsin.

Buggy - Carrinho de compras, no Sul.

Bulkie - Tipo de sanduíche, em Boston.

Cabinet - Um milkshake, em Rhode Island.

Frappe - Um milkshake, em Boston.

Gaper's block - Engarrafamento provocado por motoristas que se distraem No caminho, em Chicago.

Goober - No Sul quer dizer amendoim.

Grinder - Sanduíche "submarino", na Nova Inglaterra.

Hero - Sanduíche "submarino", em New York

Hot dish (prato quente) - Caçarola, em Wisconsin e Minnesota.

Iron dog (cão de ferro) - Veículo sobre a neve, no Alasca.

Jimmies - Torneiras que servem sorvete, em Boston.

Kitty-wampus - Posição diagonal, em Wisconsin.

Leafer - Apelido dos turistas ecológicos, no norte da Nova Inglaterra.

Lightning shows (shows de trovão) - Tempestades elétricas no estado do Novo México.

Muffaletta: Sanduíche "submarino" à moda italiana, em Nova Orleans.

Neb - O ato de bisbilhotar a vida alheia, em Pittsburgh.

Party barn - Loja de bebidas para motoristas que funciona no sistema "drive-through", no Texas.

Passion mark - Marca de um beijo ou de um amasso, em Nova Orleans.

Poke - Uma sacola de compras, em Pittsburgh.

Rotary - Um balão de trânsito ou rotatória, na Nova Inglaterra.

Shoots - Quer dizer OK, no Havaí.

Skrok - Cuspir, na cidade de Buffalo.

Stand on line - Ficar na fila, em Nova York (no resto do país se diz "stand in line").

Torpedo - Sanduíche "submarino", na cidade de Albany.

Wallered - Tudo o que está inútil ou acabado, no Sudoeste.

Woolies - Bolas formadas pela poeira que se acumulam sob a cama, na Pensilvânia.

Wrapping - Embalar uma residência em papel higiênico, na cidade de Houston.

Yinz - "Y'all", todos vocês, em Pittsburgh.

Zeppelin - Nome dado ao sanduíche "submarino" em Norristown, na Pensilvânia. Marcelo Godoy

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