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01/04/2006

Estudo médico indica que orações não ajudam pacientes

The New York Times
Benedict Carey
Orações feitas por desconhecidos não afetam em nada a recuperação de pessoas que estão passando por uma cirurgia do coração, revelou um estudo de grande amplitude e há muito esperado.

E, segundo sugeriram os cientistas, os pacientes que sabiam que havia gente rezando por eles apresentaram um índice maior de complicações pós-operatórias, como ritmos cardíacos anormais, talvez devido às expectativas geradas pelas orações.

Devido ao fato de esta ser a investigação dotada de maior rigor científico sobre o suposto poder de cura da oração, o estudo, iniciado há quase uma década, e envolvendo mais de 1.800 pacientes, foi objeto de especulações durante anos.

A questão em pauta foi motivo de polêmica entre os pesquisadores. Os defensores da prática argumentavam que a oração é talvez a resposta mais profundamente humana a doenças, e que ela talvez aliviasse o sofrimento por meio de algum mecanismo ainda não compreendido. Os céticos alegavam que estudar as orações é um desperdício de dinheiro, e que a eficácia das orações pressuporia uma intervenção sobrenatural, o que colocaria este tipo de fenômeno além do alcance da ciência.

Pelo menos dez estudos sobre os efeitos da oração foram realizados nos últimos seis anos, gerando resultados mistos. O novo estudo tinha como intenção superar as falhas cometidas nas investigações anteriores. O resultado deveria ser publicado na semana que vem no periódico "The American Heart Journal", mas os editores resolveram divulgá-lo na sua versão online na última quinta-feira (30/03).

Em uma entrevista coletiva à imprensa organizada às pressas, os autores do estudo, liderados por Herbert Benson, cardiologista e diretor do Instituto Médico da Mente e do Corpo, próximo a Boston, disse que as descobertas não se constituem na última palavra sobre os efeitos da chamada oração intercessora. Mas, segundo eles, os resultados geram dúvidas a respeito de como e se os pacientes deveriam ser avisados de que orações lhes estão sendo oferecidas.

"Uma conclusão baseada no estudo é a de que o efeito da consciência a respeito da oração sobre o paciente deve ser estudado mais profundamente", afirmou Charles Bethea, cardiologista do Centro Médico Batista Integris, em Oklahoma City, e co-autor do estudo.

Outros especialistas afirmam que o estudo faz com que se questione ainda mais se a oração é um objeto apropriado para o estudo científico.

"O problema quanto a se estudar a religião cientificamente é que se comete uma violência para com o fenômeno ao reduzi-lo aos elementos básicos que podem ser quantificados, e isso abre caminho para que se faça ciência e religião de má qualidade", opina Richard Sloan, professor de medicina comportamental na Universidade Columbia e autor do livro que está prestes a ser lançado, "Blind Faith: The Unholy Alliance of Religion and Medicine"
("Fé Cega: A Aliança Profana entre Religião e Medicina"). "Tais estudos são um desperdício de recursos que poderiam ser mais bem utilizados em outras pesquisas".

O estudo custou US$ 2,4 milhões. A maior parte do dinheiro veio da Fundação John Templeton, que apóia pesquisas sobre a espiritualidade. O governo investiu mais de US$ 2,3 milhões em pesquisas sobre a oração desde 2000.

Dean Marek, capelão da Clínica Mayo, em Rochester, Estado de Minnesota, e co-autor do relatório, disse que o estudo nada indica sobre o poder da oração pessoal, ou das orações de familiares e amigos.

"Quando se trabalha em um grande centro médico como a Clínica Mayo, ouvem-se inumeráveis histórias a respeito do poder da oração, e eu não duvido delas", acrescentou Marek.

No estudo, os pesquisadores monitoraram 1.802 pacientes, em seis hospitais, que passaram por cirurgias de ponte de safena.

Os pacientes foram divididos em três grupos. Dois deles receberam orações, e o outro não. A metade dos pacientes que recebeu orações foi informada do fato, e à outra metade foi dito que os seus integrantes poderiam ou não receber orações.

Os pesquisadores pediram aos membros de três congregações - o Monastério de Saint Paul, em Saint Paul, Minnesota; a Comunidade de Carmelitas de Santa Teresa, em Worcester, Estado de Massachusetts; e a Unidade Silenciosa, uma diocese de orações de Missouri, próxima a Kansas City - que fizessem as orações, usando os primeiros nomes e as iniciais dos sobrenomes dos pacientes.

As congregações religiosas foram informadas de que poderiam fazer as orações à sua própria maneira, mas foram instruídas a incluir a frase, "por uma cirurgia bem-sucedida, com uma recuperação rápida e saudável, sem complicações".

Ao analisar as complicações nos 30 dias que se seguiram às operações, os pesquisadores não identificaram diferenças entre aqueles pacientes que receberam orações e os que não receberam.

Em uma outra descoberta resultante do estudo, um número significativamente elevado de pacientes que sabiam estar recebendo orações - 59% - sofreu complicações. Entre aqueles que não sabiam ao certo se estavam ou não recebendo orações esse número foi de 51%. Os autores deixaram em aberto a possibilidade de que tal fenômeno tenha se devido ao acaso. Mas eles disseram que o fato de se ter consciência das orações feitas por desconhecidos pode também ter provocado ansiedade em alguns pacientes.

"A informação pode tê-los deixado com incertezas, questionando se estariam tão doentes a ponto de ter sido mobilizada uma equipe de orações", explicou Bethea.

O estudo também revelou que um número maior de pacientes no grupo que recebeu orações, mas não foi informado sobre o fato - 18% - sofreu grandes complicações, como ataques cardíacos e derrames, comparado a 13% no grupo que não recebeu oração alguma. No relatório, os pesquisadores sugeriram que este resultado também pode ter sido um resultado do acaso.

Um motivo para este estudo ter sido tão amplamente aguardado foi o fato de ele ter sido liderado por Benson, que no seu trabalho enfatizava o poder aliviador da oração pessoal e da meditação.

Pelo menos um estudo anterior detectou um menor índice de complicações nos pacientes que receberam orações intercessoras. Outros estudos não identificaram nenhuma diferença. Um estudo feito em 1997 na Universidade do Novo México, envolvendo 40 alcoólatras em processo de reabilitação, revelou que os homens e as mulheres envolvidos no estudo que sabiam estar recebendo orações acabaram apresentando resultados piores.

O novo estudo foi rigorosamente elaborado no sentido de evitar problemas como aqueles que apareceram nos estudos anteriores. Mas os especialistas afirmaram que o estudo não foi capaz de superar aquele que talvez seja o maior obstáculo para os estudos das orações: a quantidade desconhecida de orações que cada pessoa recebeu de amigos, familiares e congregações de todo o mundo que rezam diariamente pelos enfermos e moribundos.

Bob Barth, o diretor espiritual da congregação de orações Unidade do Silêncio, disse que as descobertas não afetaram a missão ou as práticas da sua instituição.

"Uma pessoa de fé diria que esse estudo é interessante. Mas nós fazemos orações há muito tempo, e vimos que elas funcionam, sabemos que funcionam, e as pesquisas sobre oração e espiritualidade estão apenas começando", afirmou Barth. Danilo Fonseca

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