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01/04/2006

Fabricante de autopeças dos EUA pede anulação de acordos sindicais

The New York Times
Micheline Maynard

em Detroit
A Delphi, a maior fabricante de autopeças dos Estados Unidos, entrou na sexta-feira (31/03) com um pedido junto à Corte de Falências que provavelmente desencadeará uma cadeia de eventos que poderia acabar com os empregos de até 20 mil funcionários da indústria automobilística norte-americana e deixar milhares de outros com menos da metade dos seus salários.

A Delphi, que está operando em estado falimentar, pediu permissão à corte para anular os seus acordos trabalhistas e impor uma redução drástica de salários e benefícios, gerando um confronto que o sindicato United Auto Workers (UAW) disse que pode levar a uma greve prolongada no setor.

Tal greve paralisaria a General Motors (GM) e aceleraria a queda da indústria automobilística norte-americana.

O confronto promete se tornar ainda mais intenso nos próximos meses, já que a GM procura sair da pior crise financeira que enfrenta em mais de uma década, e a UAW enfrenta a Delphi devido à proposta mais drástica de cortes de salários e benefícios que já foi apresentada ao sindicato.

Além disso, a Delphi pediu à Corte de Falências que rejeitasse alguns dos seus contratos com a General Motors, o que permitiria que a fabricante de autopeças renegociasse os preços com a GM peça a peça. A Delphi anunciou que manteria abertas apenas oito das suas fábricas norte-americanas.

"Assumi este emprego acreditando que ele era o meu futuro", lamenta Tracey Huffman, 37, com o olhar vazio, sentada em uma mesa no Jamin's, uma sala de bilhar próxima à UAW. "Agora, já não sei. É como se tivesse que começar tudo da estaca zero".

Ela perderá o seu emprego no final de abril.

A medida se constituirá na primeira vez em que um integrante de grande porte da indústria automobilística procura anular contratos trabalhistas, abrindo o caminho para uma decisão sem precedentes por parte do tribunal no final deste ano.

As ações da Delphi, que entrou com um pedido de falência em outubro passado, eliminariam 20 mil empregos nos Estados Unidos, ou cerca de 60% da força de trabalho da empresa. Além disso, elas acabariam com outros 8.500 empregos assalariados em outros países. A Delphi possui cerca de 34 mil trabalhadores nos Estados Unidos, dos quais cerca de 24 mil são representados pela United Automobile Workers.

A GM, que se separou da Delphi em 1999, tem desempenhado um papel significante nas discussões tripartite com a Delphi e a UAW.

Uma audiência judicial para analisar o pedido da Delphi está marcada para começar em 9 de maio. Se o pedido for acatado, a Delphi será capaz de anular os seus contratos de trabalho em vigor, e impor novos termos. No entanto, uma decisão do juiz ainda demorará meses, proporcionando tempo para que se chegue a um acordo.

"O processo de falência nos Estados Unidos exige que tomemos decisões difíceis, mas necessárias", afirmou em uma declaração pública o diretor-executivo da Delphi, Robert S. Miller. "Essas ações resultarão em uma companhia mais forte, com futuras oportunidades de crescimento global".

Mas a UAW reagiu furiosamente à medida da Delphi, chamando-a de "uma dissimulação e um motivo de preocupação para todos os norte-americanos".

Em uma declaração, o presidente da UAW, Ron Gettelfinger, e o vice-presidente, Richard Shoemaker, continuaram: "A proposta da Delphi vai bem além do corte de salários e benefícios para funcionários ativos e aposentados. A proposta ultrajante da Delphi reduziria a sua força de trabalho representada pela UAW em aproximadamente 75%, devastando os trabalhadores da Delphi, as suas famílias e as suas comunidades".

"Caso a corte rejeite o contrato UAW-Delphi e a Delphi imponha os termos da sua última proposta, parece que será impossível evitar uma longa greve", advertiram as lideranças sindicais.

Enquanto isso, a GM, que concordou no outono passado em reinstituir as reduções de preços que negociara com a Delphi a fim de dar à sua ex-afiliada alguma margem de manobra para o processo de falência, disse estar desapontada com a disposição da fabricante de autopeças em rejeitar alguns dos seus contratos. Essa é uma tática comum nos processos falimentares, à medida que as companhias procuram reduzir os seus custos.

"Nós discordamos da abordagem da Delphi, mas tínhamos antecipado que este passo poderia ser dado", disse o diretor-executivo da GM, Rick Wagoner. "A GM espera que a Delphi honre os seus compromissos públicos a fim de evitar qualquer interrupção das operações da nossa empresa".

Segundo o seu contrato, que é essencialmente o mesmo que protege os trabalhadores da GM, os membros da UAW recebem salários de US$ 27 por hora, como parte da compensação total, que inclui pensões, plano de saúde e outros benefícios no valor de US$ 78,63 a hora, segundo o processo de falência da Delphi.

A oferta original da Delphi à UAW, feita pouco após o pedido de falência, era de salários de apenas US$ 9,50 a hora, uma proposta que escandalizou os membros do sindicato.

No seu processo junto à corte, a Delphi disse que deseja impor a sua última oferta, feita uma semana atrás, que prevê uma redução de US$ 5 nos seus salários horários, abaixando-os para US$ 22 a hora, neste ano, seguida por uma outra redução, que faria com que a hora de trabalho ficasse em apenas US$ 16 no ano que vem. Cada trabalhador receberia US$ 50 mil para aliviar o impacto das reduções salariais. Mas essa oferta depende de um acordo com a UAW, e do apoio financeiro da GM, que ainda não concordou em contribuir. Segundo Miller, se estas duas condições não forem preenchidas, o salário poderá cair para US$ 12,50 a hora.

Mas no início desta semana a UAW rejeitou a proposta, que, segundo os líderes sindicais será repudiada em votação pelos trabalhadores.

A oferta foi feita uma semana após a Delphi, a UAW e a GM terem concordado com um programa de demissão voluntária oferecido a todos os 113 mil funcionários da GM e a 13 mil da Delphi. Segundo o plano, que seria pago pela GM, os trabalhadores poderiam receber uma compensação de até US$ 140 mil caso concordassem em se demitir.

Isso, contudo, pode ser o único ponto com o qual a UAW concorda. Embora os juízes encorajem os sindicatos trabalhistas e as companhias a chegarem a acordos, em vez de terem índices mais baixos impostos sobre si pela Justiça, os líderes sindicais disseram que podem não continuar dialogando com a Delphi.

Especialistas em questões trabalhistas dizem que seria politicamente impossível para o presidente da UAW, Gettelfinger, concordar com as reduções salariais, já que isso criaria um precedente para as negociações ainda mais críticas no ano que vem com a GM e a Ford.

A Delphi foi incluída na prática de "barganha padrão" do sindicato, que essencialmente exige os mesmos termos de cada companhia. E a concessão de reduções no caso da Delphi criaria um precedente para que também as montadoras exigissem a concessão de salários e benefícios menores.

Embora tenha concordado com algumas modificações, especialmente mudanças relativas à cobertura dos planos de saúde, negociadas na GM e na Ford no ano passado, a UAW não aceita reduções salariais em uma grande companhia automobilística desde que concordou em fazer concessões à Chrysler Corporation em 1978, como parte de uma operação do Congresso para salvar aquela empresa. No entanto, tais perdas salariais foram mais tarde repostas. Danilo Fonseca

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