UOL Notícias Internacional
 

01/04/2006

Gravações de telefone de 11 de setembro revelam confusão e desinformação

The New York Times
Jim Dwyer

em Nova York
A cidade divulgou na sexta-feira gravações parciais de cerca de 130 telefonemas feitos ao 911 (o 190 americano) em 11 de setembro, sem as vozes das pessoas dentro do World Trade Center, mas ainda evocativas de suas lutas invisíveis pela vida.

Apenas os operadores do 911 e operadores do corpo de bombeiros podem ser ouvidos nas gravações, com suas palavras mapeando a calamidade em meio aos ecos brutos, distantes dos homens e mulheres nas torres que telefonaram por socorro.

Eles descrevem ilhas lotadas de sobrevivência fugaz, em andares distantes da colisão e mesmo naqueles que foram diretamente atingidos: corredores estão bloqueados no 104. Envie ajuda para o 84. Está difícil de respirar no 97. Um homem está sentado à sua mesa no 73, aguardando pelo resgate que tentava chegar até ele por horas, em um prédio que tinha apenas minutos.

Tenha calma, imploram os operadores. Deus está aí. Fique onde está.

As gravações, contidas em 11 CDs, também documentam um elo partido na cadeia das comunicações de emergência.

As vozes registradas nos discos acompanham os chamadores invisíveis enquanto suas ligações são transferidas de uma agência para outra, passando por uma confederação de feudos municipais -polícia, bombeiros, resgate médico- mas quase todos nunca recebendo instruções vitais para evacuarem o prédio.

Apenas dois dos 130 chamadores foram instruídos a sair, como revelam as
gravações, apesar de ordens inequívocas para evacuar as torres terem sido dadas pelos chefes dos bombeiros e pelos comandantes da polícia momentos após o choque do primeiro avião. A cidade não contava com procedimento para comandantes de campo compartilharem informação com o sistema 911, uma falha identificada pela Comissão de 11 de setembro que as autoridades municipais disseram ter sido corrigida.

As gravações mostram que muitos chamadores não foram instruídos a deixar as torres, mas para permanecerem onde estavam, o conselho padrão para incêndios em arranha-céus. Na torre norte, todas as três escadarias do prédio foram destruídas no 92º andar. Mas na torre sul, onde uma escadaria permanecia transitável, as gravações incluíam referências a talvez umas poucas centenas de pessoas agrupadas dentro de escritórios, não cientes da ordem de evacuação.

Os telefonemas divulgados na sexta-feira trazem à vida a frustração e
confusão fatal experimentada por um homem não identificado na torre sul do complexo, que telefonou às 9h08 da manhã, logo após o segundo avião ter atingido o prédio. Durante os 11 minutos seguintes, enquanto sua ligação era transferida dos operadores da polícia para os dos bombeiros e vice-versa, o sistema 911 provou sua reputação de engenhoca perigosa, inconstante, uma que a administração do ex-prefeito Rudolph W. Giuliani tentou reformar com pouco sucesso, e uma que o prefeito Michael R. Bloomberg espera melhorar gastando perto de US$ 1 bilhão.

A voz do homem, que telefonava dos escritórios da Keefe Bruyette, no 88º andar do prédio, foi removida da gravação pela municipalidade. Pelas respostas da operadora, ele parecia querer sair.

"Você não pode -você precisa esperar até que alguém chegue aí", ela disse ao homem.

A operadora da polícia pediu que ele colocasse toalhas molhadas ou panos sob a porta, e disse que o transferiria ao Corpo de Bombeiros.

Enquanto ela tentava transferir a ligação, o telefone tocava e tocava -15 vezes, até que a operadora da polícia desistiu e tentou o operador do Corpo de Bombeiros de outro distrito. No final um operador atendeu e pediu ao homem que repetisse a mesma informação que tinha fornecido momentos antes para a operadora da polícia. (A polícia e os bombeiros tinham sistemas de computador separados que eram incapazes de compartilhar informação básica, como a localização de uma emergência.)

Depois disto, o operador dos bombeiros desligou e o homem no 88º andar
aparentemente persistia em perguntar à operadora da polícia -que permaneceu na linha- sobre deixar o prédio.

"Mas eu não posso lhe dizer isto, senhor", disse a operadora, que então
decidiu transferir novamente a ligação para o Corpo de Bombeiros. "Me
permita transferi-lo de novo. Ok? Porque eu realmente não quero lhe dizer para fazer isto. Eu não posso lhe dizer para sair daí."

Um operador dos bombeiros atendeu e perguntou -pela terceira vez na ligação- a localização do homem no 88º andar. As instruções do operador foram transmitidas pela operadora da polícia.

"Ok", ela disse. "Eu preciso que você permaneça no escritório. Não vá para o corredor. Eles estão subindo pelas escadas. Eles estão chegando. Eles estão tentando chegar até você pelas escadas."

Como muitos outros operadores naquela manhã, ela estava seguindo uma
orientação de uma política conhecida como "defesa no local" -o que significa que apenas pessoas no andar ou acima do incêndio devem se mover, uma abordagem que há muito é aplicada em arranha-céus em Nova York e outros lugares.

Na Keefe Bruyette, 67 pessoas morreram, muitas das quais estavam agrupadas nas salas de conferência e nos escritórios no 88º e 89º andares. Algumas tentaram chegar à cobertura, uma jornada inútil que a Comissão de 11 de setembro disse que poderia ter sido evitada se os operadores do 911 da cidade soubessem que a polícia tinha descartado o uso de helicópteros de resgate -outra informação que não foi compartilhada com eles- e que uma ordem de evacuação tinha sido dada.

Os telefonemas foram divulgados na sexta-feira em resposta a um pedido
dentro da Lei de Liberdade de Informação, feito pelo "The New York Times" em 25 de janeiro de 2002, requisitando os registros públicos envolvendo os eventos de 11 de setembro. A cidade se recusou a divulgar a maioria deles com base de que seriam necessários para processar um homem acusado de cumplicidade nos ataques, ou por conterem opiniões que não estavam sujeitas a divulgação, ou por serem altamente pessoais a ponto de sua divulgação caracterizar uma invasão de privacidades. O "Times" processou em um tribunal estadual e nove parentes de pessoas que morreram nos ataques se juntaram ao caso.

O juiz Richard Braun, da Suprema Corte estadual em Manhattan, decidiu no início de 2003 que a grande maioria das gravações era pública, mas disse que a municipalidade poderia remover as palavras dos chamadores do 911 com base em privacidade. Ao longo dos dois anos seguintes, sua decisão foi confirmada pela divisão de apelações e pelo Tribunal de Apelações do Estado de Nova York.

Isto levou à divulgação dos telefonemas na sexta-feira. As autoridades
municipais disseram que 130 ligações foram feitas ao 911 de dentro dos
prédios. Daquele grupo, as autoridades foram capazes de identificar 27
pessoas e notificaram parentes nesta semana de que poderiam escutar o
telefonema na íntegra.

Apesar de poder parecer um pequeno número de telefonemas dado que
aproximadamente 15 mil pessoas estavam no World Trade Center naquela manhã, as autoridades disseram que muitas das que ligaram para o 911 faziam parte de grupos maiores de pessoas.

Um destes grupos estava no 105º andar da torre sul, um local onde várias pessoas se reuniram após tentarem chegar à cobertura. Entre elas estava Kevin Cosgrove, que trabalhava no 100º andar e que disse para sua família que tinha descido as escadas antes de voltar. Ele telefonou para o 911 e disse que estava em um escritório com vista para o World Financial Center, em frente a Wall Street, como mostram os registros. Ele disse que precisava de socorro e que estava tendo dificuldade para respirar.

Uma das gravações -as autoridades municipais se recusaram a dizer quem
telefonou- envolvia um homem no 105º andar que sugeria medidas desesperadas para melhorar o ar.

"Oh, meu Deus", disse o operador. "Você não consegue respirar?"

As palavras do chamador foram apagadas.

"Ok", disse o operador. "Escute, quando você ...escute, por favor, não
quebre a janela. Quando você quebra a janela..." -ele é interrompido pelo chamador.

"Não quebre a janela porque há fumaça demais do lado de fora", disse o
operador. "Se você quebrar a janela, vocês não conseguirão respirar; ok? Ok? Assim, procure qualquer outra porta que possa abrir onde não exista fumaça."

O operador tentou acalmar o homem, finalmente dizendo: "Ok. Escute,
acalme-se. Todo mundo já está lá fora, ok?"

O homem falou e o operador lhe assegurou que a ajuda estava a caminho.

"Nós estamos", disse o operador. "Nós estamos tentando chegar aí, senhor. Como você disse, as escadas ruíram; ok? Todos molhem as toalhas e deitem no chão, ok? Coloque as toalhas molhadas sobre sua cabeça e deite, ok? Eu sei que é difícil respirar. Eu sei que é."

As pessoas nos andares mais altos em ambas as torres sofreram profundamente com a fumaça e o calor, apesar de estarem muitos andares distantes dos pontos de impacto dos aviões que colidiram nos prédios. Nos escritórios da Cantor Fitzgerald na torre norte, entre 25 e 50 pessoas encontraram refúgio em uma sala de conferência no 104º andar. Um homem, Andrew Rosenblum, telefonou para sua esposa em Long Island e lhe deu os nomes e telefones de casa de alguns colegas que estavam com ele. Enquanto ditava a informação, ela a repassava para os vizinhos. Rosenblum então telefonou para um amigo e disse que o grupo tinha usado os terminais de computador para quebrar as janelas para a entrada de ar.

Tais ações drásticas pareciam ser desencorajadas pela operadora. Outro
funcionário da Cantor Fitzgerald no 104º andar era Richard Caggiano,
telefonou para o 911 às 8h53 da manhã, sete minutos depois que o avião
atingiu a torre norte.

"Não faça isso, senhor", disse a operadora. "Não faça isso. A ajuda está a caminho, senhor. Aguarde."

As palavras de Caggiano, que não foram divulgadas, levaram a uma pergunta da operadora.

"Vocês estão todos em uma sala em particular?" ela perguntou. "Quantos?"

Ela escutou e então disse: "25 ou 30 em uma sala recuada. OK. Eles estão a caminho. Eles já estão aí. Você não consegue ouvir as sirenes?"

Pouco antes do colapso da torre sul, às 9h59 da manhã, várias ligações
chegaram aos operadores do 911. Uma delas foi de Shimmy Biegeleisen, que trabalhava no Fiduciary Trust na torre sul, nos sistemas de computador. Ele estava no 97º andar onde, por acaso, um exercício de emergência estava programado para aquele dia. Biegeleisen telefonou para sua casa no Brooklyn, falou com sua esposa e rezou com um amigo, Jack Edelman, que lembrou de tê-lo escutado dizer: "De Davi. Um Salmo. Do Senhor é a terra e sua plenitude; o mundo e aqueles que nele habitam".

Às 9h52 ele telefonou para o 911. Ainda restavam sete minutos antes do
colapso do prédio. Biegeleisen passaria estes minutos contando primeiro para a operadora da polícia, depois para o dos bombeiros, que estava no 97º andar com seis pessoas, que a fumaça tinha ficado espessa.

A operadora da polícia tentou encorajar Biegeleisen.

"Fumaça pesada. OK. Senhor, por favor, tente ficar calmo. Nós enviaremos alguém aí imediatamente. Aguarde. Permaneça na linha. Estou contatando o EMS (serviço médico de emergência). Aguarde. Eu o estou conectando agora ao serviço de ambulância."

Enquanto seu telefonema era transferido ao serviço médico, novamente a
informação sobre a fumaça e o 97º andar foi pedida e informada.

"Senhor, há fumaça aí?" perguntou o operador do serviço de ambulância. "Ok, a melhor coisa a fazer é permanecer abaixado no chão. Tudo bem? Ok?"

O operador de ambulância desligou, mas a operadora original permaneceu na linha com Biegeleisen. Ela pode ser ouvida falando brevemente com outra pessoa na sala e então voltando novamente sua atenção a ele.

"Nós desligaremos, Ok?" disse a operadora. "As notificações foram feitas. Nós fizemos as notificações. Se houver qualquer nova, nos informe. Nos ligue de novo."

Segundos depois, o prédio ruiu. George El Khouri Andolfato

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