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02/04/2006

Política americana enfrenta grande mudança pela Internet

The New York Times
Adam Nagourney
Em Washington
A transformação da política americana pela Internet está se acelerando com a aproximação das eleições para o Congresso em 2006 e para a Casa Branca em 2008, produzindo mudanças extensas na forma como as campanhas abordam a propaganda, a arrecadação de fundos, a mobilização dos simpatizantes e mesmo a disseminação de informação negativa.

Democratas e republicanos estão aumentando acentuadamente seu uso de e-mails, sites interativos na Internet, blogs de candidatos e partidos e mensagem de texto para arrecadar fundos, organizar a mobilização dos eleitores para votar e reunir multidões para comícios. A Internet, eles dizem, parece ser bem mais eficiente e menos cara do que as ferramentas tradicionais da política, notadamente o bater de porta em porta e o uso do telefone.

Analistas disseram que a propaganda de campanha em televisão, já perdendo em influência com a proliferação de canais de cabo, enfrenta novos desafios à medida que as campanhas experimentam a tecnologia que permite mensagens diretas a públicos mais específicos e por meios não convencionais.

Eles incluem podcasts contendo uma mensagem diária do candidato e os chamados vídeos de ataque viral, projetados para estimular a distribuição peer-to-peer (P2P) pelas redes de e-mail, sem estarem associadas a algum candidato ou campanha. As campanhas estão agora estudando as populares redes sociais de Internet, como Friendster e Facebook, como formas de atingir grupos potenciais de simpatizantes com pontos de vista políticos e interesses culturais semelhantes.

O consultor de mídia do presidente Bush, Mark McKinnon, disse que a propaganda em televisão, apesar de ainda crucial para as campanhas, tem se tornado notadamente menos influente em persuadir os eleitores do que há dois anos.

"Eu me sinto um mamute lanoso", disse McKinnon.

O que os partidos e candidatos têm enfrentado agora é de muitas formas semelhante ao que aconteceu com outros setores da nação -incluindo a indústria fonográfica, os jornais e o varejo- que tiveram que se ajustar e tirar proveito da Internet à medida que sua influência se disseminava pela sociedade americana. De uma forma considerável, eles estão respondendo e tentando acompanhar bloggers que demonstraram o poder de seus fóruns para explorar a energia de ambos os lados da divisão ideológica.

Certamente a Internet foi um fator significativo em 2004, particularmente com o sucesso inicial na arrecadação de fundos e na organização de Howard Dean, um candidato presidencial democrata. Mas representantes de ambos os partidos disseram que o reconhecimento e dependência dos partidos da Internet aumentou a uma taxa impressionante nos últimos dois anos.

O percentual de americanos que se conectaram online em busca de notícias eleitorais saltou de 13% no ciclo eleitoral de 2002 para 29% em 2004, segundo uma pesquisa do Centro Pew após a última eleição presidencial. Uma pesquisa Pew divulgada no início deste mês revelou que 50 milhões de americanos entram na Internet diariamente em busca de notícias, um aumento em comparação a 27 milhões em março de 2002, um reflexo do fato da Internet atualmente estar disponível para 70% dos americanos.

Isto significa, disseram assessores, um repensar de cada aspecto da condução de uma campanha: como atingir diferentes segmentos de eleitores, como estimular os eleitores a saírem para votar, como arrecadar fundos e a melhor forma do candidato interagir com a população. No início da campanha de 2004, John Edwards, na época um senador democrata da Carolina do Norte que buscava a indicação presidencial de seu partido, passou grande parte de seu tempo conversando com eleitores em salas de estar em New Hampshire e Iowa; agora ele está dedicando algumas horas a cada semana para gravar respostas em vídeo para perguntas pré-gravadas, com tudo postado em seu blog.

"O efeito da Internet na política será tão transformador quanto foi a televisão", disse Ken Mehlman, o presidente nacional do Partido Republicano.

"Se você quer divulgar sua mensagem, a antiga forma de pagar alguém para produzir uma propaganda de TV é insuficiente: você precisa que sua mensagem seja transmitida pela Internet, por meio de e-mail, por meio do rádio".

Michael Cornfield, um professor de ciência política da Universidade George Washington que estuda política e Internet, disse que as campanhas chegaram na verdade atrasadas ao jogo. "Os políticos têm tido dificuldade para se adaptar a um meio no qual não podem controlar a mensagem", disse Cornfield.

"A política está atrasada, mas ela não estará imune à revolução digital."

Se havia alguma resistência, ela está rapidamente desaparecendo.

Mark Warner, o ex-governador democrata da Virgínia, começou a se preparar para uma potencial campanha presidencial em 2008 contratando um pioneiro em blogs, Jerome Armstrong, uma adição de valor à habitual primeira onda de contratação de consultores políticos e arrecadadores de fundos para uma campanha presidencial.

Warner é agora um de pelo menos três candidatos presidenciais potenciais -os outros são os candidatos à Presidência e vice-Presidência do partido em 2004, os senadores John Kerry, de Massachusetts, e Edwards- que estão postando rotineiramente o que assessores disseram ser seus próprios textos em blogs de campanha ou blogs públicos como o Daily Kos, o maior do país.

Analistas disseram que a Internet parece ser uma forma particularmente potente de ter apelo junto aos eleitores mais jovens, um assunto de interesse particular para ambos os partidos neste tempos politicamente turbulentos. Na campanha de 2004, 80% das pessoas entre 18 e 34 anos que contribuíram para a campanha de Kerry fizeram suas contribuições online, disse Carol Darr, diretora do Instituto para Política, Democracia e Internet da Universidade George Washington.

Não por acaso, à medida que se torna mais integrada à política americana, a Internet está sendo colocada a serviço do lado menos decoroso das campanhas.

Ambos os partidos têm criado sites para desacreditar seus oponentes. No
Tennessee, os republicanos destacaram o que descreveram como os hábitos de gastos vultuosos do deputado Harold E. Ford Jr. com um site chamado www.fancyford.com. O site atraiu 100 mil visitas no primeiro fim de semana e uma ampla cobertura da imprensa do Tennessee, que normalmente é a principal meta da criação de sites como este. E neste fim de semana, os republicanos lançaram um novo site de ataque, www.bobsbaggage.com, que é voltado contra o senador Robert Menendez, de Nova Jersey, que condena a ética do político.

Por sua vez, os democratas criaram sites chamarizes para postar documentos com informação danosa aos republicanos. Eles descreveram estes meios de distribuição como bem mais eficientes do que o tradicional envio de um documento a um repórter de jornal.

Um alto funcionário do partido, ao qual foi concedido anonimato em troca da descrição de um esforço clandestino, disse que o partido criou um site já desativado chamado D.C. Inside Scoop para, entre outras coisas, distribuir um documento escrito pelo senador Mel Martinez, republicano da Flórida, discutindo os benefícios políticos do caso Terri Schiavo. Um segundo site do gênero, http://capitolbuzz.blogspot.com, espalhou uma informação mais
nociva, a suposta imagem do senador Rick Santorum, republicano da
Pensilvânia, estacionando em uma vaga reservada aos deficientes.

Na esquerda em particular, os blogueiros despontaram como uma espécie de força política contra a deslealdade entre os democratas, como Steve Elmendorf, um consultor democrata, aprendeu após ter dito ao "The Washington Post" que os blogueiros e doadores online "não representam a maioria necessária para vencer eleições".

Um blogueiro do Daily Kos escreveu: "Nenhum centavo, senhoras e senhores, a qualquer coisa ligada a Steve Elmendorf. Qualquer um estúpido o bastante para dizer algo assim merece ver secar cada uma de suas fontes de recursos".

Ao ser questionado sobre o episódio, Elmendorf insistiu que a mensagem
postada não o prejudicou, mas acrescentou contritamente: "Desde que fui
atacado por eles, eu leio muito mais blogs e os considero muito úteis".

Um dos grandes desafios para as campanhas não é apenas se ajustar às
mudanças dos últimos dois anos, mas também antecipar agora o tipo de
mudanças tecnológicas que poderão estar à mão durante a próxima campanha presidencial. Entre as mais citadas estão a capacidade das campanhas transmitirem vídeos de propaganda para celulares.

"Todos estes consultores ainda estão tentando compreender o que são os blogs e acho que até 2008 eles terão uma boa idéia. Eles serão assim: 'Nós somos quentes, somos modernos e estamos fazendo blogs'", disse Markos Moulitsas, o fundador do Daily Kos. "Mas até 2008, os blogs estarão tão institucionalizados que não será mais divertido."

Os blogueiros, apesar de todos os benefícios que podem trazer a ambos os partidos, provaram ser uma influência política complicadora para os
democratas. Eles têm pressionado o partido consistentemente para a esquerda, em particular em questões como a guerra, e têm sido abertamente críticos de democratas moderados como o senador Joseph I. Lieberman, de Connecticut.

Ainda assim, os democratas estão particularmente entusiasmados com o
potencial desta tecnologia de devolver o partido aos trilhos, com muitos líderes democratas argumentando que a Internet representa hoje o que o rádio representava para os republicanos há 10 anos. "Esta nova mídia se torna muito mais importante para nós porque os conservadores têm sido mais dominantes na mídia tradicional", disse Simon Rosenberg, o presidente da centrista Nova Rede Democrata. "Isto é algo realmente crítico para nós."

Apesar de toda a atenção dada à tecnologia de Internet, ainda existem
limitações ao seu alcance. O uso de Internet cai acentuadamente entre
americanos com mais de 65 anos , que tendem a ser os eleitores mais
confiáveis do país. Até recentemente, ela costumava ser mais usada por
pessoas de classe média e alta.

E apesar da Internet ser eficiente para chegar aos simpatizantes, que tendem a procurar e visitar os sites políticos, ela provou ser bem menos eficiente junto a eleitores indecisos que não estão interessados em política. "O santo graal que todos procuram no momento é como usar a Internet para persuasão", disse Armstrong, o conselheiro de campanha na Internet de Warner.

Nesta era de multitarefas, os eleitores não são tão cativos a um site quanto seriam a uma propaganda de televisão de 30 segundos, ou a uma
correspondência de campanha. Esta foi uma lição crítica do colapso da
campanha presidencial de Dean, após ele ter desfrutado inicialmente de
grande sucesso na Internet na arrecadação de fundos e mobilização das
pessoas.

"É muito fácil olhar para algo e apenas clicar apagar", disse Carl Forti, um porta-voz do Comitê Nacional Republicano para o Congresso. "Mas se estiverem ao menos olhando para uma correspondência, você sabe que estarão com ela na mão e olhando para ela a caminho da lata do lixo." George El Khouri Andolfato

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