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03/04/2006

Fazenda Paraíso Perdido

The New York Times
Por Sybil Raney
Certa vez eu tive um caubói. Não era como Ennis e Jack. Ele estava mais para Roy e Dale. Mas mesmo assim foi difícil para mim deixá-lo.

Em um Natal, há vários anos, quando eu morava em Los Angeles, saí de férias com os meus filhos e o homem com quem pretendia me casar. Fomos para a fazenda de uma pessoa perto de San Antonio, a minha cidade natal. O meu namorado jamais estivera no Texas.

Ao chegarmos lá, as crianças adoraram a fazenda. O meu namorado a detestou. Eu fiquei ofendida. Como é que alguém poderia não gostar do coração da região dos caubóis do Texas?

Ele reclamou de que todo mundo calçava botas para fingir ser caubói e que toda a comida servida na sala de jantar era marrom e branca. Ele sentia saudade do seu molho pesto e da salada mista, para não falar do cappuccino.

"Cappuccino é marrom e branco", lembrei a ele.

Ele não riu, disse que estava cansado, e voltou para a cama na cabana.

Deixada por conta dos meus próprios programas, ou melhor, das demandas dos meus dois filhos, reservei para nós três uma cavalgada na manhã seguinte.

O dia amanheceu frio e úmido. Nos juntamos a outras famílias de olhos
avermelhados de sono no alojamento principal, e pude observar que as outras crianças, como as minhas, estavam determinadas a cavalgar, apesar do chuvisco. O meu namorado ainda estava dormindo e fingiu estar gripado para ficar longe de qualquer cavalgada.

"O que estamos esperando?", perguntei ao grupo.

"O Lightning" (Raio, em inglês), responderam todos em uníssono.

Com certeza eu não entendera. Não era capaz de imaginar que estávamos de fato esperando por raios agregados à chuva para sairmos pela cavalgando pela trilha. Isso seria algo realmente estúpido, até mesmo se fosse dito por pessoas da cidade.

Olhei para o meu relógio: 7h35, cinco minutos além do horário marcado para a nossa partida, e eu estava com o meu humor de executiva de Los Angeles, irritada pela falta de pontualidade. Acho que morei muito tempo em Nova York e Los Angeles e que me esqueci de como é o jeito de um texano tranqüilo.

"O que vocês disseram que estamos esperando?", perguntei.

"O Lightning", eles responderam novamente, como se fossem integrantes de um coro grego.

Me voltei para um homem que estava ao meu lado. "Desculpe-me, mas vocês
disseram raios?".

"Não estamos falando sobre o tempo, e sim sobre um homem chamado Lightning", ele fez um gesto com a cabeça em direção à porta. "Lá vem ele".

E, de fato, as grandes portas de madeira se abriram e entrou no aposento um caubói que parecia ter saído de um outdoor do homem do Marlboro. Filetes de água da chuva escorriam da sua capa de chuva amarela, das dobras do seu chapéu de vaqueiro e do seu bigode. A única coisa seca nele era o cigarro que dançava em seus lábios. Os seus olhos verdes se encontraram com os meus. Senti que fiquei enrubescida.

Os outros se reuniram à sua volta, crianças e adultos.

"Lightning!", clamaram eles. "Podemos seguir por aquela mesma trilha de
ontem?".

"Esperem aí. Tenho que encher primeiro a minha xícara de café".

Ele inclinou o chapéu na minha direção enquanto caminhava vagarosamente para a sala de jantar. Todos o seguiram, incluindo os meus filhos, como se ele fosse o Flautista de Hamelin.

Bem, fiquei abismada. Ou, melhor dizendo, paralisada por um raio. Nunca
havia sentido tal magnetismo animal emanar de uma pessoa. Pensei nos
chamados homens fortes que conheci, todos donos de excentricidades que eu achava primeiramente maníacas e atraentes, e depois patológicas. Mas este caubói tinha um tipo de poder diferente.

Eu pude presenciar isso no curral mais tarde, naquela manhã. Uma égua
começou a escoicear, e as mãos grandes de Lightning se moveram sobre o seu corpo de forma tão natural e sensível que ela imediatamente se acalmou. As outras mulheres e eu observamos a cena atentamente. Todas pensávamos na sensação que aquelas mãos provocariam sobre nós.

Olhei para as faces dos homens que integravam o nosso pequeno grupo. Eles também foram tocados pela masculinidade de Lightning e olhavam com atenção, como se Lightning fosse a epítome da masculinidade pura, um nível de masculinidade que eles jamais alcançariam, mas que desejavam atingir nas suas imaginações.

E era isso também o que fascinava as crianças: a parte relativa a rituais de rodeio. Uma selvageria baseada no couro, selvagem e livre e, infelizmente, uma coisa do passado. Era nisso que eu pensava durante o rodeio na cidade naquela noite, ao qual comparecemos na esperança de ver Lightning cavalgando e laçando.

Enquanto um caubói após o outro era jogado para o ar pelos animais de olhar selvagem, fiquei perplexa ao constatar que existe pouca necessidade de caubóis de verdade nos dias de hoje. Bastam apenas uns rapazes de fazenda e cavaleiros de rodeio para que a platéia se entretenha. O problema é que eles achavam que eram caubóis de verdade, e falavam como se o fossem, mas de alguma forma tudo aquilo parecia vazio, tudo parte do show.

Enquanto me movia para me aproximar deles, ouvi Lightning dizer: "Os meus cavalos estão gordos como carrapatos devido àquela ração ruim para mulas que comprei na casa LT. É claro que isso não é nada se comparado ao que enfrentei certa vez quando fiz parte de uma equipe de laçadores em Sweetwater".

Quando Lightning disse "os meus cavalos", desejei ter percebido que ele
realmente se referia aos cavalos do proprietário da fazenda, e não aos seus próprios animais, já que ele era apenas um empregado. E gostaria de me lembrar de ter ouvido Ali MacGraw ter dito certa vez: "Sempre quis cavalgar rumo ao pôr-do-sol com o caubói, mas da próxima vez que o fizer, me certificarei primeiro de que ele tenha um cavalo".

De qualquer forma, fiquei encantada com Lightning, de tal forma que quando surgiu uma oportunidade para retornar à fazenda pouco depois, peguei os meus filhos, deixei o meu namorado definitivamente para trás e me preparei para uma visita mais longa.

Desta vez eu e Lightning nos tornamos íntimos tão rapidamente que chegamos a começar a discutir o nosso futuro: o seu sonho de um dia ter a sua própria pequena fazenda, e o meu de sair da cidade com os meus filhos e vir para esta região de colinas no Texas que eu tanto amara na minha juventude.

Sei que muita gente tem fantasias sobre coisas desse tipo, deixar a vida antiga para trás e mergulhar em algum tipo de aventura romântica impossível.

Mas foi o que eu realmente fiz. Seis meses depois, embrulhei as minhas
coisas e cavalguei rumo ao pôr-do-sol com Lightning. Porém, eu sabia que esse caubói tinha um cavalo, porque fui eu que o comprei. E eu também comprei uma fazenda para acomodar o cavalo e o caubói.

Meus filhos ficaram fascinados, e eu também. Além de ser uma grande
aventura, pensava eu, esta será uma espécie de lição do tipo "bem-vinda ao mundo real" para as crianças, o antídoto perfeito contra os excessos da Califórnia e de Nova York, onde moramos antes que o pai delas e eu nos divorciássemos.

"Podemos ter o nosso próprio cavalo?", as crianças começaram a implorar
assim que chegamos. "Um jipe? Uma picape?".

"Se os negócios gerarem dinheiro suficiente, poderemos".

Ou até mesmo, aparentemente, se não gerassem. Isso porque, não muito depois de eu ter dito essas palavras, Lightning chegou na fazenda, andando, conduzindo um cavalo com cada mão.

"Aqui vamos nós, caubói", disse ele ao meu filho. E depois à minha filha, "Aqui vamos nós, cowgirl".

As crianças gritaram de alegria. Mas tudo o que pude pensar foi: "Como ele pagou pelos animais?". A fazenda ainda não estava oficialmente aberta para os negócios, de forma que tudo o que fora comprado até o momento foi pago com o dinheiro da minha poupança. Tão logo as crianças galoparam para longe, eu fiz a pergunta.

"Ah, eu peguei os cavalos com o nosso vizinho lá na frente. Eu lhe disse que você irá até lá e lhe dará um cheque assim que puder".

Ele olhou em direção às crianças e sorriu, mantendo o cigarro com uma leve pressão dos lábios. "Agora vejo crianças felizes." Ele tomou um gole de cerveja e olhou em minha direção como se pedindo aprovação.

Naquele momento, mil coisas passaram pela minha cabeça: eu estava feliz
porque as crianças estavam felizes e foi bom ver que Lightning pensara
nelas. Mas por que ele gastara o meu dinheiro sem me consultar, e por que estava bebendo cerveja às dez da manhã?

Luzes vermelhas piscaram por toda parte, mas arrumei a cama, pensando que seria bom encontrar uma forma de me acomodar nela. E me acomodar nela com Lightning era fácil, já que o sexo entre nós era muito bom.

Naquela noite, após pagar o vizinho, fui até o estábulo onde Lightning
estava construindo baias. Achei melhor esclarecer algumas coisas com ele.

Entrei no estábulo no momento em que Lightning dava um novo chapéu de caubói ao meu filho. O vapor subia de um bule de café em uma placa quente, e Lightning passava o chapéu no vapor usando a umidade para modelá-lo.

"Primeiro, a dobra tem que ficar exatamente no centro. Depois, as pontas laterais precisam ficar no mesmo lugar dos dois lados".

O meu filho parecia estar testemunhando um espetáculo de mágica. O meu
coração derreteu.

No decorrer dos próximos anos, enquanto as pessoas chegavam e partiam, houve muita coisa que me fez respeitar Lightning. Ele era capaz de se sentar durante horas no estábulo contando aos visitantes felizes tudo sobre a vida de caubói e mostrando pacientemente a eles como fazer cada tarefa. Ele ensinou a um casal de velhinhos alemães o passo de dança two-step, às crianças como manejar um laço e cuidou de incontáveis cavalos.

Todas as manhãs, antes de sair para alimentar os cavalos ao amanhecer ele levava as crianças até a escola, e deixava para mim uma rosa colhida no jardim.

Mas os nossos sonhos se desfizeram. Lightning começou a chegar em casa cada vez mais tarde à noite, e eu e ele fomos nos distanciando. Em uma daquelas noites, depois de ter passado o dia todo doente, eu sabia que precisava ir ao hospital, a 72 quilômetros de distância. Lightning, infelizmente, não pôde ser encontrado em lugar algum, e eu percebi tristemente que ficara entregue à própria sorte.

Após a minha cirurgia de emergência, voltei à fazenda no momento em que a umidade diminuiu e uma seca se fez presente. Essa acabou sendo a gota d'água.

Não havia feno para os cavalos, e a nossa pastagem estava ressecada. Fazia muito calor para que os clientes quisessem cavalgar. Ninguém veio. Lightning me disse que sentia muito, e que eu não deveria me preocupar, mas eu sabia que havíamos chegado ao fim da linha no nosso relacionamento.

Vendi a fazenda no outono daquele ano, e eu e Lightning seguimos os nossos rumos. Durante certo tempo, eu e ele tivemos o que queríamos: ele conseguiu ser um caubói de verdade, e eu consegui ser a sua cowgirl. Agora, mais de uma década depois, eu ainda penso nele, especialmente durante o pôr-do-sol. Danilo Fonseca

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