UOL Notícias Internacional
 

04/04/2006

Histórias familiares determinam posição de parlamentares quanto à questão da imigração

The New York Times
Rachel L. Swarns

em Washington
Durante os acalorados debates sobre a imigração no Congresso, alguns
republicanos retrataram os imigrantes como invasores, criminosos e um peso para a sociedade. Mas para o senador Pete V. Domenici, republicano do Novo México, a imagem que vem à sua mente é aquela da sua mãe e do dia que as autoridades a detiveram.

O ano era 1943, a Segunda Guerra Mundial se desenrolava e agentes federais vasculhavam a região de Albuquerque, Novo México, procurando por italianos simpatizantes do Eixo. Eles descobriram Alda V. Domenici, uma mulher de cabelos encaracolados, mãe de quatro filhos (entre eles o atual senador Domenici) e presidente local da Associação de Pais e Professores. Alda era também uma imigrante ilegal vinda da Itália. Domenici, que se lembra de ter, à época, nove ou dez anos de idade, chorou quando a sua mãe foi levada pelos agentes em um grande automóvel negro.

Atualmente com 73 anos, Domenici surpreendeu vários dos seus colegas quando ficou de pé no auditório do Senado na semana passada e contou esta história, que ele manteve basicamente secreta durante grande parte da sua vida.

Mas o seu relato enérgico reflete uma realidade mais ampla que passou quase desapercebida enquanto os republicanos discutiam se legalizavam ou não os imigrantes ilegais dos Estados Unidos. Entre as vozes mais acaloradas neste debate estão as dos parlamentares com fortes vínculos pessoais com a imigração. Aqueles cuja visão do problema é afetada por passagens de suas histórias familiares, que ajudaram a modelar as suas posições legislativas.

A conexão estreita com o problema convenceu alguns parlamentares da
importância de se conceder cidadania aos imigrantes ilegais, enquanto outros acreditam que tal concessão deveria ser feita com maior parcimônia.

O senador Arlen Specter, republicano pela Pensilvânia, diretor do Comitê do Judiciário, que votou na semana passada em favor da legalização de milhões de imigrantes ilegais, contou que os seus pais vieram da Rússia para os Estados Unidos no início do século 19. O senador Jon Kyl, republicano pelo Arizona, que apóia um programa mais limitado de trabalho temporário, disse que cresceu ouvindo as histórias dos seus avós, que chegaram da Holanda pouco antes de 1910.

E o senador Mel Martinez, republicano pela Flórida, fugiu de Cuba para a Flórida em 1962, quando tinha 15 anos, e morou em orfanatos e com famílias adotivas até ser capaz de se reunir à sua família original quatro anos mais tarde. Esses homens trazem memórias dos parentes que falavam com sotaques carregados das suas terras natais, das desbotadas fotografias em preto-e-branco dos recém-chegados à América e dos nomes de vilas de terras distantes. Todos os quatro são favoráveis à lei que permitiria que os imigrantes ilegais trabalhassem nos Estados Unidos por um determinado período, embora as suas experiências singulares tenham convencido alguns deles a argumentar que a cidadania deveria ser concedida aos trabalhadores sem documentos, enquanto outros acreditam que tal concessão deveria ser mais parcimoniosa.

No século 19 e início do século 20, quando senadores nascidos no exterior ou filhos de pais imigrantes eram bem mais comuns, as histórias contadas pelos quatro não chamariam atenção, dizem os historiadores do Senado. Os parlamentares asseguram que as suas histórias familiares - especialmente aquelas de Domenici, Specter e Martinez - lhes dão uma espécie de visão inusual e privilegiada sobre o problema.

"Eu compreendo bem esta idéia de uma família com um pai que é
norte-americano e uma mãe que é estrangeira, mas que vive, trabalha e segue em frente", afirma Domenici, cuja mãe se casou com um cidadão
norte-americano. "Eu entendo que eles são como qualquer outra família nos Estados Unidos. Não há nada de diferente".

A mãe de Domenici tinha três anos ao chegar da Itália com a família, e 38 anos quando as autoridades a detiveram. Ela era casada com um cidadão norte-americano nascido na Itália, que era dono de uma mercearia. A mãe do senador acreditava que os seus documentos estavam em ordem.

Após ter sido detida naquele dia em 1943, a mãe do senador Domenici foi
libertada, após o pagamento de uma fiança, e pôde retornar para a sua
família. Durante os seis meses seguintes, ela completou a documentação
necessária para se tornar cidadã.

Domenici disse que a sua experiência o persuadiu a apresentar a legislação que daria a imigrantes ilegais como sua mãe, que possuem raízes profundas na comunidade, a chance de se tornarem cidadãos, enquanto que os que chegassem aqui mais recentemente só poderiam trabalhar nos Estados Unidos em caráter temporário.

Ele não apóia a lei aprovada pelo comitê de Spectre, que não faria distinção entre os imigrantes que chegaram recentemente e aqueles que passaram vários anos aqui. "É preciso dar às pessoas que estão aqui há mais de cinco anos uma oportunidade de respirarem", disse Domenici.

É claro que os que apóiam os programas de trabalho temporário não são os únicos que possuem parentes imigrantes.

O deputado Tom Tancredo, republicano do Colorado, um dos críticos mais
ferozes dos esforços para a legalização dos imigrantes, disse que o seu pai órfão tinha cerca de 11 anos de idade quando chegou a Ellis Island, vindo da Itália, por volta do início do século 20, deslocando-se para a região das Montanhas Rochosas.

Tancredo refletiu um pouco quando lhe perguntaram se as suas raízes de neto de imigrantes tiveram um papel na definição das suas visões sobre a questão da imigração. A seguir, ele pensou nos pais da sua mãe, que também vieram da Itália.

"Eu certamente penso no fato de que o maior desejo deles era de se
americanizar", disse Tancredo. "Esse desejo de romper com o antigo e se
ligar ao novo, de falar inglês, coisas desse tipo. Talvez isso tenha se
constituído em uma influência sobre mim".

James A. Thurber, diretor do Centro de Estudos Congressuais e Presidenciais da American University, em Washington, D.C., disse que os parlamentares do Congresso freqüentemente refletem, até certo ponto, o perfil demográfico em mutação do país. Thurber também disse acreditar que a atual onda de imigração da América Latina acabará fomentando um aumento do número de parlamentares imigrantes.

"Tivemos um grande número de parlamentares imigrantes de primeira e segunda gerações no século 19 e início do século 20", conta Thurber. "Agora, para a maioria das pessoas, trata-se da terceira ou quarta geração. Eles se recordam das histórias, mas não têm aquela sensação emocional de quem conviveu com pais imigrantes".

Specter diz que ainda tem tal sensação. Ele mantém as velhas fotografias penduradas na parede do seu gabinete, atrás da sua mesa de madeira. Nelas pode-se ver o seu pai, magro e solene, vestindo o seu uniforme da Primeira Guerra Mundial, ao lado da sua jovem noiva.

O seu pai fugiu do anti-semitismo na Rússia e chegou a este país quando
tinha 18 anos. Após a guerra, ele se fixou no meio-oeste dos Estados Unidos, onde vendeu melões transportados na carroceria de um veículo e montou um ferro-velho para sustentar a família.

Specter disse que os sucesso e lutas dos seus pais influenciaram
profundamente o seu pensamento ao enviar um projeto de lei de imigração por meio do Comitê do Judiciário.

"Fala-se sobre os Estados Unidos como sendo uma nação de imigrantes", diz ele. "Bem, meus dois melhores amigos eram imigrantes, a minha mãe e o meu pai. Eu vi como eles lutaram. Eles lutaram com o idioma. Lutaram contra o anti-semitismo. Lutaram para ganhar a vida. Foi muito difícil. Sei que a minha história foi diferente. Assim tenha muita simpatia por indivíduos que são imigrantes. Eu entendo muito bem o que os imigrantes fizeram por este país".

Martinez, o republicano da Flórida, compartilha tais idéias, afirmando que o seu próprio sucesso nos Estados Unidos o convenceu de que, dadas as oportunidades, os imigrantes ilegais também serão bem sucedidos. "Os Estados Unidos contam com uma forma de nos integrar, nos recebendo bem e permitindo que nos tornemos parte do todo", afirma.

Specter, 76, e Martinez, 59, cujos pais fugiram da opressão nos seus países de origem, apóiam um plano no sentido de conceder a cidadania aos imigrantes ilegais que passarem mais de seis anos aqui, pagarem as multas e os impostos atrasados, e aprenderem o inglês.

Kyl, o republicano do Arizona, apóia um programa bem mais limitado. Ele
disse que os seus avós, que se estabeleceram no Estado de Nebraska, falavam holandês e tinham um inglês com forte sotaque. "Eles enfatizavam os valores antigos, a frugalidade e a capacidade de subir na vida com base no trabalho duro, perseverança e honestidade".

Ele disse que se os avós ainda estivessem vivos e vissem os atuais
imigrantes ilegais, desaprovariam a situação.

"Imagino que eles ficariam bastante aborrecidos com as pessoas que não fazem as coisas do jeito certo", afirmou Kyl, 63. A sua proposta de legislação, que prevê um programa de trabalho temporário sem uma possibilidade de obtenção de residência permanente ou de cidadania, enfatiza que os imigrantes ilegais não devem ser recompensados por terem violado a lei.

Domenici vê as coisas de uma forma diferente. O seu pai e a sua mãe já
morreram, mas a sua mente às vezes se volta para as memórias de infância, e ele se lembra da mãe arrecadando verbas para a escola católica local, e do cheiro dos charutos do seu pai, assim como daquele dia terrível em 1943.

Domenici disse ter decidido contar a sua história quando a retórica hostil sobre os imigrantes ilegais começou a esquentar. Ele afirmou que deseja lembrar aos seus colegas republicanos que os filhos e filhas dos imigrantes ilegais deste século poderão um dia ser senadores também.

"Eu não tentei impressionar ninguém", contou Domenici, referindo-se à sua história. "Só acho que ela confere um pouco de humanidade à discussão". Danilo Fonseca

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