UOL Notícias Internacional
 

06/04/2006

Encontrado o "elo perdido" entre peixes e vertebrados terrestres

The New York Times
John Noble Wilford
Cientistas descobriram fósseis de um peixe que viveu há 375 milhões de anos, uma grande criatura escamosa jamais vista antes, e que, segundo eles, é o há muito procurado "elo perdido" na evolução de alguns peixes que passaram da água para a terra, onde se locomoviam com quatro membros.

Beth Rooney/Reuters 
Fóssil da nova espécie Tiktaalik roseae é mostrado ao lado de modelo de sua forma real

Em duas reportagens publicadas nesta quinta-feira (06/04) na revista "Nature", uma equipe de cientistas liderada por Neil H. Shubin, da Universidade de Chicago, disse ter descoberto esqueletos bem preservados do peixe fóssil em sedimentos daquilo que no passado eram leitos de rios no Ártico canadense, a 970 quilômetros do Pólo Norte.

Os esqueletos apresentam as barbatanas, as escamas e outros atributos de um peixe grande, de 1,20 metro a 3 metros de comprimento. Mas, ao examinar o material com mais cuidado, os cientistas descobriram traços anatômicos reveladores de uma criatura transicional, um peixe que ainda é peixe, mas que apresenta mudanças que antecipam a emergência dos animais terrestres - sendo, portanto, um predecessor de anfíbios, répteis e dinossauros, mamíferos e, conseqüentemente, seres humanos.

Nas barbatanas anteriores dos peixes, os cientistas encontram evidências de membros em formação. Foram identificados traços de dedos, protopulsos, cotovelos e ombros. O peixe também possuía um crânio chato que lembra o dos crocodilos, um pescoço, costelas e outras partes similares às dos animais terrestres de quatro patas conhecidos como tetrápodes.

Outros cientistas disseram que além de confirmarem os elementos de uma grande transição na evolução, esses fósseis se constituem em uma potente refutação dos argumentos dos criacionistas religiosos, que há muito tempo alegam que a ausência de tais criaturas transicionais se constitui em uma grave debilidade na teoria de Darwin.

A equipe que fez a descoberta afirmou que os fósseis são o exemplo mais convincentes até o momento de um animal que estava à beira de uma transição de peixe para tetrápode.

O peixe foi chamado de Tiktaalik roseae, por sugestão de anciões nativos do Território de Nunavut, no Canadá. Tiktaalik significa, na língua deles, "grande peixe de águas rasas".

"A origem dos membros provavelmente envolveu a elaboração e a proliferação de traços já presentes nas nadadeiras de peixes como o tiktaalik", escreveu a equipe de Shubin no seu trabalho para a "Nature".

Em uma entrevista, Shubin, biólogo evolucionário, não escondeu o seu entusiasmo. "Trata-se realmente de um fóssil intermediário notável e surpreendente. É algo como uma vaca sagrada", afirmou o cientista.

Dois outros paleontólogos, ao comentarem a descoberta em um outro artigo publicado na "Nature", disseram que alguns outros poucos peixes transicionais, que viveram aproximadamente no mesmo período, o Devoniano Superior, de 385 milhões a 359 milhões de anos atrás, foram encontrados anteriormente. "Mas o tiktaalik é, de forma tão clara, um elo intermediário entre os peixes e os vertebrados terrestres, que com o tempo eles poderá se transformar em um ícone evolucionário como o protopássaro archaeopteryx, que preencheu a lacuna entre os répteis (provavelmente dinossauros) e os pássaros atuais", disseram eles.

Os autores, Erik Ahlberg, da Universidade de Uppsala, na Suécia, e Jennifer A. Clack, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, são tidos com freqüência como rivais da equipe de Shubin na busca por espécies intermediárias no processo evolutivo dos peixes para os primeiros animais a colonizarem a terra.

H. Richard Lane, diretor de paleobiologia da Fundação Nacional de Ciência, declarou: "Estas descobertas empolgantes estão fornecendo as 'Pedras de Rosetta' para um entendimento mais profundo deste marco evolucionário que foi a transição de peixes para os tetrápodes terrestres".

A Fundação Nacional de Ciência e a National Geographic Society fizeram parte do grupo de instituições que financiou a pesquisa. Além de Shubin, os principais descobridores foram Edward B. Daeschler, da Academia de Ciências Naturais de Filadélfia, e Farish A. Jenkins Jr., um biólogo evolucionário da Universidade Harvard. Reproduções em gesso dos fósseis serão exibidas no Museu de Ciência em Londres.

Michael J. Novacek, paleontólogo do Museu Americano de História Natural, em Nova York, e que não participou da pesquisa, disse: "Com base naquilo que já sabemos, temos fortes motivos para crer que os tetrápodes evoluíram a partir de linhagens de peixes. Essa pode ser uma fase crítica daquela transição que não havíamos presenciado antes. Um bom fóssil poupa bastante discussão científica".

Enquanto a equipe de Shubin minimizava a importância dos fósseis para o debate que se desenrola sobre a teoria darwiniana, à qual se opõem principalmente os cristãos conservadores nos Estados Unidos, outros cientistas não se mostravam tão reticentes. Eles disseram que o fato deve neutralizar o argumento de que não havia evidência nos registros fósseis de um tipo de criatura se transformando em outra.

Um website criacionista (emporium.turnpike.net/C/cs/evid1.htm) declara que "não existem formas transicionais", acrescentando: "Por exemplo, não foi encontrado um fóssil sequer que tivesse um órgão que fosse parte nadadeira e parte pata. E isso vale para todos os principais tipos de plantas e animais".

Novacek respondeu em uma entrevista: "Nós encontramos o archaeopteryx, uma baleia primitiva que vivia na terra, e agora este animal, que revela a transição de peixe para tetrápode. Do que mais necessitamos em termos de registros fósseis para demonstrar que os criacionistas estão totalmente equivocados?".

Duane T. Gish, funcionário aposentado do Instituto de Pesquisas sobre a Criação, em San Diego, disse: "Este suposto peixe transicional terá que ser avaliado cuidadosamente". Mas ele acrescentou: "Continuo achando a teoria da evolução questionável, porque os paleontólogos ainda precisam descobrir fósseis transicionais entre os invertebrados complexos e os peixes, e ausência de tais criaturas destrói toda a história evolucionária".

Shubin e Daeshler deram início à sua busca na Ilha Ellesmere em 1999. Eles foram atraídos por um mapa de um livro de geologia que mostrava que a região era abundante em rochas expostas do Devoniano, cuja exploração era relativamente fácil. Durante aquela era, a região tinha um clima quente: ela fazia parte de um supercontinente localizado ao longo do equador.

Shubin conta que foi só em julho de 2004 que eles "ganharam o prêmio", encontrando vários dos peixes em uma escavação. Os esqueletos estavam em grande parte intactos e apresentavam um arranjo tridimensional. O grande crânio possuía os dentes afiados de um predador. Ele estava ligado a um pescoço, o que conferia ao animal a habilidade, nada comum nos peixes, de movimentar a cabeça.

Jenkins, da Universidade Harvard, diz que se o animal passasse algum tempo fora d'água, ele necessitaria de um pescoço de verdade que permitisse que a cabeça se movimentasse independentemente do corpo.

Incrustados nas nadadeiras peitorais estavam ossos comparáveis ao braço e ao antebraço, e às partes primitivas da mão dos animais terrestres. As articulações das nadadeiras pareciam ser capazes de funcionar de forma a possibilitar a locomoção do animal em terra, no que consistia em um caso de um peixe fazendo improvisações com a sua anatomia recém-evoluída. Os cientistas dizem que é bem provável que o tiktaalik flexionasse os seus protomembros no leito dos rios, e que se arrastasse até as margens, nas quais permanecia por breves períodos.

No artigo publicado no periódico, os cientistas concluíram que o tiktaalik era uma criatura intermediária entre os peixes eusthenopteron e panderichthys, que viveram 385 milhões de anos atrás, e os tetrápodes primordiais. Os primeiros tetrápodes conhecidos são o acanthostega e o ichthyostega, que viveram há cerca de 365 milhões de anos.

"O tiktaalik é ao mesmo tempo peixe e tetrápode, algo que às vezes chamamos de 'peixápode'", afirma Shubin. Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,32
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,56
    63.760,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host