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06/04/2006

Software na Internet: programando uma revolução pedaço a pedaço

The New York Times
John Markoff
A Internet está entrando em sua era Lego.

De fato, blocos de componentes intercambiáveis de software estão proliferando na Internet e os desenvolvedores os estão unindo para criar uma série potencialmente infinita de novos programas úteis. Este novo software representa um distanciamento dos programas inflexíveis, às vezes desajeitados, do passado, que eram projetados para rodar em computadores individuais.

Como resultado, a inovação no setor de informática está se tornando rapidamente descentralizada. No lugar de grandes programas complexos e autocontidos como o Microsoft Word, escrito e mantido por exércitos de programadores, empresas menores, com apenas um punhado de desenvolvedores, agora estão produzindo programas e serviços pioneiros
baseados em Internet. Estes novos serviços podem ser entregues diretamente aos computadores pessoais ou aos celulares. As empresas maiores estão de olho.

Por exemplo, a Google comprou no mês passado o Writely, um programa processador de texto baseado em Internet criado por três programadores do Vale do Silício. Eric Schmidt, o executivo-chefe da Google, disse que a empresa não comprou o programa para competir com o Microsoft Word. Em vez disso, ele disse, ela considera o Writely um componente chave em centenas de produtos que ela está atualmente desenvolvendo.

Atualmente há componentes de software gratuitos ou baratos acelerando o processo. A Amazon lançou recentemente um serviço de armazenamento online chamado S3, que oferece armazenamento de dados por uma taxa mensal de 15 centavos de dólar por um gigabyte. Isto libera um programador que está desenvolvendo um novo aplicativo ou serviço na Internet de ter que criar um sistema de armazenamento de dados potencialmente caro.

Empresas menores também estão começando a compartilhar sua tecnologia com programadores externos para alavancar seu poder de concorrência. A Salesforce.com, uma empresa que está crescendo rapidamente e que até recentemente apenas oferecia um aplicativo de apoio baseado em Internet para pessoal de vendas, publicou há algum tempo os padrões para interconexão ao seu software. Isto possibilitou a desenvolvedores de dentro e fora da empresa a adição de funções poderosas aos seus produtos centrais e a criação de novos a partir do zero.

Um resultado foi que os representantes de vendas, que usam o programa de gerenciamento de relacionamento com o cliente da Salesforce para organizar seu dia de trabalho, agora podem fazer ligações telefônicas usando o Skype, o serviço popular de Internet, sem precisar sair do programa Salesforce.

A idéia de software modular, onde os componentes padrões podem ser facilmente ligados uns aos outros para formar sistemas mais elaborados, surgiu inicialmente na Europa nos anos 60 e se espalhou para o Vale do Silício nos anos 70.

Mas apesar de sua promessa, o software modular geralmente tem sido limitado pelas estratégias corporativas que mantêm os clientes e outros programadores reféns de sistemas proprietários.

Estas limitações diminuíram quase que da noite para o dia, em grande parte devido ao movimento de programa open-source (código aberto), que promove a disponibilização da informação para todos.

Uma mudança na direção do compartilhamento, que em sua concepção maior tem sido rotulado de Web 2.0, tem provocado um frenesi de desenvolvimento de software e atividade de novas empresas não visto desde o fim da era pontocom há seis anos.

"Estas ferramentas estão mudando a economia básica do desenvolvimento de software", disse Tim Bray, diretor de tecnologias de Internet da Sun Microsystems e um dos projetistas de um conjunto poderoso de convenções de Internet conhecido como Extensible Markup Language (linguagem de marcação estendida), ou XML, que torna simples e eficiente a troca de dados digitais pela Internet.

Ao reduzir o custo do desenvolvimento de software e conseqüentemente as barreiras para entrar tanto nos mercados existentes quanto em novos, o software modular está colocando enorme pressão sobre as corporações que têm dominado a indústria de software.

Ele está também afetando os capitalistas de risco do Vale do Silício. Novas empresas começaram a se esquivar das firmas de capital de risco, preferindo contar com investidores individuais, chamados "anjos", ou financiamento do próprio bolso, em grande parte porque os novos empreendimentos não são tão caros.

Em muitos casos, as novas empresas nem mesmo exigem a tradicional garagem no Vale do Silício. As novas empresas são "virtuais" e os programadores trabalham em casa, usando apenas um computador pessoal e uma conexão de Internet de banda larga.

Os primeiros exemplos da tendência foram empresas minúsculas com idéias significativas, como a Flickr, um site de compartilhamento de fotos baseado em Internet, e a Del.icio.us, que possibilita para as pessoas que navegam na Internet categorizar e compartilhar as coisas que encontram online. Ambas foram adquiridas no ano passado pela Yahoo.

Para alguns, a nova era de desenvolvimento de software peso leve, rápido como um raio, é semelhante a um movimento de guerrilha abalando as atarracadas organizações de desenvolvimento corporativas.

"Elas roubaram nossa revolução e agora estamos roubando de volta e vendendo para a Yahoo", disse Bruce Sterling, um autor e comentarista de Internet.

Ainda mais notável é a sugestão de que uma ampla transformação no
desenvolvimento do software poderia reverter a tendência de terceirização para a Índia, onde há abundância de programadores altamente talentosos mas com remuneração menor.

"A transformação da economia do desenvolvimento do software transforma
completamente as bases para a terceirização", escreveu Michael Schrage, um pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), na edição atual da revista "CIO".

A nova economia do desenvolvimento de software representa um novo desafio para as empresas que dominam o setor. Em 1995, quando a Microsoft percebeu que o browser Internet Netscape tinha criado uma ameaça aos negócios de seu sistema operacional Windows, ela respondeu criando seu próprio browser gratuito, o Internet Explorer. Ao fazê-lo, a Microsoft, que já detinha o monopólio em software desktop, barrou o avanço da Netscape.

Em novembro passado, a Microsoft lançou portais de serviços pela Internet chamados Windows Live e Office Live.

Mas como a maior editora de software do mundo, ela ainda enfrenta o desafio delicado de criar serviços gratuitos de Internet. Muitos dos aplicativos padrões da Microsoft para computadores pessoais, no novo mundo do software por demanda, estão migrando para a Internet.

Na Conferência de Tecnologias Emergentes, realizada em San Diego no mês
passado, Ray Ozzie, um dos três diretores técnicos chefes da Microsoft,
mostrou um esforço protótipo que emprega a área de transferência do Windows, que move os dados entre os diferentes programas de computadores desktop, para realizar as mesmas funções para copiar e transferir informação na Internet.

Ozzie, que utilizou o browser Firefox (um rival open-source do Internet
Explorer) durante sua demonstração, disse: "Eu estou bastante estimulado com o potencial do RSS ser o DNA para ligar a Internet".

Ele se referia ao Really Simple Syndication (distribuição realmente
simples), um padrão gratuito, cada vez mais popular, usado para publicação na Internet. A declaração de Ozzie foi notável para um diretor técnico chefe de uma empresa que passou anos e gastou centenas de milhões de dólares investindo em uma alternativa proprietária conhecida como .Net.

Além disso, o equilíbrio de poder está mudando, disse Ozzie. "Por anos,
vendedores como a Microsoft empregaram recursos imensos em ferramentas para elaborar aplicativos compostos", ele disse. "Com os 'mash-ups' (misturas), o verdadeiro poder se torna as pessoas que podem casar os aplicativos."

A Microsoft não é a única empresa ameaçada pelas ferramentas simples do
movimento Web 2.0. A Adobe Systems, que recentemente adquiriu a Macromedia, editora do amplamente usado padrão de gráficos Flash, está sob pressão do Ajax, ou Asynchronous JavaScript e XML, uma nova técnica de desenvolvimento para criação de aplicativos de Internet interativos que parecem e funcionam como programas desktop.

Em uma conferência de tecnologia, a Adobe mostrou uma ponte entre o Ajax e o Flash, possibilitando para programadores Ajax a fácil adição das capacidades gráficas do Flash.

A America Online adotou uma mudança de estratégia semelhante ao acrescentar um conjunto de "hooks (ganchos) para programadores" ao seu serviço AOL Instant Messaging para estimulares desenvolvedores independentes de software a se conectarem à sua plataforma de mensagens anteriormente proprietária.

Muitos tecnologistas concordam que à medida que o desenvolvimento de
software avança online, o risco será particularmente intenso para grandes organizações de desenvolvimento de software como a Global Services da IBM, a divisão de consultoria da empresa, segundo Bray da Sun.

A IBM está testando um sistema de desenvolvimento mais rápido baseado em Ajax, serviços de Internet e XML, disse Rod Smith, o vice-presidente da empresa para tecnologias emergentes.

"Nós a estamos testando com clientes para ver o quanto ela é disruptiva", ele disse.

Smith reconheceu que as novas tendências de desenvolvimento de software
representam desafios. "Dentro da IBM, software faça-você-mesmo é um oxímoro", ele disse.

Outra nova idéia vem da Amazon, cujo grupo de Web Services (serviços de
Internet) lançou recentemente um serviço chamado Mechanical Turk, uma
homenagem à máquina jogadora de xadrez falsa do século 18 que na verdade era controlada por um jogador de xadrez humano escondido.

A idéia por trás do serviço é encontrar uma forma simples de organizar e comercializar poder intelectual humano.

"Você pode ver como isto permite uma computação humana paralela imensa", disse Felipe Cabrera, o vice-presidente de desenvolvimento de software da Amazon Web Services.

Uma nova empresa, a Casting Words, está empregando o serviço da Amazon,
conhecido como Mturk, para oferecer tradução empregando tradutores humanos por menos da metade do custo dos serviços comerciais online típicos.

O Mturk permite aos vendedores postar o que chama de "tarefas de
inteligência humana", que podem variar de simples tradução a identificação de objetos em fotos.

A Amazon fica com uma comissão de 10% sobre o que um serviço como o Casting Words paga para um tradutor humano. As pessoas que estão dispostas a trabalhar como tradutores apenas fazem o download de arquivos de áudio e então postam arquivos de texto quando completam a tradução. A Casting Words está cobrando atualmente 42 centavos de dólar o minuto pelo serviço.

Outros exemplos também são intrigantes. O A9, o mecanismo de busca da
Amazon, está usando o Mturk em um sistema para determinar a qualidade de fotos usando a conferência de seres humanos. Outras empresas estão usando o serviço de Internet como um simples mecanismo para elaborar sistemas de pesquisa de mercado.

O impacto do software modular certamente acelerará à medida que a Internet se tornar mais acessível a partir de aparelhos móveis.

Scott Rafer, o ex-executivo-chefe da Feedster, um mecanismo de busca de
Weblogs, recentemente se tornou presidente da Wireless Ink, um serviço
baseado em Internet que permite que usuários móveis estabeleçam rapidamente sites móveis a partir de qualquer lugar por meio de celulares com capacidade de Internet.

Usando tecnologias de software modular, eles criaram um serviço chamado
WINKsite, que possibilita o uso de celulares para realizar bate-papos, blog, leitura de notícias e manter um calendário pessoal. Estes sistemas costumam ser usados por jovens profissionais urbanos que estão ligados por redes sociais sem vínculos rígidos. Em Londres, onde mensagens de texto por celular são quase onipresentes, eles são usados para organizar reuniões improvisadas em clubes noturnos.

Recentemente, a Wireless Ink fechou um acordo com a Metroblogging, um
serviço de blog móvel, para uso de sua tecnologia. A Metroblogging, que já conta com blogs em 43 cidades ao redor do mundo, permite aos bloggers postarem rapidamente relatos em primeira pessoa de eventos como os atentados a bomba de julho de 2005 em Londres.

"Aqui estão duas empresas minúsculas na Califórnia que se importam com
Karachi e Islamabad", disse Rafer. "É estranho, eu concordo, mas está se tornando cada vez mais comum." George El Khouri Andolfato

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