UOL Notícias Internacional
 

07/04/2006

Bush aprovou vazamento de informação em tempo de guerra, afirma Libby

The New York Times
David Johnston e David E. Sanger

em Washington
O ex-chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney depôs que foi autorizado pelo presidente Bush, por meio de Cheney, em julho de 2003, a revelar partes chaves do que era na época uma estimativa de inteligência pré-guerra confidencial sobre o Iraque, segundo depoimento incluído nos autos.

O depoimento do ex-funcionário, I. Lewis Libby Jr., citado no documento incluído nos autos na última quarta-feira, fornece o primeiro indício de que Bush, que há muito vem criticando os vazamentos de informação secreta como uma ameaça à segurança nacional, pode ter tido um papel direto na autorização da revelação de um relatório de inteligência sobre o Iraque. A revelação ocorreu em um momento em que a Casa Branca tentava se defender contra as acusações de que tinha exagerado o caso contra Saddam Hussein.

O presidente tem a autoridade para liberar informação e Libby indicou em seu depoimento para o grande júri que acreditou que as instruções de Bush -que os promotores disseram que Libby considerou como "únicas pelo que se recorda"- lhe davam a cobertura legal para falar com uma repórter sobre a inteligência. Entre as conclusões chaves no relatório, chamado de Avaliação Nacional de Inteligência, estava a de que Saddam Hussein provavelmente estava à procura de combustível para armas nucleares.

Libby não afirmou em seu depoimento, primeiro noticiado no site do jornal "The New York Sun", que Bush ou Cheney o tinham autorizado a revelar o nome de uma agente secreta da CIA, Valerie Wilson. Libby deverá ser julgado no próximo ano por acusações de perjúrio e obstrução da Justiça ligadas à revelação do nome de Wilson.

A Casa Branca se recusou a discutir o relato de Libby ou a dizer se diferia das lembranças de Bush e Cheney dos eventos, que os dois homens descreveram em entrevistas para os promotores. "Nós não comentaremos sobre um procedimento legal em andamento", disse Scott McClellan, o secretário de imprensa de Bush.

Os democratas aproveitaram a revelação e exigiram que Bush -que disse que estava determinado a ir ao fundo do caso de vazamento- revelasse seu papel. "Diante da revelação chocante de hoje, o presidente Bush deve revelar plenamente sua participação no vazamento seletivo de informação confidencial", disse o líder democrata, o senador Harry Reid, democrata de Nevada. A deputada Jane Harman, democrata da Califórnia e líder da bancada do partido no Comitê de Inteligência da Câmara, disse: "Se a revelação for verdadeira, é de tirar o fôlego. O presidente é revelado como sendo o vazador-em-chefe".

Libby discutiu algumas das conclusões do relatório de inteligência com Judith Miller, a então repórter do "New York Times", em um encontro em 8 de julho de 2003, dizem documentos nos autos. No dia anterior, a Casa Branca, pela primeira vez, tinha admitido publicamente que a declaração de Bush no discurso do Estado da União daquele ano, alegando que Saddam tinha buscado urânio na África, não deveria ter sido incluída no discurso.

Pouco mais de uma semana depois, sob contínua pressão, a Casa Branca publicou uma versão liberada do resumo executivo da avaliação, em um esforço para argumentar que a declaração de Bush era justificada pela melhor avaliação da comunidade de inteligência na época.

A revelação na noite de quarta-feira fez parte das manobras legais em torno dos documentos que Libby tem exigido do governo para fazer sua defesa. Mas o impacto político da revelação poderá ser mais significativo do que o impacto legal. O relato de Libby sugere que parte de sua defesa será argumentar que qualquer informação vazada ocorreu por instrução de seus dois superiores, Cheney e Bush.

O acréscimo aos autos disse que Libby depôs que "o vice-presidente aconselhou o réu que o presidente tinha autorizado o réu a revelar certas informações da Avaliação Nacional de Inteligência". Os promotores disseram que Libby testemunhou que lembrou de ter "obtido aprovação do presidente por meio do vice-presidente para discutir material que seria confidencial se não fosse tal aprovação" e que tais eventos eram "únicas pelo que se recorda".

O vazamento visava, como sugeriram os autos, ser uma refutação ao artigo de opinião publicado no "The New York Times" em 6 de julho de 2003, de autoria de Joseph C. Wilson IV, um ex-embaixador americano e marido de Valerie Wilson. Joseph Wilson escreveu que tinha viajado à África em 2002, depois que Cheney levantou a possibilidade de compras nucleares por parte do Iraque. Joseph Wilson escreveu que concluiu ser "altamente duvidoso" que o Iraque tivesse buscado combustível nuclear em Níger.

No gabinete de Cheney, o artigo de opinião era visto "como um ataque direto à credibilidade do vice-presidente (e do presidente) em um assunto de alta importância: o argumento para a guerra no Iraque", segundo os documentos apresentados pelo promotor, Patrick J. Fitzgerald.

O acréscimo aos autos visava limitar o número de documentos que o governo precisa entregar para Libby e sua equipe de defesa. Segundo o relato de Libby ao grande júri, a autorização presidencial para revelação de partes seletivas da avaliação de inteligência foi feita antes do encontro de 8 de julho de 2003 entre Libby e Miller. Libby levou um breve resumo das conclusões chaves da Avaliação Nacional de Inteligência ao encontro com Miller.

Libby depôs, disseram os promotores, que estava "especificamente autorizado antes do encontro a revelar as conclusões chaves da Avaliação Nacional de Inteligência confidencial a Miller na ocasião, porque considerava-se que a avaliação era 'definitiva' contra o que o embaixador Wilson tinha dito, além de que o vice-presidente considerava ser 'muito importante' que as conclusões da avaliação viessem a público". O documento adicionado aos autos disse que Libby depôs que deveria dizer a Miller, entre outras coisas, que "uma conclusão chave da Avaliação Nacional de Inteligência era de que o Iraque estava 'vigorosamente tentando obter' urânio". Libby, disseram os promotores, depôs que o encontro com Miller foi "a única vez que ele lembrou em sua experiência de governo ter revelado um documento a um repórter que foi liberado na prática em virtude da autorização do presidente para que fosse revelado".

Miller não escreveu sobre a conversa antes do resumo executivo do documento ter sido divulgado pela Casa Branca 10 dias depois.

Libby testemunhou que não estava certo sobre sua autoridade para revelar a informação antes de ter se encontrado com Miller, de forma que falou com David Addington, o então advogado de Cheney que Libby considerava um especialista em lei de segurança nacional.

"Addington opinou que a autorização presidencial para revelação pública do documento representava uma liberação do documento", disse a impetração de Fitzgerald.

Libby depôs que no encontro ele não discutiu Valerie Wilson, a agente da CIA no centro da investigação de vazamento, porque "ele tinha esquecido àquela altura que soube sobre a posição da sra. Wilson na CIA um mês antes, por meio do vice-presidente".

Miller escreveu um relato de seu encontro com Libby, que foi publicado no "Times" em 16 de outubro de 2005. Ela escreveu que suas anotações mostraram que os dois discutiram a esposa de Joseph Wilson, que segundo suas anotações trabalhava em uma unidade da CIA envolvida na avaliação de inteligência de armas não convencionais.

Miller disse que Libby também discutiu uma cronologia que ele retratou como "evidência crível" dos esforços do Iraque para adquirir urânio. Ela não fez nenhuma referência sobre se Libby se referiu a qualquer material saído da avaliação de inteligência, mas disse que ele comentou os dois relatórios, um de 1999 e outro de 2002, que pareciam apoiar a afirmação de que o Iraque estava interessado em obter urânio.

Miller não deu retorno às mensagens de telefone na quinta-feira. Na
tentativa de limitar as exigências de documentos de Libby, Fitzgerald
revelou outros elementos do caso e suas intenções.

Ele disse ao tribunal que não pretende convocar ao banco das testemunhas três personagens importantes na investigação do vazamento e da disputa em torno da inteligência sobre Níger. Eles são George J. Tenet, o ex-diretor da Agência Central de Inteligência (CIA); Stephen J. Hadley, o então vice-conselheiro de segurança nacional e atual conselheiro de segurança nacional de Bush, e Karl Rove, o estrategista político chefe do presidente. Rove também falou aos repórteres sobre a inteligência sobre Níger e testemunhou repetidas vezes perante o grande júri. Ele não foi acusado e seus advogados disseram que ele será inocentado. George El Khouri Andolfato

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