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07/04/2006

Em um canyon, um México diferente

The New York Times
Beth Greenfield
A vista que se tem de um vagão confortável da Estrada de Ferro Copper Canyon, no México, é deslumbrante: montanhas cobertas de um musgo verde-esmeralda e lagos azul-ardósia dão vagarosamente lugar às paredes vermelhas do canyon que se erguem abaixo e acima dos trilhos do trem, a alturas e profundidades estonteantes. Quem se colocar entre dois vagões, onde é possível se inclinar para fora, a partir de uma plataforma sem janelas, terá uma experiência ainda melhor - o vento doce da montanha batendo contra a face como se fosse água, o ar, ao mesmo tempo morno e frio, fresco e empoeirado.

Adriana Zehbrauskas/The New York Times 
Homem cavalga pela Barranca del Cobre (ou Cooper Canyon), que fica no noroeste do país

Mas, a melhor aventura possível no Copper Canyon está reservada àqueles que descem do trem e fazem uma jornada até as profundezas selvagens do lugar.

O Copper Canyon - a Barranca del Cobre, em espanhol - fica no noroeste do México, na parte da cadeia de montanhas Sierra Madre Occidental que se situa no Estado de Chihuahua. Ele é, na verdade, uma série de canyons. A construção dos 640 quilômetros de ferrovia que seguem o canyon, às vezes coladas às escarpas das montanhas, outras vezes descendo até as ravinas profundas, ou cortando-as, foi concluída em 1961. A ferrovia representa um feito maravilhoso de engenharia, com 39 pontes e 86 túneis. Nos últimos anos, a quantidade de visitantes aumentou muito nesta jornada, semelhante a um passeio por um parque temático, a bordo do trem da Copper Canyon Railroad, formalmente conhecida como Ferrocarril Chihuahua al Pacifico, e comumente chamada de Chepe.

A maior parte dos viajantes, muitos deles turistas estrangeiros, passa um dia inteiro no trem. Eles percorrem o trecho mais panorâmico de El Fuerte a Creel, em um período de 12 horas, e muitos saltam do trem durante uma parada de apenas 15 minutos em Divisadero Barrancas, onde podem comprar cestas artesanais e gorditas recém-tostadas feitas pelos índios tarahumara, que usam roupas coloridas. Ou então caminham até a beira do canyon Urique para tirar fotos dos precipícios que provocam vertigens. Alguns desembarcam para fazer uma parada noturna pelo caminho, geralmente um descanso movido a margaritas em um dos poucos hotéis existentes nesta rota.

Mas a melhor maneira, realmente, de sentir esta região única, é deixar o trem durante vários dias e caminhar até as fascinantes profundezas tropicais que ficam lá embaixo.

O extremo oeste da ferrovia fica próximo à costa de Mar de Cortez, na cidade de Los Mochis, que conta com os serviços da Aeromexico. Mas um lugar melhor para embarcar nos trens é El Fuerte, 80 quilômetros a nordeste, que fica próxima de onde o melhor cenário tem início. É uma cidade colonial sonolenta, com ruas de paralelepípedos, algumas poucas hospedarias, e um rio ruidoso, onde se pode pescar black-bass. A cidade fica ao lado da extremidade sul do canyon.

Para alguém que inicia a jornada da extremidade oriental, as belas vistas começam em Creel, mas Chihuahua, a tumultuada mas relativamente segura capital, onde há um aeroporto internacional, é um local mais conveniente para se embarcar no trem.

Entre El Fuerte e Creel existe meia dúzia de cidades nas quais o trem pára.
Embora nem todas elas estejam preparadas para receber os visitantes, Areponapuchi - uma vila minúscula que tem uma igreja, nenhuma loja, umas poucas pousadas e várias trilhas a serem exploradas - receberá o turista de braços abertos (a parada do trem é chamada de Posada Barrancas). A vista do local mais bem situado para se hospedar na cidade, a Posada Barrancas Mirador, é estonteante, especialmente a partir dos rústicos e aconchegantes quartos dotadas de terraços privados, debruçados sobre o abismo do canyon, e dos quais é possível acompanhar as mudanças de cores nos paredões de pedra, do dourado, ao vermelho e ao preto, sob o sol poente.

Porém, vale a pena sair do quarto e explorar o canyon a pé, seja subindo, seja descendo, ou então montado em cavalo ou burro, na companhia de um dos guias locais. Quando fiquei no Mirador no outono passado, o guia do meu pequeno grupo foi Cecilio Valenzuela, um nativo do lugar, de 67 anos, que acompanha os visitantes nos passeios pelo canyon desde que era adolescente.

"Gosto das pessoas e dos cavalos", disse Valenzuela em espanhol antes de partirmos. O nosso grupo de três pessoas o acompanhava. Montávamos Estrella, uma égua mal-humorada; Lucero, um cavalo lento e de marcha segura; e Chapo, uma mula muito mansa.

Começamos a jornada passando pela cidade poeirenta, em frente a casebres de cimento, e ingressando em um terreno pedregoso e sombreado. As nossas montarias escalavam com segurança as bordas do canyon. Árvores decíduas davam lugar a arbustos espessos à medida que subíamos, passando por pedreiras cobertas de líquens e estradas repletas de musgos. E o ar, que era úmido e frio sob as copas das árvores, ficou árido e quente após meia hora de escalada.

Passamos por árvores frutíferas tropicais e cactos com formato de tubulações de um órgão, e víamos perfeitamente o canyon lá embaixo. Parados sobre uma plataforma de pedra, observamos a vastidão de uma beleza indescritível antes de prosseguirmos em uma jornada de três horas até os pontos de observação mais elevados, ao longo de trilhas tranqüilas e bem definidas, nas quais as paisagens se modificavam constantemente.

Viajando para leste, é possível embarcar novamente no trem em Areponapuchi e seguir viagem até Creel, uma parada popular para os membros do circuito de mochileiros, devido às pousadas e restaurantes baratos, e aos estabelecimentos locais que fornecem quase tudo - bicicletas, caminhonetes, equipamento de camping, cavalos, motoristas - o que é necessário para se visitar o interior. Em um desses lugares, o 3 Amigos, é possível alugar transporte, obter um mapa local para excursões naturais e continuar até o Copper Canyon Sierra Lodge, uma pousada que serve de boa base para uma caminhada até a Cachoeira Cusarare. A pousada, a cerca de 16 quilômetros de Creel, e próxima à vila indígena tarahumara de Cusarare, tem teto com forro de madeira, fogões à lenha e é iluminada com lamparinas de querosene.

A manhã é um bom momento para se iniciar uma caminhada, que é simples e quase plana. Uma trilha bem definida conduz até uma fragrante floresta de pinheiros, ao longo de um rio pedregoso, com margens cobertas de capim, que termina em uma cachoeira de 30 metros de altura. Indivíduos de temperamento mais aventureiro poderão optar por uma jornada até à Cachoeira de Basaseachi, bem mais alta. Para chegar até lá, é necessário que se faça uma viagem de três horas, por uma estrada cheia de buracos, a partir de Creel.
Depois, é preciso caminhar por duas horas e meia, por uma trilha íngreme, até a base da cachoeira.

Uma das aventuras mais empolgantes no Copper Canyon é a descida até as suas profundezas, onde estão duas antigas cidades de mineração -Urique, à qual se pode chegar a partir da estação de trem de Bahuichivo, e Batopilas, acessível a partir de Creel. Alguns aventureiros vão até uma cidade, e depois caminham durante três dias por uma trilha até chegarem a outra, acampando em meio à natureza durante a jornada. No entanto, a viagem de carro até uma única destas vilas já se constitui em uma excursão cheia de emoções (e também um pouco perigosa).

Para o trajeto de quatro a cinco horas de Creel a Batopilas, o viajante pode escolher o tipo de transporte - o ônibus público, que parte uma vez por dia e segue superlotado; uma van para grupos pequenos, que pode ser uma opção barata; ou um motorista privado, que permite que se usufrua dos privilégios de um veículo utilitário esportivo. Ficamos com a última dessas opções - um velho Suburban, com um motorista de 26 anos, Jesus Manuel Perez-Nortega, que seguiu por uma via que logo se transformou em uma estrada de terra sinuosa com apenas uma pista. O Suburban foi serpenteando rumo ao fundo do canyon, espremendo-se contra as encostas de montanhas escarpadas, e parando de quando em vez para não atropelar uma cabra ou uma vaca andarilha, ou ainda quase se encostando a paredões de pedra para dar passagem a uma ou outra caminhonete arruinada. Descemos uma altitude fenomenal de 2.100 metros em apenas 35 minutos.

A partir das frescas florestas de pinheiros no início da viagem, em Creel, passamos por vários climas e zonas de vegetação, dos aglomerados de agaváceas de folhas pontudas aos cheirosos limoeiros e laranjeiras.
Batopilas é apenas uma vila sonolenta incrustada entre as montanhas e um rio, com mansões do século 19, duas pequenas praças e uma rica história de mineração de prata.

"Eu adorei a viagem de trem, mas descer de carro até aqui foi uma experiência simplesmente incrível", disse Rebecca La Fontaine, uma corretora de imóveis do Novo México, que estava visitando Batopilas com um pequeno grupo turístico. "As coisas realmente fantásticas são aquelas que estão fora do trem".

Martin Alcaraz-Gastelum, que administra a Pousada Copper Canyon Riverside,
acrescentou: "Este é o local mais diferente de todo o Copper Canyon". Uma fazenda magnificamente restaurada - com abundantes mobílias antigas, banheiras com pés trabalhados, uma quadra interna e uma torre de observação camuflada -, a pousada reabriu recentemente, após ter ficado fechada por cinco anos, e ter passado por uma mudança de filosofia que acabou com as refeições sofisticadas e abaixou o preço da estadia. "Queremos que as pessoas tenham mais contato com a vila", explicou Alcaraz-Gastelum.

Caminhando pela vila, que transmite uma sedutora sensação de que o tempo parou, os visitantes cruzam com moradores sorridentes que gritam a toda hora, "Buenos!", crianças que perguntam de onde são os forasteiros e cozinheiras em locais aconchegantes, como Carolina e Dona Mica, que servem refeições deliciosas nas varandas ou salas de jantar de suas casas.

É possível fazer caminhadas intrigantes na região que circunda a vila - até a misteriosamente remota Catedral Perdida em Satevo, por exemplo, ou pelas minas de prata abandonadas, ou ainda, em torno das ruínas cobertas de buganvílias da propriedade que já pertenceu a Alexander Shepherd, um ex-prefeito de Washington, que modernizou a mineração nesta área no final do século 19. Mas, absorver esta cultura de ritmo lento - a recompensa do turista por ter desembarcado do trem e descido pela estrada íngreme - pode ser algo mais atraente.

"O trem é bonito, mas nele o visitante não sente muito o sabor da vida mexicana", disse uma outra turista que estava em Batopilas, Mimi Brady, uma professora escolar de Madison, Wisconsin. "Lugares como este são muito especiais". Danilo Fonseca

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