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07/04/2006

Texto contendo Evangelho de Judas é revelado após 1.700 anos

The New York Times
John Noble Wilford e Laurie Goodstein
Um manuscrito do período inicial do cristianismo, incluindo o único texto conhecido daquele que é conhecido como o Evangelho de Judas, apareceu após 1.700 anos. Na quinta-feira (06/04), estudiosos disseram que o texto permite novas inferências sobre o relacionamento entre Jesus e o discípulo que o traiu. Nesta versão Jesus pede a Judas, um amigo próximo, que o delate às autoridades. Jesus garante a Judas que este "excederá" os outros discípulos ao proceder daquela forma.

Embora alguns teólogos tenham levantado tal hipótese anteriormente, os acadêmicos que estudaram o texto recém-encontrado dizem que esta é a primeira vez que um documento antigo defende tal idéia.

A descoberta, no deserto do Egito, na década de 1970, do papiro manuscrito encadernado em couro, e agora a sua tradução, foram anunciadas pela National Geographic Society em uma entrevista coletiva à imprensa em Washington. O texto de 26 páginas seria uma cópia em cóptico, feita por volta de 300 d.c., do Evangelho de Judas original, que foi escrito em grego no século anterior.

Terry Garcia, vice-presidente-executivo da sociedade geográfica, disse que o manuscrito, ou códice, é considerado por acadêmicos e cientistas como o mais significante texto antigo não bíblico a ser encontrado nos últimos 60 anos.

"O códice foi autenticado como um trabalho genuíno de literatura cristã antiga apócrifa", explica Garcia, citando testes extensos para datação com radiocarbono, análises de tinta, criação de imagens multiespectrais e estudos do estilo lingüístico e narrativo. A tinta, por exemplo, foi considerada consistente com aquela usada na época, e não foram encontradas evidências de múltiplas correções.

"Isso é algo inteiramente típico dos manuscritos antigos em cóptico", afirma Stephen Emmel, professor de estudos de cóptico da Universidade de Münster, na Alemanha. "Estou completamente convencido".

As passagens mais reveladoras do manuscrito de Judas começam da seguinte
forma: "A descrição secreta da revelação feita por Jesus em conversa com Judas Iscariote, três dias antes de ele celebrar a Páscoa judaica".

A narrativa prossegue relatando que Jesus se refere aos outros discípulos, dizendo a Judas: "Você excederá a todos eles. Porque você sacrificará o homem que me veste". Nesta passagem, segundo os estudiosos familiarizados com o pensamento gnóstico, Jesus quis dizer que, ao ajudá-lo a se livrar do seu corpo físico, Judas agiria no sentido de libertar o verdadeiro eu espiritual ou ser divino que estava dentro de Jesus.

Ao contrário dos relatos contidos no Novo Testamento, nos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, o autor anônimo do Evangelho de Judas acreditava que só Judas Iscariote, dentre os 12 discípulos, entendeu o significado dos ensinamentos de Jesus e acatou o seu desejo. Na diversidade do pensamento cristão inicial, um grupo chamado de gnósticos acreditava em um conhecimento secreto sobre como as pessoas poderiam escapar das prisões dos corpos materiais e retornar ao reino espiritual do qual vieram.

Elaine Pagels, professora de religião da Universidade Princeton, que se especializou no estudo dos gnósticos, declara: "Estas descobertas estão explodindo o mito de uma religião monolítica, demonstrando como era realmente diverso - e fascinante - o movimento cristão primordial".

O Evangelho de Judas é apenas um entre diversos textos descobertos nos últimos 65 anos, incluindo os evangelhos de Tomás, Maria Madalena e Felipe, que se acredita terem sido escritos pelos gnósticos.

As crenças dos gnósticos eram muitas vezes tidas pelos bispos e líderes iniciais da Igreja como heterodoxas, e freqüentemente denunciadas como heréticas. As descobertas dos textos gnósticos abalaram os estudos bíblicos ao revelarem a diversidade de crenças e práticas que caracterizava os primeiros seguidores de Jesus.

À medida que tais descobertas se disseminaram pelas igrejas e universidades, elas criaram uma nova geração de cristãos que atualmente encaram a Bíblia não como a palavra literal de Deus, mas como um produto de forças históricas e políticas que determinaram quais textos deveriam ser incluídos no cânone, e quais deveriam ser descartados.

Por esse motivo, as descobertas perturbaram profundamente muitos crentes. O Evangelho de Judas descreve Judas Iscariote não como um traidor de Jesus, mas como o seu discípulo preferido e colaborador que obedecia ao mestre com prazer.

Os estudiosos afirmam que há muito tempo analisam o Evangelho de Judas devido a uma referência àquilo que provavelmente seria uma versão anterior do documento, contida em um texto chamado "Contra as Heresias", escrito por Irineu, o bispo de Lion, por volta do ano 180 d.C.

Irenaeus era um caçador de hereges, e não gostava dos gnósticos. Ele
escreveu: "Eles produzem uma história fictícia deste gênero, que intitulam de Evangelho de Judas".

Karen L. King, professora de história do cristianismo antigo da Divinity School, da Universidade Harvard, e uma especialista em gnosticismo que ainda não leu o manuscrito divulgado na quinta-feira, diz que o Evangelho de Judas pode muito bem refletir os tipos de debates que surgiram no segundo e no terceiro séculos entre os cristãos.

"Dá para perceber como em pouco tempo os cristãos foram capazes de cogitar que, se a morte de Jesus era parte do plano de Deus, então a traição cometida por Judas também seria parte desse plano", diz King, autora de vários livros sobre textos gnósticos. "Assim, isso faz o que de Judas? Ele é o traidor, o facilitador da salvação, o indivíduo que tornou a crucificação possível?".

Pelo menos um especialista afirma que o novo manuscrito não contém nada de dramático, capaz de mudar ou enfraquecer o entendimento tradicional da Bíblia. James M. Robinson, um professor aposentado de estudos cópticos da Universidade de Pós-Graduação Claremonte, foi o editor da edição inglesa da biblioteca Nag Hammadi, uma coletânea de documentos gnósticos descobertos no Egito em 1945.

"Por meio de uma compreensão correta, não existe nada no Evangelho de Judas que debilite o conhecimento bíblico tradicional", disse ele em uma entrevista por telefone. Segundo Robinson, os evangelhos de João e Marcos, do Novo Testamento, contêm passagens que sugerem que Jesus não só escolheu Judas para traí-lo, mas chegou até a encorajá-lo para que o delatasse àqueles que ele sabia que o crucificariam.

O livro de Robinson, "The Secrets of Judas: The Story of the Misunderstood Disciple and his Lost Gospel" ("Os Segredos de Judas: A História do Discípulo Incompreendido e o seu Evangelho Perdido"), prevê o conteúdo do Evangelho de Judas com base no seu conhecimento dos textos gnósticos e cópticos, ainda que o especialista não tenha feito parte da equipe de pesquisadores que trabalhou com o documento.

A cópia egípcia do evangelho foi escrita em 13 folhas de papiro, na frente e no verso, e está dividida em uma grande quantidade de fragmentos frágeis.

Rudolphe Kasser, estudioso suíço de estudos cópticos, dirigiu a equipe que reconstruiu e traduziu o texto. O trabalho, organizado pela National Geographics, foi apoiado pela Fundação Maecenas de Arte Antiga, em Basiléia, na Suíça, e pela Instituto Waitt de Descobertas Históricas, uma organização norte-americana sem fins lucrativos para a aplicação da tecnologia em projetos históricos e científicos.

O códice integral de 66 páginas contém um texto intitulado "Tiago" (também conhecido como "Primeiro Apocalipse de Tiago"), uma carta escrita por Pedro e um texto que os estudiosos estão denominando provisoriamente de "Livro de Alógenes".

Descoberto na década de 1970 em uma caverna próxima a El Minya, no Egito, o documento circulou durante anos pelas mãos de vendedores egípcios de antiguidades, indo parar, a seguir, na Europa, e depois nos Estados Unidos. Ele mofou no cofre de um banco em Hicksville, no Estado de Nova York, durante 16 anos, antes de ser comprado, em 2000, por Frieda Nussberger-Tchacos, uma comerciante de Zurique, Suíça. O manuscrito foi batizado de "Códice Tchacos".

Quando as suas tentativas de revender o códice fracassaram, Nussberger-Tchacos o entregou à Fundação Maecenas para conservação e tradução.

Robinson conta que um comerciante de antiguidades egípcio lhe ofereceu o documento para venda em 1983 por US$ 3 milhões, mas que ele não foi capaz de conseguir o dinheiro. Robinson critica os estudiosos atualmente associados ao projeto, alguns deles seus ex-alunos, porque teriam violando um acordo feito anos atrás entre estudiosos do cóptico segundo o qual as novas descobertas deveriam ser disponibilizadas para todos os especialistas qualificados.

O manuscrito acabará retornando ao Egito, onde foi descoberto, e ficará abrigado no Museu Cóptico, no Cairo.

Ted Waitt, fundador e ex-presidente da Gateway, disse que a sua fundação, o Instituto Waitt de Descobertas Históricas, deu à National Geographic Society uma verba de mais de US$ 1 milhão para restaurar e preservar o manuscrito e disponibilizá-lo ao público.

"Eu não sabia muito sobre o assunto até me deparar com esse documento relativo aos primeiros tempos do cristianismo. Para mim, foi algo extremamente fascinante", disse Waitt em uma entrevista por telefone. Ele afirmou que não houve nenhuma outra motivação, a não ser o fascínio e a descoberta. Segundo Waitt, depois que o documento foi datado por meio de radiocarbono e a sua tinta foi testada, procedimentos pagos pela sua fundação, ele não teve mais dúvida alguma quanto à sua autenticidade. "Alguém poderia questionar a tradução e a interpretação do documento, mas não dá para falsificar algo desse tipo. Isso seria impossível". Danilo Fonseca

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