UOL Notícias Internacional
 

08/04/2006

Brasileiro no espaço: 'Carona' ou herói?

The New York Times
Larry Rohter

em Brasília
Desde o final do mês passado, um brasileiro está em órbita da Terra a bordo da Estação Espacial Internacional, realizando uma antiga ambição daqui. Mas devido à forma como o primeiro astronauta brasileiro foi lançado ao espaço, o orgulho nacional tem se misturado a críticas agudas de fraqueza e deficiências no programa espacial de três décadas do país.

O astronauta, Marcos Pontes, um tenente-coronel da Aeronáutica de 43 anos, se tornou um ídolo nacional, roubando as manchetes até mesmo de astros do futebol como Ronaldinho. Ele tem acenado a bandeira brasileira, conversado com alunos de escolas, jornalistas e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e até mesmo está se vendo representado em revista em quadrinhos e brinquedos.

Mas muitos cientistas brasileiros, juntamente com colunistas de jornal e editorialistas, têm criticado a viagem, que terminará no domingo, como um esforço sem finalidade prática. Eles argumentam que os cerca de US$ 10,5 milhões que o Brasil pagou à Rússia para lançar Pontes a bordo de um foguete Soyuz teriam sido melhor gastos em pesquisa aqui na Terra ou investidos na reconstrução do espaçoporto destruído em 2003, em uma explosão na plataforma de lançamento que matou 21 cientistas e técnicos.

"O valor científico desta viagem é quase nulo", se queixou Ennio Candiotti, um físico que é presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, para os repórteres. Ele também descreveu Pontes como um "turista espacial" e um "carona pagante", desprezando as oito experiências realizadas a bordo pelo astronauta como "apenas para exibição".

Mas as autoridades do governo disseram que os ganhos em colocar um brasileiro no espaço são tanto científicos quanto políticos. Elas querem dobrar o orçamento do programa espacial, cronicamente carente de recursos, para US$ 200 milhões por ano, e consideram um aumento do apoio público e o entendimento do esforço como a melhor forma de convencer o Congresso brasileiro a abrir o bolso.

"A idéia é dar visibilidade ao programa", disse Sérgio Gaudenzi, o diretor da Agência Espacial Brasileira, em uma entrevista aqui na quinta-feira. Uma década atrás, ele acrescentou, "China, Brasil e Índia estavam todos no mesmo nível, mas a China disparou à frente e nós fomos ficando para trás", em grande parte devido a uma falta de investimento sustentado.

Com mais dinheiro, disse Gaudenzi, o Brasil poderá construir quatro plataformas de lançamento adicionais em sua base equatorial de Alcântara, considerada um dos melhores pontos de lançamento do mundo pela rotação da Terra ser mais rápida lá, tornando mais fácil e barato colocar um veículo em órbita. O Brasil também planeja construir e lançar três satélites de comunicações geoestacionários e precisa desenvolver seu próprio foguete para isto, ele disse.

As origens da viagem de Pontes remontam 1997, quando o Brasil foi convidado, a pedido da Nasa, a ser um dos 16 países participantes do projeto da Estação Espacial Internacional. Em troca da fabricação de certas partes da estação, a um custo estimado de US$ 120 milhões, o Brasil receberia o direito de enviar um homem ao espaço.

Os Estados Unidos estavam ansiosos em ter a participação do Brasil porque Washington deseja aumentar o intercâmbio científico com um país que tem demonstrado excelência em vários nichos. O Brasil é um líder reconhecido, por exemplo, na fabricação de jatos de porte médio, mapeamento do genoma e várias tecnologias adaptadas para uso nos trópicos.

Mas o Brasil informou ao consórcio em 2001 que não seria capaz de cumprir o primeiro prazo, em parte por falta de fundos. Ele então perdeu o segundo prazo e a missão de Pontes foi suspensa por tempo indeterminado.

Durante uma visita à Rússia no final do ano passado, Lula, em vez de perder o dinheiro já investido no treinamento de Pontes, assinou um acordo que tornou o astronauta brasileiro um cliente pagante a bordo de uma espaçonave russa. A Rússia também concordou em ajudar o Brasil a desenvolver um foguete de combustível líquido, o ponto fraco de um programa que tem tido algum sucesso na construção e lançamento de satélites.

No funeral das 21 vítimas do desastre de Alcântara, em 2003, Lula prometeu que o Brasil ainda lançaria seu primeiro foguete ao espaço antes do fim de seu mandato, no final deste ano. Mas Gaudenzi disse que tal prazo foi abandonado como irrealista, com 2009 sendo a mais provável nova data para uma tentativa de lançamento.

A viagem espacial de Pontes é oficialmente conhecida como "Missão Centenário", uma referência ao brasileiro pioneiro da aviação, Alberto Santos Dumont. Os brasileiros são ensinados que Santos Dumont, e não os Irmãos Wright, foi o primeiro homem a voar, diante de uma multidão que o aplaudia em Paris, em 1906. Pontes até mesmo foi fotografado a bordo da estação espacial vestindo um dos característicos chapéus Panamá brancos de Santos Dumont.

"Poucos foram os momentos em que estivemos orgulhosos de um brasileiro como estamos de você", disse Lula, que precisa vencer a eleição de outubro se quiser um segundo mandato, durante uma conversa de 14 minutos com o astronauta, transmitida pela TV na quarta-feira. "O que estamos gastando é pouco em comparação ao que isto poderá representar para a política espacial brasileira." George El Khouri Andolfato

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