UOL Notícias Internacional
 

09/04/2006

Relatório fornece retrato sombrio da discórdia iraquiana

The New York Times
Eric Schmitt e Edward Wong*
Em Washington
Um relatório interno da embaixada americana e do comando militar em Bagdá fornece um retrato grave, província por província, da situação política, econômica e de segurança do Iraque, classificando a estabilidade geral de seis das 18 províncias como sendo "séria" e uma "crítica". O relatório contradiz algumas das recentes declarações públicas otimistas de alguns importantes políticos e oficiais militares americanos.

Em 10 páginas, o relatório intitulado "Avaliação da Estabilidade Provincial" ressalta a mudança da natureza da guerra no Iraque três anos após a derrubada de Saddam Hussein. Os alertas de atritos sectários e étnicos cresceram em muitas regiões, mesmo em províncias normalmente descritas como não violentas pelos oficiais americanos.

Também há alertas sobre o crescente poder dos partidos religiosos apoiados pelo Irã, vários deles auxiliados pelos Estados Unidos para chegarem ao poder, e de milícias rivais no sul. Os autores também apontam para a divisão de árabes e curdos no norte como fonte de grande preocupação, com as duas etnias disputando o poder em Mosul, onde a violência está desenfreada, e Kirkuk, cujos campos de petróleo são críticos para promover o crescimento econômico no Iraque.

Os padrões de discórdia mapeados pelo relatório confirmam que os conflitos étnicos e religiosos se tornaram entrincheirados em grande parte do país, mesmo em meio à queda das baixas mensais americanas. Tais indicações, somadas aos recentes relatos de imigrações em massa de áreas mistas sunitas e xiitas, mostram que o Iraque está passando de fato por uma divisão segundo as linhas étnicas e sectárias, com confrontos --às vezes políticos, às vezes violentos-- ocorrendo nas áreas mistas onde grupos diferentes se encontram.

O relatório, o primeiro do gênero, foi realizado em um período de seis semanas por um grupo conjunto civil e militar em Bagdá, que queria fornecer uma avaliação das condições que novas equipes de reconstrução encontrariam quando fossem enviadas para as províncias, disse Daniel Speckhard, um embaixador americano em Bagdá que supervisiona os esforços de reconstrução.

Entre os autores estavam funcionários da divisão política da embaixada americana, das agências de reconstrução e oficiais do comando militar americano em Bagdá, disse Speckhard. Os autores também receberam informação de funcionários do Departamento de Estado nas províncias, ele disse.

O relatório fazia parte de um briefing periódico sobre o Iraque fornecido ao Congresso pelo Departamento de Estado e foi mostrado para autoridades no Capitólio, incluindo as envolvidas na elaboração do orçamento para as equipes de construção. Não se sabe quantas autoridades americanas o viram; o relatório não circulou muito no Departamento de Defesa nem no Conselho de Segurança Nacional, disseram seus porta-vozes.

Uma cópia do relatório, que não é confidencial, foi fornecida ao "The New York Times" por um funcionário do governo em Washington, que disse que a avaliação confidencial fornecia um quadro mais realista de estabilidade no Iraque do que as recentes avaliações de altos oficiais militares. Ele é datado de 31 de janeiro de 2006, três semanas antes do atentado a um reverenciado templo xiita em Samarra, que provocou represálias que mataram centenas de iraquianos. As atualizações recentes ao relatório são pequenas e deixam praticamente inalterada suas conclusões, disse Speckhard.

O tom geral dos comentários do governo Bush sobre o Iraque tem sido otimista. Na quinta-feira, o presidente Bush argumentou em um discurso que sua estratégia está funcionando apesar do aumento da violência no Iraque.

O vice-presidente Dick Cheney, no programa "Face the Nation" da "CBS News", sugeriu no mês passado que as avaliações positivas do governo eram um melhor reflexo das condições no Iraque do que as reportagens da imprensa.

"Eu acho que tem menos a ver com as declarações que fazemos, que eu acho que são basicamente precisas e um reflexo da realidade", disse Cheney, "e mais com o fato de haver uma percepção constante, se assim desejar, criada porque o que vira notícia é o carro-bomba em Bagdá".

Em seus pronunciamentos públicos, a Casa Branca e o Pentágono têm usado as estatísticas diárias de ataques como medida da estabilidade nas províncias. O general de divisão Rick Lynch, um alto porta-voz militar em Bagdá, disse recentemente aos repórteres que 12 das 18 províncias sofreram "menos de dois ataques por dia".

O general Peter Pace, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, disse no programa "Meet the Press" da "NBC News", em 5 de março, que a guerra no Iraque estava "transcorrendo muito, muito bem", apesar de poucos dias depois ele ter reconhecido sérias dificuldades.

Em recentes entrevistas e discursos, alguns funcionários do governo começaram a traçar os problemas profundamente enraizados que atrapalham o empreendimento americano no Iraque. À frente está Zalmay Khalilzad, o embaixador americano, que tem dito que a invasão abriu uma "caixa de Pandora" e, na sexta-feira, alertou que uma guerra civil aqui poderia engolfar todo o Oriente Médio.

No sábado, Khalilzad e o general George W. Casey Jr., o alto comandante militar no Iraque, emitiram uma declaração elogiando algumas das metas políticas e de segurança conquistadas nos últimos três anos, mas também alertando que "apesar de muito progresso, ainda resta muito por fazer".

Speckhard, o embaixador que está supervisionando a reconstrução, disse que o relatório não é tão sombrio quanto suas conclusões podem sugerir. Países pacíficos no mundo desenvolvido teriam notas semelhantes, ele disse.

"Na realidade, ele mostra que há uma província que continua sendo um grande desafio", ele disse. "Há várias outras onde há um trabalho significativo que precisa ser feito. E há outras partes do país que estão se saindo muito melhor."

Mas os resumos do relatório para cada província oferecem algumas notícias surpreendentemente sombrias. A fórmula do relatório para classificar a estabilidade leva em consideração questões de governo, segurança e economia. A província de Basra, rica em petróleo, onde as tropas britânicas têm patrulhado em relativa calma em grande parte dos últimos três anos, agora é classificada como "séria".

O relatório define "sério" como tendo "um governo que não está plenamente formado ou não pode atender as necessidades de seus habitantes; desenvolvimento econômico estagnado com alto desemprego; e uma situação de segurança marcada por violência, assassinatos e extremismo rotineiros".

As baixas britânicas têm aumentado em Basra nos últimos meses, com ataques atribuídos aos rebeldes xiitas. Há um "alto nível de atividade miliciana incluindo a infiltração nas forças de segurança locais", disse o relatório. "O contrabando e a atividade criminosa persistem. Ataques para intimidação e assassinatos são comuns."

O governo provincial de Basra "tenta freqüentemente afirmar sua influência além de sua autoridade".

O relatório declara que o desenvolvimento econômico na região, há muito tempo uma das mais pobres no Iraque, é "atrapalhado pelo fraco governo".

Há amplos relatos de que a cidade de Basra tem se transformado em uma miniteocracia, com governo e autoridades de segurança submissos aos líderes religiosos xiitas, aplicando proibições ao álcool e exigindo que as mulheres cubram suas cabeças. Os carros de polícia e as barreiras são freqüentemente decorados com cartazes e adesivos de Muqtada Al Sadr, o clérigo rebelde, ou de Abdul Aziz Al Hakim, um clérigo cujo partido é muito ligado ao Irã. Ambos possuem milícias formidáveis.

O partido de Al Hakim controla os conselhos provinciais de oito das nove províncias do sul, assim como Bagdá.

Em um mapa com código de cores incluído no relatório, a província de Anbar, o amplo trecho de deserto no oeste que é o coração da insurreição árabe sunita, é retratada em vermelho, para "crítica". As seis classificadas como "sérias" -Basra, Bagdá, Diyala e três outras ao norte- estão em laranja. Oito províncias consideradas "moderadas" estão em amarelo e as três províncias curdas são retratadas em verde, para "estáveis". A designação "crítica" para segurança, segundo o relatório, significa que uma província tem "um governo que não está funcionando" ou que é apenas "representado por um único líder forte"; "uma economia que não conta com infra-estrutura ou liderança do governo para desenvolvê-la e é um fator que contribui significativamente para a instabilidade"; e "uma situação de segurança marcada por altos níveis de atividade de forças anti-Iraque, assassinatos e extremismo".

Ao analisar a situação no norte, além das preocupações com a insurreição tradicional, os autores levantaram a preocupação com a tomada de poder dos curdos. Em Mosul, por exemplo, o governador, um árabe sunita, está "ofuscado por um forte vice-governador curdo", e a "violência interétnica" continua alta. A maioria dos soldados do exército iraquiano na cidade é da milícia curda e os partidos curdos transformaram o leste de Mosul em seu enclave, com o Rio Tigre dividindo curdos e árabes. Alguns soldados curdos usam a bandeira do Curdistão Iraquiano em seus uniformes.

As avaliações mais surpreendentes são talvez as das nove províncias ao sul, nenhuma delas classificada como "estável". O governo Bush freqüentemente ressalta a relativa falta de violência nestas regiões.

Al Hakim e Al Sadr possuem enorme influência no sul e ocasionalmente suas milícias têm se enfrentado em batalhas de rua. O partido de Al Hakim, o Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, fundado no Irã no início dos anos 80, controla a maioria dos assentos no conselho provincial em oito das nove províncias do sul, assim como em Bagdá.

Por exemplo, o relatório classifica como "moderada" as duas províncias no coração do poder religioso xiita, Najaf e Karbala, e aponta para a crescente presença política iraniana lá. Em Najaf, o relatório diz que a influência iraniana no governo provincial é preocupante. Tanto o governador quanto o ex-governador de Najaf são membros do partido religioso de Al Hakim. O relatório também nota que "há uma crescente tensão entre a Milícia Mahdi e a Milícia Badr que poderá escalar" --uma referência aos exércitos particulares de Al Sadr e Al Hakim, que já se enfrentaram antes.

O relatório acentua dois pontos positivos em Najaf. O governo provincial é capaz de manter a estabilidade para a província e atende as necessidades das pessoas, ele disse, e o turismo religioso oferece potencial para crescimento econômico.

Mas os rebeldes ainda conseguem penetrar ocasionalmente no perímetro rígido de segurança. Um carro-bomba explodiu na quinta-feira perto do templo do Imã Ali de domo dourado, matando pelo menos 10 pessoas e ferindo dezenas.

Imediatamente ao norte, a província de Babil, uma área estrategicamente importante vizinha de Bagdá, também tem "uma aparente forte influência iraniana dentro do conselho", disse o relatório. Há "conflito étnico no norte de Babil" e "a criminalidade é um importante fator dentro da província". Além disso, o "desemprego continua alto".

Ao longo de toda a guerra, os comandantes americanos têm tentado repetidamente pacificar o norte de Babil, uma área rural com uma insurreição árabe sunita virulenta, mas com pouco sucesso. No sul de Babil, a nova ameaça são os milicianos xiitas que estão se retirando de fortalezas como Najaf e Karbala e começando a desenvolver rivalidades entre si.

O general Qais Hamza Al Maamony, o comandante da força policial de 8 mil membros de Babil, disse que seus homens não estão prontos para intervir na disputa entre as milícias, caso seja necessário como muitos temem. "Eles ficariam assustados demais em interferir", ele disse em uma entrevista.

Se as tropas americanas deixarem Babil, ele disse, "no dia seguinte haverá uma guerra civil".

*Reportagem de Eric Schmitt, em Washington, e Edward Wong, em Bagdá. Jeffrey Gettleman contribuiu com reportagem em Hillah, Iraque, e Abdul Razzaq Al Saiedi, em Bagdá. George El Khouri Andolfato

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