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10/04/2006

Trabalho doméstico ainda é questão polêmica para mulheres americanas

The New York Times
Lisa Belkin
Kendra Lee não chega a se definir como uma obcecada pela ordem, embora o seu marido a considere meio maluca quanto a isso. Digamos que ela é incapaz de sair de férias antes que as prateleiras da cozinha estejam polidas e os carpetes limpos com o aspirador de pó. "A idéia de retornar a uma casa bagunçada arruinaria toda a minha viagem", explica Lee, planejadora de eventos de Hill City, no Estado de Dakota do Sul. Ela culpa a mãe, que plantou cedo na sua cabeça as sementes da mania de ordem e limpeza. A mãe chegava a ponto de usar luvas brancas para procurar poeira no quarto da pequena Kendra.

Diane Dobry, por outro lado, não chegaria a usar a palavra relaxada, mas observa que um dos motivos para o fim do seu casamento foi o fato de ela e o marido possuírem idéias diferentes quanto à questão da limpeza. Ela usa letras maiúsculas quando envia uma mensagem por e-mail para dizer "EU ODEIO trabalhos domésticos, e faço tudo para evitá-los". Dobry, que atualmente está em um programa de doutoramento na Faculdade Teachers da Universidade Columbia, também culpa a mãe, uma mulher tão meticulosa que certa vez levantou-se da cama, quando convalescia de uma cirurgia, para limpar o banheiro de hóspedes. "Se a minha mão tivesse níveis de exigência mais baixos, e deixasse que eu própria fizesse as tarefas domésticas, eu poderia ter aprendido como fazê-las", explica a filha. "Mas eu nunca aprendi a fazer nada, porque ela sempre fez tudo para mim".

Passados 40 anos desde que o feminismo prometeu libertar as mulheres das tarefas penosas, ainda estamos falando sobre trabalhos domésticos, e ainda falamos como se esse tipo de trabalho só dissesse respeito às mulheres. Algumas, como Dobry, estão se rebelando contra isso. Outras, como Lee, assumem com prazer o papel de donas de casa. Autoras como Caitlin Flanagan estão escrevendo livros sobre o assunto. Neste mês será lançado o livro, de sua autoria, "To Hell with All That: Loving and Loathing our Inner Housewife" (algo como, "Ao Inferno com Tudo Isso: Adorando e Detestando a Nossa Dona de Casa Interior").

Acadêmicos como aqueles da Universidade de Maryland e da Universidade de Virginia estão estudando o fenômeno (os primeiros descobriram que as mulheres reduziram as horas de serviço diário ao encurtarem as horas de sono e a quantidade de trabalho doméstico, enquanto os pesquisadores de Virginia concluíram que as mulheres trabalhadoras são mais felizes em casamentos nos quais os maridos ganham mais, ainda que elas façam mais serviços domésticos).

Resumindo, a questão da limpeza continua não solucionada apesar de quatro décadas de crescente igualdade, do aumento do número de equipamentos para a redução da quantidade de trabalho, da emergência da geração de mulheres mais educadas da história e do fato de que, mais do que nunca, os homens estão assumindo o seu lado feminino. O fato de isso ainda se constituir em um tópico polêmico para as mulheres indica que o problema não diz respeito apenas a quem vai esfregar o vaso sanitário.

O que está em jogo é a ambivalência, que é sintetizada no título do livro de Flanagan. "Sou tão atraída pelos serviços domésticos como por qualquer outra coisa", disse ela em uma entrevista, admitindo ser viciada em programas como "Martha", como se estivesse confessando que gosta de pornografia. "Mas suspeito tanto desse tipo de trabalho quanto sou atraída por ele. É como se fosse uma armadilha. Uma armadilha para todos os meus talentos mundanos".

Duas coisas são claras. Primeiro, as mulheres ainda fazem mais serviços domésticos que os homens. As mulheres casadas dedicam aos trabalhos domésticos um tempo duas vezes maior que os homens solteiros. Segundo, grande parte do tempo que poderia ser usado fazendo limpeza é gasto com reclamações contra esse tipo de trabalho.

Neil Chethik entrevistou 300 maridos de várias faixas etárias para redigir o seu livro "VoiceMale: What Husbands Really Think About Their Marriages, Their Wives, Sex, Household and Commitment (algo como, "A Voz Masculina: O que os Maridos Realmente Pensam Sobre os seus Casamentos, as suas Mulheres, o Sexo, Arranjos Domésticos e Compromisso"), lançado neste ano nos Estados Unidos pela editora Simon and Schuster. "O trabalho doméstico apareceu no alto da lista, logo após o dinheiro, como assunto gerador de discórdia", disse ele. "A ele se deu mais importância na lista do que ao sexo, à criação dos filhos e todas as outras questões".

Chethik certa vez trocou de papéis com a mulher, o que fez com que ambos descobrissem que preferiam os seus tradicionais atribuídos aos sexos, embora a experiência lhe tenha permitido identificar uma queda pela tarefa de lavar roupa. Flanagan disse que se sentiria diminuída caso o marido assumisse o seu papel e, digamos, fizesse o jantar do Dia de Ação de Graças. Os dois escritores concordam que as mulheres trazem uma carga mais emocional para essa discussão. As mulheres não enxergam apenas uma sala de estar bagunçada. O que elas vêem é um fracasso em alcançar os padrões maternos, uma rebelião contra esses padrões ou um julgamento por parte dos vizinhos, cujos padrões poderiam ser mais elevados.

"As mulheres são muito sintonizadas com a platéia invisível", opinou Flanagan em uma entrevista. "Um homem é capaz de se sentar, assistindo à televisão, com jornais e comida espalhados por toda parte, sem dar a mínima para isso. Eles podem limpar tudo mais tarde. Já nós, mulheres, temos a sensação de que alguém está nos observando. Precisamos catar aqueles jornais, caso contrário o que as pessoas pensariam a nosso respeito?".

Chethik acredita que os homens simplesmente não estão programados para perceber qualquer platéia, visível ou invisível. "Entre os homens que entrevistei, a questão não dizia tanto respeito ao fato de eles não gostarem de fazer o serviço doméstico, mas, sim, ao de não perceberem que a casa estava suja", disse ele. "Eles não vêem ou cheiram a situação. Os homens simplesmente não a registram da mesma forma".

Para se fazer justiça, é necessário reconhecer que os homens mudaram com o passar das décadas. Eles certamente fazem mais trabalhos domésticos do que os seus pais.

"Gosto de uma casa limpa assim como qualquer outra pessoa", diz David Bowers, autor do livro "Dad's Own Housekeeping Book" (algo como, "O Livro Pessoal de Serviços Domésticos do Papai"), a ser lançado pela editora Workman Publishing no Dia dos Pais. Embora ele nada soubesse sobre artes domésticas antes do nascimento da sua filha, três anos atrás, o autor aprendeu rapidamente depois que se tornou um pai que passava o dia inteiro em casa e, atualmente, se gaba de ser capaz de deixar a casa no grau de limpeza "aprovado pela sogra".

Grande parte da ambivalência das mulheres se deve ao fato de elas estarem mudando, e não à idéia de que quem muda são os homens. As mulheres não são aquilo que as suas mães foram, e tampouco estão prontas para abandonar aquilo que as suas mães representaram. Flanagan, por exemplo, escreve: "Não sou uma dona de casa, sou uma 'mãe em casa', e a diferença entre os dois conceitos é enorme".

"Uma dona de casa se define primariamente por meio do seu relacionamento com a casa e o marido, enquanto a 'mãe em casa' sente pouca obrigação para com a casa em si. O seu objetivo é, na verdade, encontrar uma forma de combinar o trabalho feminino tradicional de criar os filhos com os tipos de arranjos e libertação domésticos dos quais a mãe que trabalha fora desfruta", escreveu Flanagan.

Porém, com todo respeito a Flanagan, as mães que trabalham fora não estão exatamente se regozijando com a sua liberação. Pelo menos um estudo revelou que as mulheres que trabalham fora dormem 3,6 horas semanais a menos do que aquelas que não têm emprego. Qualquer que seja a carga de tempo e culpa sentida por uma mãe que está em casa, tal carga é ainda maior no caso da mulher que trabalha fora. Isso não se modificou desde 1989, quando Arlie Hochshield escreveu "The Second Shift" ("O Segundo Turno"), sobre como as mulheres deixam o escritório apenas para, ao chegarem em casa, se depararem com um outro trabalho, do qual elas não podem ou não conseguem se livrar.

Isso de forma alguma quer dizer que as coisas não mudaram desde que o livro foi publicado. Em todo o país, os casais estão inventando algumas formas criativas de dividir o trabalho doméstico que, à primeira vista, em nada lembra o que ocorreu nas décadas de 1950 ou 1980.

Neil Gussman, um engenheiro químico de Lancaster, na Pensilvânia, e a sua mulher, Annalisa Crannell, professora de matemática da Faculdade Franklin & Marshall, dividiram o trabalho doméstico usando como critério aquilo que pode ser feito durante o dia e durante a noite. Isso levou a uma reversão dos papéis tradicionais dos sexos. Gussman ficou responsável pelos banheiros, pela cozinha (especialmente o piso) e por parte do trabalho com o aspirador de pó.

Assim como Chethik, Gussman descobriu que gosta de lavar a roupa. O tempo que leva esperando que se completem os ciclos da máquina de lavar lhe dá uma desculpa para assistir às corridas de Nascar e a programas policiais, diz ele. Já Crannell faz todas as tarefas externas: retirar as folhas caídas, cortar a grama, arrancar as ervas daninhas e construir cercas.

Kirk Thompson e o seu marido, Matt, dividem as tarefas com um toque aparentemente moderno. Quando eles se casaram há quatro anos e se estabeleceram em Dallas, o casal aprendeu rapidamente em que ponto se situava na estatística de Chethik. "O trabalho doméstico era a questão que mais gerava brigas", conta Thompson. "Matt é um maníaco por limpeza. Na minha casa era o contrário. A mulher não se importava com um pouco de bagunça, e o homem é que tinha que colocar ordem na casa imediatamente".

Assim, eles dividiram as tarefas. As responsabilidades dela dizem respeito à cozinha, ao quarto de dormir, à lavagem de roupas e às compras. Ele fica com a sala, o banheiro, o aspirador de pó e todo o trabalho do quintal. "Matt é capaz de comer e colocar os seus pratos sujos na pia, deixando-os lá, ou ainda de deixar as panelas e as frigideiras sujas após cozinhar", diz Kirk. "Eu limpo tudo isso e não posso reclamar. Chego em casa do trabalho e a pia está cheia de pratos sujos e comida mal-cheirosa. Simplesmente mordo a língua e limpo tudinho. Por outro lado, posso deixar os meus sapatos no meio do assoalho, tirar as roupas e abandoná-las em qualquer lugar e deixar que o pêlo do cachorro se acumule pelos cantos. Matt limpa tudo isso, sem reclamar, mas segundo a sua agenda de trabalho".

"Estamos esperando um bebê para este verão, e todo este equilíbrio de tarefas poderá desmoronar", diz Thompson. "Talvez ele odeie lidar com as fraudas sujas, e eu deteste comprá-las na loja".

Um assunto comum em muitas histórias sobre a divisão do trabalho doméstico é aquele que diz respeito aos homens fazerem aquilo que querem (Thompson querendo ter a casa limpa e, simultaneamente, deixando os pratos sujos na pia; Gussman desejando fazer as tarefas noturnas porque durante o dia ele é um ciclista competitivo), enquanto as mulheres ficam com o que sobra, uma questão que ainda faz com que esta conversa continue girando integralmente em torno das mulheres.

O que as feministas dizem é que os homens querem desempenhar, com maior freqüência, uma versão doméstica de um papel reservado aos machos. "Gosto de lavar roupa, não só porque vejo os programas de televisão enquanto espero pela lavagem e dobro as peças, mas, basicamente, porque é um trabalho com uma máquina pesada: tenho que carregar grande quantidade de coisas, levá-las de um lugar para outro, ajustar botões e temporizadores e, a seguir, ligar o botão", explica Chethik.

É por isso que Michael Peck adora passar o aspirador de pó. Durante os primeiros meses do seu casamento, a sua mulher, Lori, fazia quase toda a limpeza no seu apartamento em Williamsburg, Brooklyn ("Ele cozinhava quando estávamos namorando", diz Lori. "Ele me atraiu assim"). Naquela época, porém, eles não tinham um cachorro, e o aspirador de pó era um velho Hoover herdado da avó de Lori Peck.

Há um ano e meio eles adotaram um Jack Russel terrier, porque lhes disseram que a raça não solta pêlos, e em breve o apartamento estava coberto por pelos de cachorro. Michael Peck, desenhista gráfico, gastou US$ 400 (cerca de R$ 840) na compra de um aspirador Dyson amarelo brilhante, e atualmente uma satisfação que ele tem durante o dia é usar o aparelho para deixar o apartamento de 65 metros quadrados limpo. "Não tenho permissão para encostar no aspirador", diz Lori Peck, que também trabalha na área de publicidade. "Se eu uso o aparelho, ele chega em casa e fica com um ar desapontado".

E será que Michael Peck faz a limpeza com o aspirador de forma apropriada? "Não importa como ele a faça, para mim está bom", afirma Lori.

Essa postura --e a dificuldade que muitas mulheres parecem ter com relação a ela-- é um fator central para qualquer conversa a respeito de trabalhos domésticos. Sim, é verdade que a sociedade ainda assume que isso é trabalho de mulher. E, sim, é também verdade que muitos homens fazem tudo o que podem para evitar fazer a sua parte. Mas é também verdade que muitas mulheres são culpadas daquilo que os sociólogos chamam de "guardar os portões": construir uma cerca em torno de um território, quer isso diga respeito a usar o aspirador de pó, a cuidar dos filhos ou a fazer as compras, e defendem esse território como sendo delas. Elas estabelecem os padrões nesse universo, e os estabelecem segundo patamares altos. E ás vezes irrealistas.

"Sob o ponto de vista de um homem, eles se sentem como se fossem freqüentemente acusados de não se importarem, mas, depois, quando tentam fazer alguma coisa, as mulheres descartam a ajuda, dizendo que está tudo bem. Assim, eles são incapazes de ganhar. As suas mulheres lhes dizem: 'Limpe isto aqui. Quero isto limpo'. Mas depois elas brigam porque eles não limparam da maneira correta. Não existe certo ou errado. Os homens não deveriam ter que alcançar padrões especificados pelas mulheres para os serviços domésticos", diz Chethik.

Em outras palavras, os homens gostariam que as mulheres mudassem um pouco mais e aceitassem que, embora as suas mães tenham lavado e guardado os pratos após o jantar todas as noites, não há nada de errado em deixar os pratos secarem no escorredor próximo à pia durante a noite.

Ao mesmo tempo, diz Chethik, os homens deveriam se lembrar de que um pouco de esforço extra é algo que atende aos seus maiores interesses. "Quando as mulheres estão felizes com a divisão das tarefas domésticas, quase tudo mais transcorre sem problemas", diz ele. "Há mais sexo, sexo de melhor qualidade, menos brigas, menos chances de que se procure terapia, menos chance de divórcio".

"Assim, toda essa conversa sobre trabalhos domésticos não diz respeito apenas às mulheres, mas também aos homens", conclui Chethik. Danilo Fonseca

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