UOL Notícias Internacional
 

11/04/2006

Nos EUA, milhares de pessoas fazem novos protestos em favor dos imigrantes

The New York Times
Robert D. McFadden
Manifestantes empunhando faixas com dizeres sobre a reforma da lei de imigração marcharam em cidades de todo os Estados Unidos no último domingo para exigir a cidadania e o compartilhamento do sonho norte-americano para milhões de imigrantes ilegais que enfrentaram várias dificuldades, como fronteiras fechadas, famílias fragmentadas, contrabandistas desonestos e exploração econômica.

Cantando, gritando e agitando cartazes e bandeiras norte-americanas, um oceano de manifestantes - a polícia calculou o número de pessoas que participaram dos protestos em 500 mil - marchou no centro de Dallas em um dos maiores protestos. Cerca de 20 mil pessoas protestaram em San Diego, 7.000 em Miami, 4.000 em Birmingham, no Alabama, e outras 4.000 em Boise, em Idaho.

Outros milhares de manifestantes também se reuniram em Salem, no Oregon, e em outras cidades, em manifestações pacíficas mas enérgicas de apoio à causa dos imigrantes.

"É bom sentir que finalmente estamos lutando pelos nossos interesses", disse na manifestação Robert Martinez, que cruzou ilegalmente o Rio Grande há 22 anos e que acabou se tornando cidadão dos Estados Unidos. "Durante anos, nunca dissemos nada. Apenas trabalhamos arduamente, seguimos as regras e pagamos impostos. E agora eles tentam fazer essas leis. É hora do povo saber como nos sentimos".

Embora as manifestações de domingo tenham sido uma impressionante extensão dos crescentes protestos ocorridos por todo o país nas últimas semanas, os organizadores disseram que elas foram apenas um ensaio para as manifestações nacionais da segunda-feira, data denominada Dia Nacional de Ação pela Justiça para o Imigrante. A expectativa era a de que, na segunda-feira, eventos em mais de 120 cidades atraíssem mais de dois milhões de pessoas.

Em um agradável dia de primavera, com raios de sol dourados e céu azul, as multidões se reuniram com entusiasmo, espraiando-se pelas ruas centrais e pelos parques, em cidades grandes e pequenas. Os manifestantes eram em sua maioria hispânicos, mas havia também entre eles asiáticos, europeus e africanos.

A maioria deles usava camisetas brancas, simbolizando a paz. Muitos levavam bandeiras dos Estados Unidos, do México e de outros países das Américas Central e do Sul, e ainda da Ásia. Na manifestação em Dallas, ouvia-se nos autofalantes "God Bless America" ("Deus Salve a América") e "This Land Is Your Land" ("Esta Terra é a Sua Terra"), além de músicas do México, enquanto os manifestantes gritavam "Si, se puede" ("Sim, nós podemos") e "USA, all the way" ("Estados Unidos, até o fim").

"Jamais antecipamos que a manifestação ficaria tão grande", disse o tenente Rick Watson, porta-voz da polícia de Dallas. "As estimativas variavam de 20 mil a 200 mil pessoas, mas os indivíduos continuaram chegando sem parar". Vários estabelecimentos comerciais de Dallas ficaram fechados durante o dia, algumas igrejas funcionaram mais cedo para acomodarem os manifestantes, e a Orquestra Sinfônica de Dallas cancelou uma apresentação marcada para a tarde.

Os manifestantes de Dallas eram novos e velhos. Alguns eram pais de família empurrando carrinhos de bebê. Tinha quem andasse com o auxílio de bengalas, e outros usavam cadeiras de rodas. Havia membros de sindicatos, igrejas, organizações de direitos civis e grupos empresariais, mas a maioria dos manifestantes não se conhecia. Alguns falaram emocionados sobre o seu desejo de se tornarem norte-americanos, de votarem e de terem um emprego sem temerem a polícia e perseguições.

"Estamos aqui para apoiar os valores norte-americanos", disse Juan Gomez, 40, que chegou em Dallas, vindo do Peru, há dez anos, e é vice-presidente da organização Vozes Unidas dos Imigrantes e professor de inglês para imigrantes adultos. "Os Estados Unidos foram construídos com imigrantes".

"Nós vivemos de acordo com os valores deste país", concluiu Gomes.

Os ânimos ficaram exaltados em Birmingham. "Isto aqui é solo sagrado", disse o reverendo Derrill Wilson, da Conferência de Lideranças Cristãs Sulistas, às pessoas aglomeradas na grama fresca do Parque Kelly Ingram, onde a polícia lançou poderosos jatos d'água contra crianças negras durante os protestos pelos direitos civis em 1963. "Aqui você defende a si próprio. Defende a todos. E, mais importante que tudo, defende os seus filhos".

Na multidão, muitos falavam sobre os caminhos para se obter a cidadania, os direitos e as proteções no local de trabalho. Mas Mario Limas Hernandez, mecânico, falou de um outro direito - o de estar com a família. Ele disse que, embora seja cidadão norte-americano, a sua mulher não é, e que ela e os seus filhos pequenos foram deportados para o México.

"Um dos direitos implícitos na cidadania é o de viver com a sua família", disse ele.

As multidões em vários dos protestos também aplaudiram oradores que denunciaram um sistema que empurrou mais de 11 milhões de imigrantes ilegais para vidas clandestinas marcadas por subterfúgios, e que pediram um novo acordo que amplie os direitos básicos dessas pessoas e lhes dê uma chance de obter a cidadania. Os organizadores disseram que os protestos não vão parar até que o Congresso aprove novas leis que melhorem as vidas dos imigrantes.

Grande parte da raiva demonstrada no domingo e nos protestos ocorridos nas últimas semanas foi dirigida a uma lei aprovada pela Câmara dos Deputados em dezembro. Ela autorizaria a construção de uma cerca de 1.127 quilômetros ao longo da fronteira com o México, faria da imigração ilegal um crime sério, e transformaria em criminosos aqueles que prestassem assistência, incluindo o fornecimento de comida e água, aos imigrantes ilegais.

Um dos menores protestos do domingo foi uma pequena aglomeração de 700 pessoas em Massapequa Park, no Estado de Nova York, em frente à casa do deputado Peter T. King, um republicano que foi co-autor da lei. King não estava no local, mas um pequeno grupo dos seus apoiadores estava. "Estamos pagando os nossos impostos", dizia um cartaz.

Uma campanha no Congresso pela adoção de uma medida menos draconiana - e as mais abrangentes mudanças na lei de imigração em duas décadas - culminou na semana passada em um compromisso bipartidário que democratas e republicanos viram como um progresso. A legislação do Senado abriria as portas para a cidadania para a maior parte dos imigrantes ilegais, caso estes pagassem os seus impostos e aprendessem o inglês. Ela também criaria um programa de trabalhadores convidados para 325 mil pessoas por ano a fim de atender às necessidades dos empresários, e aumentaria a segurança na fronteira para satisfazer aos conservadores.

Mas o acordo ficou comprometido na última sexta-feira devido a brigas quanto a emendas e outras questões, o que gerou dúvidas sobre o futuro da medida, enquanto os parlamentares entravam em um recesso de duas semanas. O senador Arlen Specter, republicano da Pensilvânia e presidente do Comitê do Judiciário, prometeu em uma entrevista concedida à rede de televisão Fox, no domingo, deixar a medida pronta para ser debatida quando o Congresso retomar os seus trabalhos.

Tanto as lideranças democratas quanto as republicanas procuraram cortejar os votos hispânicos. Embora os eleitores hispânicos tenham sido responsáveis por apenas 6% dos votos na eleição de 2004, os índices de natalidade e outros fatores sugerem que eles se constituirão em uma proporção bem maior do eleitorado nas eleições futuras. Os 42 milhões de hispânicos do país correspondem a um em cada oito indivíduos neste país, e respondem por cerca da metade do crescimento populacional recente. Assim como em Massapequa Park, contra-manifestações também ocorrerem em outros locais no domingo, mas não houve confrontos entre os grupos oponentes.

Em San Diego, que fica próximo a Tijuana, no México, e é o mais movimentado ponto de passagem entre os dois países, cerca de 20 mil manifestantes se reuniram em Balboa Park, onde ficam o zoológico e os museus da cidade, e marcharam em direção ao centro da cidade. Muitos deles levavam cartazes que diziam "We are americans" ("Nós somos norte-americanos") e "We march today, we vote tomorrow" ("Hoje, nós marchamos, amanhã, votamos").

As bandeiras norte-americanas predominavam em meio à multidão. Os organizadores dos protestos aqui e em outros locais expressaram recentemente preocupações quanto ao fato de haver tantas bandeiras mexicanas nas passeatas, e por isso fizeram o possível para inserir nas manifestações o maior número de bandeiras estadunidenses.

Em Miami, onde os manifestantes se reuniram tendo como fundo os arranha-céus da cidade, Maria Rodriguez, 39, disse: "Essas são as pessoas que estão trazendo as bandeiras. Parece que elas ouviram a mensagem: o povo norte-americano quer bandeiras. Bem, vamos dar bandeiras a esse povo! É algo realmente espontâneo. Isso não diz respeito à bandeira e sim à possibilidade de as pessoas contarem com uma oportunidade".

Vestido com uma fantasia de Tio Sam na multidão de Miami, Oribe Pineiro, 32, que chegou do Uruguai há seis anos, disse que nunca conseguiu se legalizar aqui, e que ainda está aguardando uma oportunidade de se inscrever para uma permissão de trabalho. Ele disse ainda que está sozinho neste país, preso em uma armadilha, enquanto a sua família está no Uruguai.

"A minha mãe tem 74 anos", disse ele. "Não sei quando poderei vê-la novamente porque não posso sair do país. Estou preso em uma gaiola dourada".

Orlando Fernandez, 51, que chegou em Miami 26 anos atrás na fuga embarcada em massa do porto de Mariel, em Cuba, e que trabalha para uma organização sem fins lucrativos que ajuda os pobres, disse que há esperanças quanto a uma lei de imigração.

"Este é um ano eleitoral, e os políticos desejam obter popularidade com este problema", disse ele. "Aqui, todos somos imigrantes, com a exceção dos índios americanos". Danilo Fonseca

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