UOL Notícias Internacional
 

11/04/2006

Nos sótãos e escombros, mais corpos e perguntas

The New York Times
Shaila Dewan

em Nova Orleans
Quando August Blanchard voltou da Pensilvânia para Nova Orleans no final de dezembro, sua mãe ainda estava desaparecida. Parentes, espalhados por todo o país, telefonavam para hospitais, a Cruz Vermelha e para as linhas de pessoas desaparecidas na esperança de que tivesse sido resgatada.

Mas Blanchard, 26 anos, tinha um mau pressentimento. Por duas vezes pela passou de carro pela casa verde desbotada na rua Reynes, no Baixo Nono Distrito, onde ele e sua mãe, Charlene Blanchard, 45 anos, viviam, mas não conseguiu entrar.

Foi apenas em 25 de fevereiro que um dos tios de Blanchard forçou a porta da frente com seus pé e viu a mão de Charlene. Vestida em sua camisola e roupão, ela jazia sob um sofá em pedaços. Com ela estavam uma colcha de veludo vermelha que sua filha lhe deu e um grande urso de pelúcia.

Os corpos das vítimas da tempestade ainda estão sendo descobertos em Nova Orleans -em março foram nove, mais um crânio. Em esqueleto ou meio comidos por animais, com pele coriácea ou enrijecida ou faltando membros, os corpos se encontram em meio a pilhas de escombros, pendendo em caibros ou de bruços, com os braços estendidos no chão. Muitos deles, como Charlene, foram ignorados nas buscas iniciais.

Um senhorio em Lakeview colocou uma placa de "à venda" em frente a uma casa, sem saber que o corpo de seu inquilino ainda estava no sótão. Duas semanas atrás, equipes de busca no Baixo Nono Distrito encontraram uma menina, supostamente de cerca de 6 anos, carregando uma mochila azul. Perto dela, eles encontraram parte de um homem que as autoridades acreditam que podia estar tentando salvá-la.

Na sexta-feira, construtores encontraram um corpo no sótão de uma casa no bairro de Gentilly, que foi revistada duas vezes antes, disseram as autoridades.

Nas semanas após a passagem do furacão Katrina havia imagens grotescas de corpos abandonados à plena vista. As autoridades da Louisiana recuperaram mais de 1.200 corpos, mas o processo, atrapalhado pela falta de dinheiro e burocracia, nunca terminou.

No Baixo Nono Distrito, onde casas instáveis tornavam as buscas perigosas, um plano de usar cães farejadores juntamente com as equipes de demolição foi adiado por processos e protestos da comunidade contra a demolição. No restante da cidade, a ausência de vizinhos e redes sociais significava que alguns moradores sofreram e morreram sem serem notados. Muitas das famílias dos desaparecidos estava longe de casa, impotentes pela distância e preocupadas com sua própria sobrevivência.

Agora, enquanto a cidade está começando a reconstrução de forma mais séria, estas famílias ainda aguardam, agonizando, por entes queridos perdidos, não enterrados mas não esquecidos.

"Nós nunca procuramos alguém para contar nossa história porque não há um fim em nossa história", disse Wanda Jackson, 40 anos, cuja família ainda está em busca de notícias de seu sobrinho de 6 anos, levado pelas águas enquanto sua mãe se agarrava ao irmão dele de 3 anos. "Porque não encontramos nossos mortos. Para ser honesta com você, na minha opinião eles se esqueceram de nós."

Ela continuou: "Eles não construíram nada em 11 de setembro até estarem certos de que a maldita poeira não era poeira humana; então como vão em frente e constroem coisas em nossa cidade?"

Em outubro e novembro, a equipe de operações especiais do Corpo de Bombeiros de Nova Orleans revistou o Baixo Nono Distrito em busca de corpos até ficar sem dinheiro.

Meia dúzia de autoridades da Agência Federal de Gerenciamento de Emergências (Fema) rejeitaram os pedidos para pagar a conta, disse o chefe Steve Glynn, o comandante da equipe. Quando perguntados pelos repórteres, as autoridades da Fema disseram que a papelada necessária não tinha sido preenchida.

Durante tal período, se alguém telefonasse para pedir que um local específico fosse checado em busca de um corpo, disse Glynn, não havia ninguém para enviar. Os Blanchards não foram a única família a encontrar um ente querido por conta própria.

Outros não tinham família que os encontrasse. O nome de Joseph Naylor, 54 anos, foi postado nos murais do furacão Katrina por um amigo, J.T. Beebe, que disse em uma entrevista que Naylor não tinha parentes, exceto talvez um primo com o qual não falava. Naylor foi encontrado em seu sótão em 5 de março.

Anita Dazet, que mora em uma rua que foi pouco inundada, disse que já tinha voltado para casa há cinco meses quando pensou em checar sua vizinha, Lydia Matthews, a qual Dazet descreveu como doente mental, a encontrando morta. Dazet disse que tinha presumido que a mesma igreja que deixava regularmente refeições na varanda para Matthews tivesse ajudado em sua evacuação.

Charlene Blanchard também foi descrita pelos parentes com sofredora de problemas mentais, mas capaz de cuidar de si mesma. Quando parentes pediram para que ela partisse antes do furacão, ela se recusou. "Ela ficaria violenta se você tentasse obrigá-la a partir", disse Shirley Blanchard, uma irmã.

Em fevereiro, a Fema concordou em pagar pela retomada da busca por corpos e, em 2 de março, a equipe de operações especiais da agência foi capaz de iniciar uma busca sistemática das 1.700 estruturas no Baixo Nono Distrito, o cenário da pior destruição na cidade. É um trabalho difícil e tedioso. Cada uma das equipes de bombeiros trabalha com um ou dois cães treinados em encontrar restos mortais humanos. Se os cães sentem um corpo, os trabalhadores erguem móveis pesados, cavam em meio à lama fétida ou removem telhas do telhado para encontrá-lo.

Freqüentemente a busca é inútil -em parte por causa do furacão Rita, que inundou a área novamente duas semanas depois do furacão Katrina. Muitos que pereceram na primeira tempestade foram levados pelas águas, deixando para trás apenas o cheiro de morte.

Segundo um rabisco laranja fluorescente na casa de Charlene Blanchard, uma busca foi realizada em setembro pela polícia de Nova Orleans. Muitos corpos escaparam das buscas iniciais em parte porque as estruturas das casas não eram seguras ou, com seus conteúdos em pedaços, por ser impossível caminhar dentro delas. Uma checagem mais completa exigiria a remoção do teto desmoronado ou de pequenas montanhas de escombros.

Mas desta vez ninguém quer perder nada. Em um dia recente, os bombeiros avistaram um vidro de picles do tamanho de um galão em um sótão exposto, sugerindo que alguém tentou enfrentar a tempestade lá. Como não era possível entrar na casa em segurança, uma escavadora foi convocada para desmontá-la. Mas os bombeiros não encontraram nada.

E encontrar um corpo é apenas o primeiro passo. Dos 14 corpos encontrados desde meados de fevereiro, nenhum foi identificado de forma definitiva e liberado para enterro, em parte porque a Fema fechou um necrotério de US$ 17 milhões construído para lidar com os mortos do furacão Katrina. O necrotério foi usado por oito semanas e as autoridades da agência disseram que não havia mais volume suficiente para justificar que continuasse aberto.

A Fema não quis autorizar o legista de Nova Orleans, cujo escritório e necrotério foram destruídos pela tempestade, continuasse usando o local de autópsia.

Por ora, os corpos recém-encontrados estão sendo mantidos em um caminhão refrigerado em Baton Rouge, Louisiana. O legista, o dr. Frank Minyard, disse que uma sala temporária ficará pronta em uma semana.

Para Geneva Celestine, a mãe de Charlene, que estava na varanda da frente da casa quando o corpo da filha foi encontrado, não poder enterrar sua filha é apenas o mais recente de uma série extenuante de horrores.

"É terrível", ela disse por telefone da Pensilvânia. "Ir até lá e encontrar sua própria filha, algo que eles deveriam ter feito. Algo que foram pagos para fazer. E você vê a marca na casa. É realmente triste."

No início, algumas famílias ficaram tão revoltadas com a demora na liberação dos corpos que algumas fizeram piquetes no necrotério. Mas apesar de não haver mais um necrotério onde realizar piquetes, a disputa de jurisdição que tem contribuído para o atraso ainda não acabou. O legista do Estado, o dr.
Louis Cataldie, disse dispor de um necrotério móvel e que é capaz de colher amostras de DNA imediatamente se Minyard autorizar.

"Nós temos uma boa idéia de quem são algumas daquelas pessoas", disse Cataldie. "Se pudermos obter o DNA, poderemos confirmar rapidamente."

Fornecer tal tipo de conclusão para as famílias é o que motiva as equipes de busca, que passam dias em uma paisagem desolada de mato na altura do peito e casas abertas como engradados despedaçados. Uma busca em uma única estrutura pode demorar meio dia.

Mickey Bourgeois, um membro de uma equipe de busca, lembrou de um incidente em que a equipe foi informada onde procurar por uma mãe e um bebê. Eles encontraram apenas a mulher, ele disse.

"Quando algo assim acontece", ele disse, "você não pode dizer aos rapazes para partirem até que tudo tenha sido removido da casa". George El Khouri Andolfato

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