UOL Notícias Internacional
 

12/04/2006

Após derrota por pequena margem, Berlusconi diz que não a reconhecerá

The New York Times
Ian Fisher

em Roma
Na terça-feira, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi contestou a vitória por pequena margem de seu oponente nas divisoras eleições nacionais italianas, sugerindo uma recontagem ou um governo de coalizão ao estilo alemão.

Efe/Mauirizo Brambatti 
Enrolado na bandeira italiana, Romano Prodi comemora vitória ao lado de sua mulher

Apesar dos resultados finais anunciados na terça-feira terem mostrado seu oponente de centro-esquerda, Romano Prodi, com um vantagem estreita em ambas as casas do Parlamento, Berlusconi argumentou que a diferença é tão pequena que há amplo espaço para erro.

"Nós não podemos reconhecer o resultado de uma votação até que haja um julgamento claro, definitivo", ele disse, se recusando a reconhecer a derrota após dois dias de votação e uma noite de apuração cheia de suspense, com ambos os lados alternando a liderança que no final ficou com Prodi.

"Até tal dia, ninguém poderá dizer que venceu", ele disse.

Os comentários de Berlusconi lançaram a Itália em um estado de incerteza política, desencantada com Berlusconi e com seu fracasso em melhorar a economia, mas aparentemente preocupada que Prodi, um rosto do antigo establishment, não fará muito melhor.

A classe política lamentou resultados que mostraram uma "Itália dividida" -entre a esquerda e a direita, sul e norte, políticos tradicionais contra independentes, não dando nenhum mandato claro para nenhum líder.

Com cerca de 38 milhões de votos dados, a coalizão de Prodi ficou à frente na câmara baixa de 630 membros por apenas 25 mil votos. Na câmara alta, o Senado, a vantagem dela foi de apenas 2 das 315 cadeiras. Em cada câmara, cerca de 40 mil votos foram contestados, juntamente com meio milhão de votos em branco e outro meio milhão de votos nulos ou contestados durante a apuração. Qualquer contestação dos resultados terá que ser resolvida por comitês eleitorais parlamentares, com os resultados finais confirmados pelos tribunais.

Mas Prodi, 66 anos, um economista discreto e ex-primeiro-ministro, rejeitou as amplas sugestões de que ficou com uma maioria tão pequena que será difícil, se não impossível, para ele governar. Ele previu um mandato que durará todos os cinco anos.

"Com este resultado nós poderemos governar o país com confiança", ele disse aos repórteres em Roma, no início da tarde. "É claro, nós precisaremos de cooperação. Mas na noite passada eu disse que governaríamos para todos os italianos, não para apenas alguns deles."

No tipo de surpresa pela qual é conhecido, Berlusconi despontou de um dia de silêncio não comum na terça-feira para sugerir que ele e Prodi poderiam discutir uma ampla coalizão, como a acertada pela chanceler alemã, Angela Merkel, e sua oposição após resultados igualmente estreitos nas eleições daquele país neste ano.

"Eu acredito que talvez devêssemos seguir o exemplo de outros países europeus, como a Alemanha, para ver se conseguimos unir as forças de governo em um acordo", ele disse em sua coletiva de imprensa.

"Eu acho que este seria um ato de humildade de cada lado, mas também um sinal de realismo", ele disse. "Eu não acho que seria bom para o país seguir em frente em um tipo de guerra civil."

Na incerteza que tem pairado desde que as urnas foram fechadas na tarde de segunda-feira, poucos especialistas em política acreditavam na idéia de que Berlusconi, 69 anos, que criou bilhões de dólares e seu próprio partido político do nada, estaria disposto a compartilhar o poder.

Prodi descartou imediatamente a possibilidade.

"Em relação à grande coalizão, nós nos apresentamos aos eleitores com uma coalizão precisa e a lei eleitoral nos designou um número de legisladores na Câmara e no Senado que nos permite governar", ele disse aos repórteres na noite de terça-feira.

Mais do que a disputa e os sentimentos amargos da eleição parecem tornar uma grande coalizão improvável: os dois homens compartilham uma longa inimizade, que remonta no mínimo 1996, quando Prodi derrotou Berlusconi em outra disputa para primeiro-ministro.

Além do lado pessoal, a política dos dois não poderia ser mais diferente: Prodi tem uma visão eurocêntrica, a favor de um Estado forte e nutre um ceticismo em relação a Washington e a guerra no Iraque. Berlusconi chegou ao governo como empresário, a favor de uma redução da carga tributária e de um Estado menos intrusivo. Ele forjou um forte relacionamento com o presidente americano, George W. Bush, enviando 3 mil soldados italianos ao Iraque.

A perspectiva de uma recontagem levantou a possibilidade de um período prolongado de incerteza, com muitos comentaristas de jornal temendo que a Itália possa ver uma repetição da contestada eleição americana de 2000, que terminou com a vitória de Bush e uma profunda divisão política.

"A Itália está dividida em duas, mas de uma forma estranha, nós aprendemos algo sobre a América" nesta eleição, disse Beppe Severigni, um proeminente colunista de jornal que escreveu um livro sobre o caráter nacional da Itália, "La Bella Figura: A Field Guide to the Italian Mind", (la bellafigura: um guia de campo para a mente italiana, Random House, 2006), que será lançado em agosto em inglês.

No início do dia, o presidente Carlo Azeglio Ciampi, talvez o político mais respeitado do país, sinalizou o desejo de um fim rápido e limpo para as eleições, dizendo em uma declaração que considerou os resultados apontando a vitória de Prodi como sendo "corretos e em ordem".

Apesar de Berlusconi não ter dito nada até sua coletiva de imprensa no início da noite de terça-feira, aqueles que o apóiam sugeriram ao longo do dia que ele provavelmente pediria uma recontagem.

"Romano Prodi não ganhou absolutamente nada", disse Sandro Biondi, um alto líder do Forza Italia, o partido de Berlusconi.

Rocco Buttligione, o ministro da Cultura do país, cujo partido é aliado de Berlusconi mas nem sempre concorda com ele, disse acreditar que qualquer recontagem ficaria confinada aos cerca de 40 mil votos contestados em cada casa, em vez de uma onerosa envolvendo muito mais votos.

"A margem é pequena demais", ele disse em uma entrevista na terça-feira.

Buttiglione disse que espera que a crise seja resolvida rapidamente. O novo Parlamento, seja qual for o resultado, deverá se reunir em 28 de abril, quando começará a trabalhar na substituição de Ciampi, que está se aposentando, e em um orçamento preliminar.

"A esta altura o mais importante é dizer claramente: nós temos uma classe política responsável", disse Buttiglione. "Nós cuidaremos para que este país não caia em um vácuo de poder político."

Os resultados finais, divulgados no final da terça-feira, mostravam uma
vitória de Prodi na câmara baixa do Parlamento com 49,8% dos votos, em
comparação a 49,7% de Berlusconi. Como a nova lei eleitoral dá
automaticamente a maioria ao vitorioso -para permitir uma margem que
facilite a governabilidade- a distribuição das cadeiras ficou sendo de 348 para Prodi e seus aliados e 281 para Berlusconi e seus aliados.

Na câmara alta, Prodi e seus aliados ficaram com 158 cadeiras contra 156 de Berlusconi.

Em meio à amargura e confusão, muitos italianos lamentaram o fato de nenhum lado ter obtido uma vitória convincente. A eleição foi rotulada como um referendo a Berlusconi, que muitos eleitores acreditam que fracassou em cumprir suas promessas de melhorar a má economia da Itália.

As pesquisas pré-eleitorais mostravam Berlusconi até 5% atrás da coalizão de Prodi -e alguns analistas disseram que o fracasso de Prodi em se sair melhor poderá arruiná-lo politicamente.

Mesmo muitos comentaristas de esquerda o atacaram por ter realizado uma
fraca campanha e por falar em ressuscitar um imposto sobre heranças, mesmo que apenas para os ricos, em um momento em que Berlusconi pintava a esquerda como o partido do aumento de impostos.

De forma mais prática, seu fracasso em conquistar mais cadeiras, disseram muitos especialistas, levantou a possibilidade real de que seu governo não durará muito.

"A era Berlusconi acabou", disse Marcello Veneziani, um comentarista
político conservador. "Mas eu tenho a impressão de que a era Prodi também acabou."

Severigni também disse que por mais que os italianos se queixassem de
Berlusconi -suas freqüentes gafes políticas, seus problemas legais e sua amizade estreita demais com Bush- claramente havia algo nele que ainda tinha apelo junto a um grande número de italianos. O partido dele, no final, conquistou cerca de 24% dos votos, mais do que qualquer outro partido individualmente.

"Os italianos são basicamente um povo conservador", disse Severigni. "E
Berlusconi era um gênio."

"Por um lado, ele prometeu ser um novo homem, empolgante", ele disse. "Mas havia uma piscadela. Ele disse: 'Não se preocupem, nada irá mudar. Vocês não pagarão impostos'. Assim ele tranqüilizou a alma conservadora da Itália." George El Khouri Andolfato

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