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12/04/2006

Irã diz que o seu programa nuclear atingiu nova fase e que continuará em andamento

The New York Times
Nazila Fathi, David E. Sanger e William J. Broad

em Teerã
O Irã anunciou na terça-feira (11/04) que os seus engenheiros nucleares
avançaram para uma nova fase no enriquecimento do urânio, e o presidente Mahmoud Ahmadinejad e uma série de clérigos que governam o país declararam que a nação, a partir de agora, prosseguirá rapidamente rumo à produção de combustível nuclear em escala industrial, desafiando uma resolução da Organização das Nações Unidas (ONU).

AFP 
O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, logo após falar sobre programa nuclear

"O Irã se juntou aos países nucleares do mundo", disse Ahmadinejad durante uma comemoração cuidadosamente encenada e transmitida em cadeia nacional de televisão, em Mashhad. A comemoração incluiu apresentações de vídeo de cada passo do processo nuclear que, segundo ele, o Irã dominou. "O ciclo do combustível nuclear em nível de laboratório foi concluído, e o urânio com o grau de pureza desejado para usinas nucleares foi obtido", garantiu Ahmadinejad.

A Casa Branca, que acusou o Irã de estar procurando desenvolver secretamente combustível para armas nucleares, no início reagiu moderadamente ao anúncio, afirmando: "O Irã está se movendo na direção errada". Porém, mais tarde, o governo norte-americano usou um tom mais ameaçador, e o Conselho de Segurança Nacional anunciou que os Estados Unidos vão trabalhar junto ao Conselho de Segurança da ONU no sentido de "lidar com a ameaça significante representada pelas tentativas do regime iraniano de adquirir armas nucleares".

Analistas externos disseram que embora o Irã pareça ter superado um marco - marco este do qual havia se aproximado anteriormente, com o enriquecimento de urânio em pequena escala -, o anúncio pode ter sido mais um teatro político do que uma conquista de engenharia; uma manobra elaborada para convencer o Ocidente de que é impossível deter o programa nuclear iraniano.

A declaração ocorreu em um momento de intensa especulação em Washington de que planos preliminares estão sendo elaborados para uma ação militar contra as instalações nucleares do Irã caso a diplomacia fracasse, uma idéia que o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, repeliu na terça-feira, chamando-a de "terra da fantasia". O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohammed ElBaradei, deve chegar a Teerã nesta quarta-feira para fazer um outro apelo ao Irã para que o país cancele o seu programa de enriquecimento de urânio e evite um confronto com o Ocidente. Autoridades iranianas disseram que AlBaradei se deparará com uma situação diferente, e membros do governo norte-americano suspeitam que a estratégia do Irã seja apresentar os seus esforços como um fato consumado e irreversível.

O episódio significa uma outra derrota para as nações européias que
exerceram pressões durante três anos no sentido de persuadir o Irã a
cancelar o seu programa de produção de combustível nuclear. E é também uma derrota para o presidente Bush. Na última segunda-feira Bush repetiu a sua "meta declarada": "Não queremos que os iranianos tenham uma arma nuclear, a capacidade de fazer uma arma nuclear, ou o conhecimento sobre como fazer uma arma nuclear".

Por essa razão, ele se opôs a permitir que o Irã enriquecesse urânio, ainda que o país seja signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear e, portanto, tenha o direito de produzir combustível para alimentar os seus reatores.

Se a declaração iraniana estiver correta, o enriquecimento de urânio e os documentos rudimentares sobre a fabricação de bombas encontrados pelos inspetores internacionais no país sugerem que o Irã possui agora a maior parte do conhecimento que Bush procurou impedir que Teerã obtivesse.

Os iranianos parecem estar, no mínimo, preparados para cedo ou tarde
expandir o processo de enriquecimento para uma escala industrial e, caso estiverem determinados a fazê-lo, para enriquecer urânio até o grau de pureza necessário para a fabricação de um armamento atômico. Mas, até o momento, as quantidades produzidas pelo país parecem ser minúsculas, e o índice de enriquecimento anunciado na terça-feira, de 3,5%, é suficiente para a produção de energia, mas não de ogivas nucleares.

Inspetores internacionais estão instalados no principal complexo nuclear em Natanz, e presume-se que serão capazes de confirmar ou desmentir as alegações iranianas nos próximos dias, caso tenham acesso às centrífugas.

As centrífugas são dispositivos cujos rotores giram muito rapidamente para enriquecer um gás tóxico, a fim de que se obtenha o urânio 235, um
componente raro do urânio. O urânio 235 pode então ser utilizado para a
alimentação de reatores nucleares ou a fabricação de bombas atômicas. As 165 centrífugas que o Irã afirma ter instalado juntas em "cascata" são suficientes para testar a tecnologia. Mas com um número tão reduzido de centrífugas seriam necessários anos para a produção de apenas uma arma nuclear. Mesmo assim, trata-se de um marco importante.

Apesar das alegações feitas na terça-feira quanto à conquista na área do enriquecimento, nos últimos sete anos o Irã utilizou repetidamente
centrífugas e equipamentos a laser para enriquecer o urânio, segundo
relatórios da AIEA. Mas as quantidades obtidas foram aparentemente reduzidas e as instalações eram de caráter experimental.

Ahmadinejad reiterou que o programa nuclear do Irã está sendo desenvolvido apenas para fins industriais e de produção de energia, e disse que o país "não obtém a sua força a partir de arsenais nucleares".

Mas ele fez tudo para tirar vantagem política do fato. "Eu declaro neste momento histórico, com as bênçãos de Deus todo-poderoso e com os esforços dos nossos cientistas, que conquistamos o ciclo do combustível nuclear em escala laboratorial, e que os nossos jovens cientistas produziram no domingo o urânio necessário para usinas nucleares", afirmou Ahmadinejad, enquanto os seus comentários eram acompanhados pelos cânticos de "Deus é Grande". O discurso foi ponteado por recitações de versos do Alcorão, e Ahmadinejad falou em frente a um mural com uma pintura mostrando pombas brancas esvoaçantes.

"O acesso ao ciclo do combustível nuclear é uma demanda nacional e o nosso povo enfatizou repetidamente que deseja ter acesso a essa tecnologia", disse ele.

Antes da fala de Ahmadinejad, um pequeno grupo de homens vestidos em trajes tradicionais executou uma dança, enquanto uma caixa de prata, que conteria a primeira parcela de urânio enriquecido, era carregada até o palco. O locutor disse que a caixa seria preservada em um museu.

A televisão estatal mostrou repetidamente imagens de cientistas vestidos com uniformes brancos trabalhando naquilo que parecia ser uma instalação nuclear.

Ahmadinejad foi cuidadoso ao enfatizar que o Irã está operando segundo as atuais regras relativas à proliferação, e disse que as atividades nucleares do seu país estão "sob a supervisão completa e sem precedentes" da agência de energia atômica. No entanto, ele não mencionou que restringiu o acesso dos inspetores a alguns locais nos últimos meses, e não disse que esses inspetores ainda não receberam uma explicação sobre documentos encontrados no Irã, ou a respeito do que o país comprou em meados da década de 1990 de Abdul Qadeer Khan, o engenheiro nuclear paquistanês que ajudou a dar início ao programa iraniano.

Ahmadinejad disse que o Irã continuaria a permitir que os inspetores
observassem os progressos feitos. "Atualmente estamos interessados em
submeter à supervisão da AIEA aquilo que obtivemos. E aquilo que obteremos no futuro está dentro da estrutura de direitos do nosso país", disse ele.

David Albright, presidente do Instituto de Ciência e Segurança
Internacional, um grupo de pesquisa privada com sede em Washington, disse que o anúncio era esperado, mas que as quantidades são provavelmente menores que as alegadas. "Eles precisam aprender bem mais para produzir urânio enriquecido em quantidade suficiente, e necessitam também de construir um número muito maior de centrífugas", afirmou Albright.

ElBaradei terá que relatar ao Conselho de Segurança em 28 de abril se o Irã atendeu à demanda feita no final do mês passado no sentido de que fechasse as suas instalações em um prazo de 30 dias. Um diplomata europeu graduado disse: "ElBaradei dirá no Irã que eles conseguiram obter o enriquecimento e que, portanto, é hora de cancelar o processo, e acabar com o problema".

No centro do conflito entre Teerã, de um lado, e os Estados Unidos e os seus aliados europeus, do outro, está a questão que diz respeito a
determinar se o Irã tem ou não o direito de continuar com as suas pesquisas nucleares. O Irã rejeitou uma oferta russa para o enriquecimento de urânio na Rússia para uma usina nuclear iraniana, porque o acordo não permitiria qualquer atividade nuclear em território iraniano. Danilo Fonseca

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