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13/04/2006

Acordo da National Geographic sobre o Evangelho de Judas gera dúvidas

The New York Times
Barry Meier a John Noble Wilford
Quando a National Geographic Society anunciou na semana passada com muito barulho que obtivera acesso ao documento de 1.700 anos de idade conhecido como o Evangelho de Judas, ela descreveu como um manuscrito em deterioração, descoberto no Egito três décadas atrás, circulou entre os becos sombrios do mercado de antiguidades até um cofre em Long Island, chegando, finalmente, às mãos de uma comerciante suíça de obras artísticas, que o "resgatou" da obscuridade.

Mas há mais coisas nesta história.

A comerciante de obras de arte foi detida há vários anos no decorrer de uma investigação do contrabando de antiguidades italianas. E depois que ela não conseguiu obter lucro com a venda do evangelho no mercado privado, fechou um acordo com uma fundação administrada pelo seu advogado, segundo o qual ela poderia ganhar pelo documento tanto quanto vinha pedindo, ou até mais.

Mais tarde, a National Geographic pagou à fundação para restaurar o manuscrito e comprou os direitos sobre o texto e a história da descoberta. Como parte do seu acordo com a fundação, a negociante, Frieda Tchacos Nussberger, deverá ganhar entre US$ 1 milhão e US$ 2 milhões com esses projetos da National Geographics, afirmou o seu advogado.

Os detalhes a respeito de como o manuscrito foi encontrado são nebulosos. Segundo a National Geographics, ele foi achado em uma caverna egípcia na década de 1970, e vendido a um comerciante, tendo depois passado por diversas mãos na Europa e nos Estados Unidos. As informações sobre as questões legais referentes ao trânsito desse evangelho também são vagas.

Ninguém questiona a autenticidade do Evangelho de Judas, que mostra Judas Iscariote não como um traidor de Jesus, mas como o seu discípulo favorito.

Mas os detalhes emergentes estão gerando preocupações entre alguns arqueólogos e outros estudiosos em um momento em que há um crescente escrutínio dos negociantes que vendem antiguidades, e dos museus e colecionadores que as adquirem. A informação também gera dúvidas sobre a descrição de certos indivíduos feita pela National Geographic, como Tchacos Nussberger, e também sobre a revelação dos relacionamentos financeiros envolvidos.

Terry Garcia, o vice-presidente de programas de missões da National Geographic, organização cuja sede fica em Washington, disse que a instituição "ouviu alguns rumores" sobre possíveis problemas de natureza legal envolvendo Tchacos Nussberger, mas afirmou não ser capaz de confirmá-los. Ele também observou que a organização revelou o seu relacionamento com a instituição suíça Fundação Maecenas de Arte Antiga.

Garcia enfatizou que acredita que questões como o relacionamento financeiro de Tchacos Nussberger com a fundação, ou aquelas relativas às antiguidades que a comerciante vendeu anteriormente não são relevantes para a história do Evangelho de Judas. Ele acrescentou que a National Geographic assumiu o projeto por enxergar nele uma oportunidade para ajudar a salvar um documento único.

"Não é todos os dias que se encontra um evangelho perdido", afirmou Garcia.

Mas os estudiosos que fizeram campanha contra o comércio de artefatos de procedência duvidosa disseram ter ficado perturbados com todo o episódio.

"Estamos lidando com um objeto saqueado", acusa Jane C. Waldbaum, presidente do Instituto Arqueológico da América, uma sociedade profissional. "O artefato foi sofrivelmente manuseado durante anos porque as pessoas que detinham a sua posse estavam mais preocupadas em ganhar dinheiro do que em protegê-lo".

Da sua parte, Tchacos Nussberger rejeitou qualquer sugestão de que estivesse tentando auferir lucros com o Evangelho de Judas. Ela descreveu o seu problema com a polícia italiana como irrelevante.

"Fui até o inferno e voltei, e salvei algo para a humanidade", disse Tchacos Nussberger em uma entrevista sobre o manuscrito de Judas. "Eu o teria doado gratuitamente a alguém que pudesse salvá-lo".

Na semana passada, a National Geographic lançou uma grande campanha de marketing do Evangelho de Judas, girando em torno de dois novos livros, um documentário de televisão, uma mostra e a edição de maio da revista da instituição.

A organização não comprou o documento. Em vez disso, pagou um milhão de dólares à Fundação Maecenas pelo conteúdo do manuscrito.

A fundação foi criada alguns anos atrás pelo advogado de Tchacos Nussberger, Mario Roberty, bem antes do órgão se envolver com o Evangelho de Judas. Roberty é o único funcionário da fundação, que segundo ele se envolveu em projetos como a devolução de antiguidades aos seus países de origem. Roberty disse que quando Tchacos Nussberger entregou o documento à fundação, em 2001, ele rapidamente entrou em contato com autoridades no Egito e garantiu que o manuscrito seria devolvido ao país. Segundo Roberty, a fundação possui um claro direito legal sobre o documento.

Segundo as narrativas da National Geographic, o manuscrito fez uma longa jornada pelo mercado de antiguidades. Essas histórias descrevem as tentativas de Tchacos Nussberger de vender o Evangelho de Judas logo após adquiri-lo, e o seu papel subseqüente na restauração do documento. Ela é apresentada como uma pessoa movida pela convicção religiosa para salvar o documento.

"Creio que fui escolhida por Judas para reabilitá-lo", teria dito Tchacos Nussberger, 65, em um dos livros da sociedade, "The Lost Gospel" ("O Evangelho Perdido"), de Herbert Krosney.

Não há no livro nenhuma menção a um incidente ocorrido em 2001, quando Tchacos Nussberger foi detida em Chipre a pedido de autoridades italianas, que desejavam saber se ela fazia parte de uma contravenção mais ampla relativa a antiguidades que foram retiradas ilegalmente da Itália e vendidas em outros países. Tchacos Nussberger recebeu uma sentença reduzida, que acabou sendo suspensa porque ela havia, entre outras coisas, concordado previamente em devolver alguns artefatos reivindicados pela Itália, afirma Paolo Ferri, o promotor do caso em Roma.

A sua ficha ficará limpa em 2007, caso ela não seja indiciada pelas autoridades italianas por crimes relacionados ao contrabando de antiguidades.

Tchacos Nussberger disse que, assim como outros comerciantes, ela se meteu em apuros porque as leis que regulamentam o comércio de antiguidades mudaram drasticamente nos últimos anos.

Segundo a National Geographic, ela comprou o documento de Judas por cerca de US$ 300 mil em 2000 de um outro comerciante que colocou o evangelho em um cofre em Hicksville, no Estado de Nova York.

Ela tentou vendê-lo à Biblioteca Beinecke, da Universidade Yale.

A diretoria da universidade não especificou por que não comprou o documento. Mas Robert Babcock, curador de livros antigos da biblioteca, disse por meio de uma porta-voz: "Havia questões não resolvidas quanto à procedência do documento".

A seguir, em 2001, Tchacos Nussberger vendeu o manuscrito para um comerciante de antiguidades de Ohio por US$ 2,5 milhões, mas o negócio fracassou quando o comerciante não honrou a promessa de pagamentos.

Auxiliada pelo seu advogado, Roberty, ela voltou a obter a posse do documento e, por sugestão dele, fez o negócio com a Fundação Maecenas.
Segundo as cláusulas do acordo, ela tem o direito de receber uma soma originária dos rendimentos gerados pelo Evangelho de Judas essencialmente equivalente ao que teria recebido do comerciante de Ohio, menos o valor das várias páginas do manuscrito compradas pelo comerciante.

Garcia, o executivo da National Geographics, disse que um aspecto crítico do contrato da sociedade com a Fundação Maecenas foi a promessa do grupo de devolver o documento ao Egito. Krosney, o escritor, disse ter ficado convencido, a partir das suas discussões com Tchacos Nussberger, de que ela agiu com base nos motivos mais nobres.

Ele afirmou que falou com Roberty sobre os boatos que ouviu sobre Tchacos Nussberger na Itália, e acrescentou que o advogado minimizou a importância daqueles episódios. Ele declarou que jamais tocou no assunto com a comerciante.

Hershel Shanks, editor do periódico "Biblical Archaeology Review", disse que há uma tensão inerente entre a necessidade de conservar objetos antigos e de, ao mesmo tempo, inibir o comércio de artefatos saqueados.

"Se você deseja aprender com o material, é necessário negociar", disse ele. "Sou a favor do resgate desses materiais de providência duvidosa porque eles possuem informações importantes".

Mas outros estudiosos permanecem perturbados com a forma como a questão chegou à esfera pública.

"Os proprietários estão procurando obter lucros com algo do qual eles não são de fato donos", criticou Patty Gerstenblith, professora de direito da Universidade De Paul, em Chicago, e especialista em comércio de antiguidades. "As pessoas que exercem controle sobre o manuscrito não parecem ser os proprietários legais". Danilo Fonseca

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