UOL Notícias Internacional
 

13/04/2006

Armas nucleares no Irã estariam a anos de se concretizarem

The New York Times
William J. Broad, Nazila Fathi e Joel Brinkley*
Especialistas nucleares ocidentais disseram na quarta-feira que Teerã carece do conhecimento, materiais e equipamento para cumprir imediatamente suas ameaças nucleares, apesar de uma autoridade iraniana ter dito que o Irã desafiará a pressão internacional e expandirá rapidamente sua capacidade de enriquecer urânio.

A autoridade, Muhammad Saeedi, o vice-chefe da organização de energia atômica do Irã, disse que o país se esforçará para colocar 54 mil centrífugas em operação -um aumento assustador em comparação às 164 que, ele disse na terça-feira, foram usadas com sucesso para enriquecer urânio a níveis capazes de alimentar um reator nuclear.

Ainda assim, analistas nucleares disseram na quarta-feira que as alegações representam pouco ou nada para alterar as atuais estimativas sobre quando Teerã poderá ser capaz de produzir uma única arma nuclear, algo que alguns analistas estimam que poderá ocorrer em 2015 ou até mesmo em 2020.

O anúncio do Irã provocou críticas de vários países ocidentais e em menor grau da Rússia e da China. O governo Bush aproveitou a oportunidade para pressionar por "medidas mais fortes" contra o Irã, na esperança de usar a clara declaração de desafio do país para persuadir países relutantes como a Rússia e a China a apoiarem penas internacionais duras.

Mas autoridades russas disseram que não mudaram sua oposição em relação a tais penas. Analistas nucleares disseram que a afirmação do Irã de que enriqueceu urânio usando 164 centrífugas significa que o país agora deu um passo pequeno mas significativo além do que era capaz de fazer há quase três anos, quando concordou em suspender o enriquecimento enquanto negociava o destino de seu programa nuclear.

"Eles estão exagerando", disse David Albright, presidente do Instituto para Ciência e Segurança Internacional, em Washington, um grupo privado que monitora o programa nuclear iraniano. "Eles ainda têm que fazer muita coisa."

Anthony H. Cordesman e Khalid R. Al Rodhan, do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington, chamaram as novas afirmações iranianas de "pouco mais do que postura política vazia" que visa promover o nacionalismo iraniano e um senso global de inevitabilidade atômica.

Os especialistas nucleares disseram que a alegação do Irã, na quarta-feira, de que produzirá em massa 54 mil centrífugas, repete as afirmações feitas anos atrás. Mesmo assim, eles notaram, o Estado islâmico ainda carece de partes de materiais para produzir em massa máquinas altamente complexas, que podem converter o urânio em combustível rico o bastante para uso em reatores nucleares ou armas.

Foram necessários 21 anos de planejamento e sete anos de experiências esporádicas, a maioria em segredo, para Teerã atingir sua atual capacidade de ligar apenas 164 centrífugas no que os especialistas nucleares chamam de cascata. Agora, disseram os analistas, Teerã precisa atingir não apenas resultados consistentes de forma ininterrupta por muitos meses e anos, mas graus maiores de precisão e produção em massa.

É como se Teerã, tendo dominado um instrumento musical difícil, agora enfrentasse o desafio de produzir milhares deles e criar uma grande orquestra capaz de sempre tocar afinada e perfeitamente em uníssono.

Na quarta-feira, Saeedi, a autoridade nuclear iraniana, disse que o Estado islâmico está progredindo rapidamente na direção de suas metas atômicas. "Nós expandiremos o enriquecimento de urânio para uma escala industrial em Natanz", ele foi citado como tendo dito para a agência de notícias estudantil "Isna", em uma referência à principal instalação de enriquecimento do Irã.

Saeedi disse que o Irã começará a operar a primeira de 3 mil centrífugas em Natanz no final de 2006, com uma expansão posterior para 54 mil centrífugas. "Nós não temos problemas para fazer isto", ele disse para a "Isna". "Nós apenas precisamos aumentar nossas linhas de produção."

As notícias do Irã, que possui 10% das reservas mundiais de petróleo, deixaram os mercados de petróleo muito nervosos nos últimos dias e contribuíram para um aumento nos preços para cerca de US$ 70 o barril na terça-feira. O mercado futuro de petróleo na Bolsa Mercantil de Nova York fechou a US$ 68,62 o barril na quarta-feira, apenas US$ 2 abaixo do recorde atingido após o furacão Katrina.

Desde o início do ano, a crise diplomática tem provocado temores de que o Irã poderá ficar tentado a restringir suas vendas de petróleo, provocando uma alta dos preços que poderá causar um caos econômico ao redor do mundo. As autoridades iranianas disseram repetidas vezes que poderiam usar a "arma do petróleo" de seu país em um confronto com o Ocidente. Mas, como freqüentemente é o caso na política iraniana, tais declarações foram rapidamente compensadas por comentários mais tranqüilizadores do Ministério do Petróleo, de que o Irã não usará suas exportações de petróleo como moeda de barganha com o Ocidente.

Mais realisticamente, muitos no mercado temem que quaisquer penas internacionais contra o Irã poderiam prejudicar a indústria do petróleo iraniana, reduzir investimentos ou remover barris extremamente necessários dos mercados ávidos por petróleo. A posição russa contra as penas, apesar do clima de crise, acentua os obstáculos que Washington ainda enfrenta em seu esforço para forçar uma suspensão do programa nuclear iraniano.

Um alto assessor do presidente da Rússia, Vladimir V. Putin, disse na quarta-feira que qualquer esforço para empregar penas contra Teerã sairá pela culatra, porque "o atual presidente do Irã as usará em seu benefício e ele as usará para consolidar a opinião pública a seu favor".

Os Estados Unidos estão pedindo aos membros do Conselho de Segurança da ONU que aprovem novas restrições financeiras e de viagem aos líderes iranianos, com funcionários do governo vendo a Rússia, que tem laços comerciais estreitos com o Irã, como obstáculo a tais esforços.

A secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, disse na quarta-feira que o Conselho de Segurança da ONU deve considerar "medidas mais fortes" para induzir o Irã a mudar de curso.

"O Conselho de Segurança terá que levar em consideração esta atitude do Irã", ela disse sobre o anúncio de terça-feira. "Será hora, quando se reunir para este caso, de medidas mais fortes para assegurar a manutenção da credibilidade da comunidade internacional."

No Irã na terça-feira, o presidente Mahmoud Ahmadinejad anunciou em uma
cerimônia elaborada que os cientistas iranianos enriqueceram urânio com
sucesso para 3,5% -um nível de pureza que, se puder ser obtido em quantidade suficiente, poderia alimentar um reator nuclear. Apesar do Irã ter saudado o passo como um primeiro, especialistas nucleares disseram que Teerã já vem realizando experiências periódicas de enriquecimento com centrífugas há sete anos, desde 1999.

Na quarta-feira, a televisão estatal do Irã foi dominada por programas sobre a afirmação de enriquecimento, no que parecia um esforço altamente organizado para mobilizar o apoio popular ao programa nuclear.

Um canal mostrou um repórter parando pessoas na rua para perguntar se tinham comprado bolo para comemorar a notícia. Outro mostrou instalações nucleares e minas de urânio. O noticiário de televisão disse que as escolas em todo o país celebraram o sucesso e reprisava o anúncio do presidente do Irã saudando a etapa de enriquecimento.

Apesar do Irã ter aumentando acentuadamente suas afirmações nucleares nos últimos dois dias, analistas nucleares disseram que o país parece estar exatamente na posição em que se esperava na estrada para o aprendizado de como enriquecer o urânio em escala industrial, e que ainda precisará de anos de trabalho árduo para atingir suas metas altamente ambiciosas.

Albright, do Instituto para Ciência e Segurança Internacional, disse não estar surpreso com o fato dos iranianos contarem com um grupo de 164 centrífugas em funcionamento e por terem começado a introduzir urânio em gás nelas para enriquecimento.

"Eles ainda têm muito o que fazer", ele disse, para aperfeiçoar a operação de cascata de centrífugas. Um relatório que ele e seus colegas divulgaram no final do mês passado sugeria que o Irã ainda precisaria de seis a 12 meses para dominar o processo, e Albright disse em uma entrevista que defende a estimativa aproximada como precisa.

Seu relatório de março dizia que o Irã tinha peças para talvez 1.000 ou
2.000 centrífugas além daquelas já em operação, e que o Irã provavelmente não produzirá urânio altamente enriquecido suficiente para produzir uma arma nuclear até 2009, no mínimo.

Agências de inteligência americanas estimam que Teerã está entre cinco a 10 anos de ter material suficiente para produzir uma única arma nuclear.

Vários países ocidentais criticaram os anúncios recentes do Irã como
desnecessariamente provocativos.

O ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, Jack Straw, disse que foram "profundamente de nenhuma ajuda", e seu par alemão, Frank-Walter Steinmeier, disse que o Irã estava "indo precisamente na direção errada". Rússia e China se juntaram ao coro, mas suas críticas foram qualificadas.

"Para a China, nós estamos preocupados com os eventos e com a forma como as coisas estão se desenvolvendo", disse Wang Guamgya, o embaixador da China na ONU. Mas ele acrescentou: "Apesar disto, eu acredito que os esforços diplomáticos ainda estão em andamento".

Em Moscou, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chamou o
anúncio do Irã de expansão do enriquecimento de urânio como "um passo na direção errada".

Mas o ministro das Relações Exteriores, Sergy V. Lavrov, moderou o tom. Ele criticou qualquer possível ação militar contra o Irã e aconselhou contra um julgamento apressado, dizendo que o Irã "nunca declarou que está lutando para possuir armas nucleares".

*Jad Mouawad contribuiu com reportagem em Nova York. George El Khouri Andolfato

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