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13/04/2006

Em Londres, uma busca pela moda da transgressão

The New York Times
Eric Wilson

em Londres
Por detrás da porta de uma casa de tijolos vermelhos de estilo georgiano, que parece diferente de todas as outras residências em uma rua agradável e sinuosa no bairro de Hammersmith and Fulham, onde vivem pessoas de diversas classes sociais, um homem conhecido apenas como Simon pede aos visitantes que se apressem em entrar.

Simon é baixo e tem cabelos grisalhos cortados bem curtos. Os seus bíceps trazem tatuagens de crânios e os seus olhos apresentam traços de maquiagem. Ele usa uma velha camiseta dos Sex Pistols, de pelo menos 30 anos atrás. Simon não aparenta ter o perfil usual de um aspirante a doador para a extensa coletânea de moda histórica do Museu Metropolitano de Artes.

"Isso tem um pouco de ar de filme de espionagem, não?", comenta Andrew Bolton, um dos curadores do Instituto de Vestimentas do Metropolitan, ao conhecer o homem tatuado. Simon pede que o seu sobrenome não seja revelado, devido à natureza polêmica de algumas peças da sua coleção.

Instalada acima de dois lances de escada, a sua cozinha é surpreendentemente agradável, e nela chamam atenção o assoalho de tábuas largas, uma mesa branca de jantar com cadeiras Fornasetti, três pêras colocadas em uma travessa de prata e um armário abastecido com champanhe e água. E em um canto, dependurada em cabides, está uma coleção impressionante de roupas sediciosas. Esses artefatos culturais raros produzidos por Vivienne Westwood e Malcolm McLaren para os Sex Pistols estão associados a um momento breve mas grandioso da história da moda. As calças de couro de Johnny Rottens estão guardadas nessa cozinha branca.

Bolton esteve lá para procurar peças para a exposição "AngloMania", do Metropolitan, uma mostra que será inaugurada em 3 de maio e que avalia como os estilistas ingleses, obcecados com o seu jeito britânico, perpetuaram um estilo nacional em roupas que irradiam tradição e transgressão. Na sua busca de exemplos da influência transgressora, Bolton foi conduzido até Simon e a sua coleção de peças punk, depois que um pesquisador do Metropolitan encontrou o website do colecionador, que não é exatamente apropriado para internautas de todas as faixas etárias. Durante meses Simon resistiu às tentativas do museu de descobrir a sua identidade, concordando finalmente em fornecer o seu nome completo a Bolton, com a condição de que este não o identificasse publicamente como sendo um doador.

"O punk introduziu o vocabulário do pós-modernismo na moda", disse Bolton, enquanto examinava jaquetas de pára-quedistas com mangas picotadas e camisas feitas com retalhos de musselina desbotada. "Havia novos elementos de desconstrucionismo e de referência histórica. Os estilistas estavam realmente desmanchando as peças nas costuras".

Isso é especialmente verdadeiro no trabalho de Westwood e McLaren, o gerente dos Sex Pistols. As suas coleções de peças sediciosas do final dos anos 70 - as camisas esfarrapadas, calças de estilo anarquista e jaquetas de lona desfiada desenhadas para a banda e os seus fãs - se transformaram no modelo de um uniforme do movimento punk. Camisetas que eram vendidas por umas poucas libras na loja de Westwood na King's Road eram cortadas grosseiramente, como se fossem fronhas, e enfeitadas com imagens rudes de suásticas, pedofilia e de um estuprador mascarado que aterrorizava Cambridge.

Em 1975 um vendedor da loja foi preso e processado por indecência, porque usava uma camisa com um desenho de caubóis pelados feito por Tom of Finland. Devido ao fato de as peças serem tão provocativas, elas ficaram acompanhadas de um estigma emocional, e é por esse motivo que Simon reluta em se identificar.

O desafio para Bolton ao montar a exibição sobre moda britânica é encontrar uma forma de ilustrar a dinâmica entre o subversivo e o convencional sem ofender as sensibilidades de uma instituição como o Metropolitan. Esta questão foi alvo de muita discussão durante a sua escolha para fazer a busca em Londres no mês passado. Durante uma visita de três dias ele conheceu vários estilistas e Simon, a fim de examinar os modelos cogitados, alguns dos quais foram feitos sob encomenda para a mostra.

No setor de moda para as multidões punks furiosas, juntamente com Westwood, estava Stephen Jones, um chapeleiro que propôs que fossem criados cortes de cabelo do tipo moicano para os manequins do Metropolitan, incluindo aqueles feitos de tampões ou cigarros. Mas a transgressão pode também ser encontrada na moda mais convencional, em estilistas como Paul Smith e o alfaiate Richard James, que se regozija com a perversidade oculta sob a superfície; e em Christopher Bailey, que escolheu um tipo de tecido para a sua coleção de outono porque, segundo ele, "o pano tinha uma aparência ordinária".

Este apetite pelos elementos que "chocam polidamente" também se aplica à abordagem de curador exibida por Bolton. Os seus planos para a exibição incluem a confecção de cortinas com a Union Jack (a bandeira britânica), e a representação de uma cena de caçada na qual a presa é um manequim masculino perseguido, de quatro, pelas salas do período britânico do Metropolitan, usando ceroulas long john e chapéu silver fox.

"Adoro o fato de nos metermos em confusão", disse Jones na sua loja em Covent Garden quando mostrou a Bolton os rascunhos da sua proposta de estilo moicano. A sua idéia de fazer um deles com tampões veio de mulheres que, segundo a moda punk, os usavam penduradas nas lapelas das jaquetas. Bolton, que é inglês, não ficou muito seguro quanto a essa idéia. Se ele exibir trabalhos muito controversos, a mostra poder ser demasiadamente provocativa; mas a autocensura pode se constituir em um ponto demasiadamente negativo.

Westwood pedalou a sua bicicleta até o seu escritório em Bayswater para conhecer Bolton. Ela usava uma tiara de arame que dava a impressão de que chifres dourados emergiam da sua testa. Em volta do pescoço ela usava um colar com um balão de desenho animado com os dizeres: "Não sou um terrorista. Por favor, não me prendam".

Bolton explicou a sua teoria de que os desenhos sediciosos introduziram o vocabulário do pós-modernismo na moda. Westwood, 65, respondeu que as suas idéias eram na verdade parte de uma recém-descoberta atração pelo nostálgico, e de uma necessidade de olhar para um passado marcado por momentos de rebelião, quando os jovens reagiram contra os ideais estabelecidos.

"Havia a idéia de que quando o terceiro milênio chegasse, viveríamos em um mundo moderno e perfeito", contou ela. "Mas em determinado momento as pessoas descobriram que isso não ocorreu. Elas perceberam que não orbitariam em torno do universo. O modernismo não aconteceu. O pós-modernismo, na minha opinião, estava catando os pedaços e descobrindo o que fazer deles".

A ambição de Bolton é demonstrar uma continuidade de tal transgressão, chegando mesmo a comparar o punk ao dandismo, porque ambos representaram um desafio às normas de status e classe. Ele disse que espera invocar o espectro da rebelião no trabalho contemporâneo de estilistas ingleses que atuam em Paris, como Galliano, Stella McCartney e Alexander McQueen, que perturbaram as tradições da costura francesa. E, ao se voltar para os estilistas estrangeiros que atualmente trabalham em Londres, ele pretende mostrar uma outra perspectiva sobre o anglicismo.

Visitando o estilista Hussein Chalayan no seu estúdio em East End, Bolton vinculou os seus vestidos desconstruídos ao trabalho dickensiano com farrapos. Ele comparou outros vestidos, feitos com rosetas recortadas sobre lona, à topiaria inglesa. Chalayan, que nasceu em Chipre, pareceu se sentir ao mesmo tempo satisfeito e irritado por ter sido incluído nesta exploração anglicista.

"Quando se inclui um estilista com um nome como Hussein, isso acrescenta um novo contexto à questão", disse Chalayan. "Anglicismo não significa ser puro".

Até mesmo no terno de cavalheiro inglês há uma tradição de perversidade de alfaiataria. James, que sacudiu Savile Row há quase 15 anos com os seus modelos espalhafatosos e feitos apressadamente, como os ternos de tecido fino que confeccionou para Elton John, aceitou mais rapidamente o fato de lhe ser atribuído o papel de agitador. Para a exibição ele está fazendo um terno costurado de forma clássica, com uma abertura em vermelho gritante.

"Senti que a peça deveria ser usada com uma camisa e uma gravata rosas", conta James, exibindo um pedaço do material. "E quanto a abotoaduras?". Ele empurra cabides de ternos e entra em um pequeno armário, retirando de lá uma caixa de papelão que contém as suas coleções de abotoaduras, tubos de vidro, globos de um rosa pálido com mamilos de rosa vivo, feitos com quartzo rosa. "Eles são um pouco vulgares, não?". Na verdade, são perfeitos.

Bolton também planeja contrastar um terno clássico listrado de Henry Poole, o primeiro alfaiate de Savile Row - ele fez as roupas de Benjamin Disraeli e de William Gladstone no final do século 19 -, com um outro cor de carvão, criado por Paul Smith, que veste Tony Blair. O forro e o colete do terno de Smith são violetas.

"Originariamente, a idéia era usar um tecido inglês clássico, e a seguir acrescentar um toque de humor", disse Smith no seu ateliê em Covent Garden. Bolton percebeu um paralelo no fato de Smith certa vez ter gerado uma comoção ao vestir Blair com uma camisa de um rosa pálido, combinando com a gravata, e pintar uma mulher nua.

Ao acrescentar referências históricas aos seus trabalhos, Bailey, que revitalizou a imagem de Burberry, é uma representação ideal do entrechoque harmônico de elementos anglicistas: o amor pela tradição e a atração pelos escândalos de tablóides. Esses elementos coexistem em uma brilhante capa de chuva preta, que parece servir perfeitamente em um manequim que Bolton espera usar para fazer uma referência a Christine Keeler, a modelo e dançarina cujos casos amorosos perturbaram o Partido Conservador em 1963.

E uma peça de seda cinza-pérola com um chocante forro vermelho e fitas que se acumulam nas mangas para dar um efeito de início de século 19 é, para Bolton, uma fusão da história de Burberry com a da moda inglesa. "Esse é o meu trabalho", explicou Bailey no seu ateliê próximo a Piccadilly Circus.

"Essa história funciona de muitas maneiras e em vários níveis", disse ele.

Em certos níveis tal história não funcionará no Metropolitan. Bolton informou que não exibirá as camisetas sediciosas com ilustrações de suásticas ou garotos nus. "Elas foram desenhadas para chocar, mas, fora do contexto do movimento punk de Londres, podem se tornar ultrajantes", explicou ele nesta semana. Mas Bolton ainda está discutindo o destino do moicano de Jones feito com tampões. Ele está inclinado a incluir a peça na exibição. Danilo Fonseca

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