UOL Notícias Internacional
 

13/04/2006

Jurados no julgamento de Moussaoui escutam gravação da cabine do Vôo 93

The New York Times
Neil A. Lewis

em Alexandria, Virgínia
Os sons gravados de luta e pânico no Vôo 93 da United ocuparam um tribunal federal daqui na quarta-feira, enquanto os jurados do julgamento de sentenciamento de Zacarias Moussaoui escutavam absortos enquanto os seqüestradores de 11 de setembro tomavam o controle da cabine e os passageiros tentavam retomar o controle, acreditando ser aquela sua única chance de evitar a morte.

Longos silêncios na gravação de 31 minutos eram pontuados por gritos dos seqüestradores nos controles, pelos passageiros que estavam tentando desesperadamente arrombar a porta da cabine e o quebrar de objetos ao redor desta.

Também havia sons do que pode ter sido a morte de uma comissária de bordo enquanto os seqüestradores tomavam o controle. Uma mulher na cabine gemia: "Por favor, por favor, não me machuque". A voz dela aparece de novo pela última vez enquanto ela é ouvida dizendo: "Eu não quero morrer, eu não quero morrer", seguida por um dos seqüestradores dizendo em árabe: "Está tudo bem. Eu terminei".

A gravação termina com um crescendo de barulho de três minutos enquanto um passageiro, aparentemente do outro lado da porta, grita: "Na cabine! Caso contrário, morreremos".

No outro lado da porta, dois seqüestradores são ouvidos deliberando antes de decidirem encerrar o vôo antes de serem dominados. "É isto? Quero dizer, devemos derrubar?" um deles pergunta em árabe e outro responde: "Sim, derrube". Então ambos gritam repetidamente: "Alá é o maior" em árabe enquanto o avião cai às 10h03 da manhã em um campo em Shanksville, Pensilvânia, a mais de 800 km/h. A bordo estavam 33 passageiros, cinco comissários de bordo, dois pilotos e os quatro seqüestradores.

Foi a primeira vez que a gravação, feita pelos instrumentos da cabine e recuperada dos destroços após a queda do avião no interior da Pensilvânia, foi executada em público. E pode ter sido a última, segundo a ordem da juíza do julgamento, que autorizou que fosse ouvida pelos jurados que estão decidindo se Moussaoui será sentenciado ou não à morte. Uma transcrição foi divulgada, mas os sons ficaram confinados à sala do tribunal.

Moussaoui, que estava na prisão em Minnesota no momento dos ataques, exibiu às vezes um sorriso largo durante a execução da gravação, uma das vezes quando um seqüestrador na cabine disse em árabe: "Em nome de Alá. Eu testemunho que não há outro Deus além de Alá." Ele exibiu um ar de indiferença durante grande parte do julgamento, que está atualmente na quinta semana.

Um francês de 37 anos descendente de marroquinos, ele é a única pessoa que está sendo julgada nos Estados Unidos por ligação aos ataques de 11 de setembro. O júri já decidiu por unanimidade que ele está apto a ser sentenciado à morte, o considerando responsável por pelo menos algumas das mortes daquele dia por ter mentido aos interrogadores, na época de sua prisão, sobre seu conhecimento dos planos da Al Qaeda de arremessar aviões contra prédios.

A juíza Leonie M. Brinkema determinou que a gravação digital não deveria ser divulgada publicamente, dizendo que caso contrário seria transmitida repetidas vezes, algo a que os parentes dos mortos poderiam fazer objeção. Ela autorizou uma transcrição de nove páginas, o primeiro relato completo do conteúdo da gravação.

A gravação foi ouvida por alguns parentes dos que morreram a bordo do avião assim como pela comissão nacional que divulgou um relatório sobre os ataques de 11 de setembro, que concluiu que os seqüestradores tinham intenção de arremessar o avião contra o Capitólio ou a Casa Branca, mas foram "derrotados pelos passageiros desarmados, alertas, do Vôo 93 da United".

Apesar da história geral do Vôo 93, baseada na investigação oficial, já ser conhecida há algum tempo, escutar a gravação de áudio ainda assim pareceu ser uma experiência angustiante para os jurados, que foram informados que estariam entre os poucos a ouvir os sons dos momentos finais do Vôo 93. Nesta segunda fase das deliberações para sentenciamento, os jurados devem pesar a atrocidade do crime contra quaisquer fatores atenuantes e depois decidir se Moussaoui deve ser executado ou passar todo o restante de sua vida na prisão.

Após a execução da gravação, a acusação apresentou as duas testemunhas finais antes de encerrar seu caso na segunda fase. Um deles era Lorne Lyles, o marido de CeeCee Lyles, uma comissária de bordo do Vôo 93 da United. Lyles narrou sua última conversa com ela, na qual usou um telefone de bordo para proclamar seu amor e pedir para que ele cuidasse dos filhos deles.

Os advogados de defesa nomeados pelo tribunal, com os quais Moussaoui não fala, supostamente iniciarão seu esforço para salvar a vida do réu na quinta-feira. Espera-se que ele apresentarão dois argumentos principais: o de que apesar dele ser um membro da Al Qaeda, mesmo os líderes da organização não o consideravam confiável e que não planejavam usá-lo como parte do plano de 11 de setembro; e o de que ele tem exagerado seu papel, dizendo que sabia sobre o plano de 11 de setembro em busca do martírio. Moussaoui deverá se sentar no banco das testemunhas novamente, como fez na primeira fase, quando parecia disposto a reforçar o argumento da acusação.

Enquanto os jurados ouviam a gravação de áudio, eles puderam assistir em monitores de televisão uma descrição sincronizada que mostrava a localização do avião a cada momento, enquanto ele sobrevoava a Pensilvânia, sua velocidade no ar, altitude e atitude. Os jurados puderam ver no vídeo como o piloto seqüestrador, Ziad Jarrah, tentou conter o contra-ataque, jogando repentinamente o avião para a esquerda e para a direita, aparentemente para desequilibrar os passageiros. A divulgação da transcrição ocorre no momento em que o estúdio Universal está prestes a lançar um filme sobre o evento, chamado "United 93", cujo trailer alguns espectadores acharam perturbador demais. A transcrição poderá fornecer outro referencial para se avaliar a veracidade do filme.

A gravação mostra que Jarrah tentou acalmar os passageiros, fingindo que estava realizando um seqüestro mais tradicional, no qual o avião pousaria em algum outro lugar.

"Aqui fala o capitão", ele disse às 9h39. "Eu gostaria de pedir para que todos permaneçam sentados. Nós temos uma bomba a bordo, vamos voltar ao aeroporto e temos nossas exigências. Assim, por favor, permaneçam quietos."

Mas os passageiros souberam por meio de várias conversas por celular que outros aviões seqüestrados já tinham colidido contra o World Trade Center. É em uma destas conversas que Todd Beamer, que conta a uma telefonista sobre os planos de dominar os seqüestradores, é ouvido por ela dizendo aos demais passageiros: "Vamos nessa".

Além disso, a violência no interior do avião indicou aos passageiros que algo estava diferente de um seqüestro habitual. Na evidência apresentada na terça-feira, os jurados ouviram o telefonema de Marion Britton, uma passageira, para uma amiga em terra. "Não se preocupe", consolou a amiga. "Eles provavelmente levarão vocês para outro país."

Britton respondeu: "Dois passageiros tiveram suas gargantas cortadas". George El Khouri Andolfato

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