UOL Notícias Internacional
 

14/04/2006

No Nepal, uma geração criada na democracia exige seu retorno

The New York Times
Somini Sengupta
Em Katmandu, Nepal
A sexta-feira marca o Ano Novo nepalês, com os jovens nepaleses investindo furiosamente contra o passado.

"Nós não pediremos para que o Rei deixe o trono -- nós pegaremos o trono e o colocaremos em exibição", disse Gagan Thapa, 29 anos, um símbolo político dos jovens do Nepal, para uma multidão de milhares nos arredores da capital, na quinta-feira. A grande maioria, vestindo bonés e jeans e aparentando idade abaixo de 30 anos, gritou em aprovação.

Atrevidos brados antimonarquia ecoavam pelo local.

"Nós queimaremos a coroa, queimaremos a coroa", respondeu a multidão.

Os protestos irreprimíveis que tomaram o Nepal nos últimos dias, exigindo o fim do governo monárquico e a volta do Parlamento, ocorrem em grande parte em função da demografia e seu descontentamento.

Os jovens do Nepal estão à frente de protestos barulhentos, freqüentemente violentos, pró-democracia que deixaram quatro mortos. Se o Nepal mergulhará em maior tumulto ou verá o amanhecer de uma nova era política no ano 2063 do calendário nepalês, isso dependerá de serem atendidos ou não.

Com a crise de seu país crescendo a cada dia, o rei Gyanendra pareceu fazer um pequeno gesto em tal direção. Em uma breve declaração lida na televisão estatal logo após a meia-noite, ele pediu eleições gerais "com a participação ativa de todos os partidos políticos comprometidos com a paz e a democracia".

Mas o rei não disse nada sobre quando as eleições serão realizadas e nem, mais importante, se consentirá com eleições para uma reforma da Constituição, algo em que insistem a coalizão de partidos políticos do país e os rebeldes maoístas.

Se o gesto restaurará a paz no reino do Himalaia de Gyanendra dependerá da reação na sexta-feira das multidões inflexíveis de jovens que atualmente são seus adversários mais formidáveis.

Quase 60% dos 23 milhões de cidadãos do Nepal têm menos de 24 anos. Eles amadureceram após a democracia chegar ao Nepal em abril de 1990 e provaram os frutos e fracassos da política eleitoral. Eles viram a rebelião maoísta oprimir grande parte do interior do país.

Em fevereiro de 2005, eles viram seu rei suspender o Parlamento e nomear primeiros-ministros de sua própria escolha em uma tentativa, como ele disse, de derrotar a insurreição maoísta. Por 14 meses, eles viveram sob governo direto do rei.

Na semana passada, ele proibiu os protestos aqui na capital e por seis dias impôs toque de recolher.

Tal ordem não impediu os jovens de tomarem desafiadoramente as ruas. Eles têm sido alvo de grande parte do espancamento promovido pela polícia: em apenas um dia nesta semana, das 59 pessoas que deram entrada no principal hospital-escola de Katmandu para tratamento de seus ferimentos, apenas 13 tinham mais de 30 anos.

Considere o veredicto de Shashi Sigdel, um estudante de medicina de 22 anos na mudança de atitude em relação ao rei.

"Meu avô costumava pensar que ele [o rei] era um Deus", disse Sigdel. "Meus pais costumavam pensar que ele ficava entre Deus e o diabo. Eu já acho que ele é o diabo. Esta é uma diferença de geração."

Na quinta-feira, o governo restaurou o serviço de telefonia celular, desativado por quase uma semana, e suspendeu o toque de recolher na capital. A proibição dos protestos em Katmandu e várias outras cidades continuou -- assim como os protestos.

O Exército Real Nepalês foi enviado para algumas das manifestações. Mas até agora ele tem evitado um confronto aberto com os manifestantes. Das quatro pessoas mortas nas manifestações, pelo menos duas morreram por fogo do exército.

Um protesto da Ordem dos Advogados do Nepal na manhã de quinta-feira terminou com o espancamento pela polícia de dezenas de manifestantes; quase 50 foram parar no hospital, incluindo dois cujas cabeças foram feridas por balas de borracha.

"Esta é nossa situação", disse Madhav Baskota, 46 anos, um advogado que também é o secretário-geral da Ordem dos Advogados do Nepal, enquanto colocava gelo em uma perna inchada em um hospital do governo, após o protesto da manhã de quinta-feira. "Regra da lei. Judiciário independente. Esta é uma situação de direitos humanos no Nepal", disse Baskota.

Em uma declaração na quinta-feira, o Escritório do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos indicou que o excesso de força empregado pelos policiais poderia ameaçar a participação do Nepal em missões de força de paz da ONU, uma boa fonte de renda para o país.

Manifestações pró-democracia têm sido comuns desde a tomada real de fevereiro de 2005, mas nenhuma foi tão intensa, contínua ou violenta quanto as que ocorreram na semana passada. Os maoístas deram suas bênçãos aos protestos, assinando um espécie de acordo de paz no ano passado com a coalizão dos sete maiores partidos políticos do Nepal.

Milhares de nepaleses comuns, incluindo advogados, jornalistas e outros profissionais sem ligação explícita com os partidos políticos, foram presos na semana passada. O palácio tem acusado os maoístas de se infiltrarem nas fileiras de manifestantes.

Os jovens que estão nas linhas de frente destes protestos são os filhos da política parlamentar do Nepal. A democracia trouxe mais do que eleições a este reino do Himalaia. Ela trouxe novas escolas e faculdades. Estradas foram construídas ligando o interior à capital. Uma imprensa independente briguenta nasceu.

Muitos dos que se juntaram às manifestações desta semana, mesmo se tivessem qualquer lembrança do movimento pró-democracia de 1990, nunca tinham participado de um protesto político antes.

Ila Sharma, 39 anos, lembrou de ter visto seus vizinhos acenderem tochas e marcharem na rua na primavera de 1990. No sábado passado, ela se juntou a uma marcha de protesto. No mesmo dia, ela assistiu na televisão a um vídeo da polícia batendo nos manifestantes. Ela não parou de protestar desde então.

Sharma disse ter perdido a pouca fé que ainda tinha no rei. "Nós estamos amplamente desiludidos", disse Sharma.

Os jovens nepaleses são um espinho não apenas para o rei, mas também para os políticos que estimularam tais protestos e os viram crescer além das expectativas na última semana.

Em entrevista após entrevista, os manifestantes disseram que não permitirão que seus políticos fechem qualquer acordo de divisão de poder com o palácio.

No encerramento de seu discurso, Thapa desceu do degrau onde estava e disse esperar que os políticos que lideram seu partido, o Congresso Nepalês, ouçam a mensagem dos jovens.

Ele foi parado rapidamente pelos seus fãs. "Nosso destino é uma república", exigiu Rajesh Sapkota, 21 anos, um estudante universitário. "Você precisa transmitir esta mensagem aos líderes. Nós queremos ser claros quanto à democracia."

Thapa lhes assegurou que seus desejos não serão colocados de lado. "Nós pensávamos anos atrás que uma república era impensável", ele lhes disse. "Agora é possível." George El Khouri Andolfato

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