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15/04/2006

Exigência de passaporte na fronteira entre EUA e Canadá pode prejudicar turismo

The New York Times
Ian Austen
Niagara Falls, Ontario, Canadá
Sob o ponto de vista teatral, o show "Oh Canada Eh?" e o Shaw Festival, cuja temporada atual inclui uma peça de Ibsen, pouco têm em comum.

Mas embora as duas produções possam estar voltadas para tipos diferentes de audiência, as organizações que gerenciam os dois eventos têm a mesma preocupação quanto a uma lei americana relativamente recente que exigirá que qualquer pessoa que atravesse a fronteira entre Estados Unidos e Canadá apresente um passaporte ou um documento equivalente, ainda não especificado.

"Isso se transformou em uma guerra contra o turismo, e não contra o terrorismo", reclama J. Ross S. Robinson, presidente da Canadiana Productions, proprietária da companhia de teatro que produz o "Oh Canada Eh?". Ele diz que as novas regras já provocaram cancelamentos de ingressos a partir dos Estados Unidos, apesar de elas só entrarem em vigor os para indivíduos que cruzam a fronteira terrestre no final de 2007.

E os donos de negócios turísticos não são os únicos críticos das novas regras, que fazem parte da Lei de Prevenção do Terrorismo e de Reforma da Inteligência, aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos em 2004. Indústrias que remetem peças e produtos acabados entre os dois países temem que ocorram novos atrasos em postos de fronteira já congestionados.

Embora os museus, as equipes esportivas profissionais e os donos de lojas na região ocidental do Estado de Nova York dependam dos visitantes canadenses que poderão permanecer em casa no futuro, parece que a indústria canadense de turismo é que arcará com o maior prejuízo devido às novas regulamentações.

No momento, uma percentagem menor de americanos (cerca de 24%) do que de canadenses (cerca de 39%) possui passaporte.

Acredita-se que as regras provoquem um aumento nos pedidos de passaportes. Mas Robinson diz estar preocupado com a possibilidade de que um número relativamente pequeno de indivíduos se disponha a gastar US$ 97 e preencher os formulários para aquisição de um passaporte simplesmente para viajarem ao Canadá.

Conforme demonstram os grandes espaços no pátio de estacionamento do "Oh Canada Eh?", o show depende bastante das operadoras de ônibus turísticos. Segundo Robinson, os viajantes que utilizam esses serviços são muitas vezes indivíduos idosos, que não se dispõem a esbanjar dinheiro.

"Uma grande maioria não possui passaportes e não tirará este documento", afirma Robinson, sentado no seu teatro, que é cheio de suvenires de hóquei, animais empalhados e sapatos de madeira para neve. "Jamais compensaremos a perda de um grande número de americanos com turistas da Austrália e da Inglaterra."

Embora a legislação permita que o governo dos Estados Unidos crie um novo cartão de identificação para a passagem na fronteira, acredita-se que tal documento custará cerca de US$ 50, que implicará no preenchimento de formulários semelhantes aos do passaporte e que, segundo a opinião de Robinson e outros, será igualmente destituído de atrativos para o viajante casual.

Embora haja menos pânico no caso do Shaw Festival, em Niagara-on-the-Lake, uma próspera cidade turística, Odette Yazbeck, porta-voz do teatro, diz que existe no seu caso também existe preocupação. No ano passado, 39% dos 295.559 ingressos para o festival foram comprados por estadunidenses. Yazbeck afirma que uma pesquisa sobre o festival revelou que os americanos que freqüentam repetidamente o evento ou possuem passaporte ou contam com os meios financeiros e a disposição para adquiri-lo.

Mas, segundo ela, a tendência crescente dos americanos de fazer planos de viagem de última hora por meio da internet não se coaduna bem com a exigência de passaporte. Yazbeck diz que, além disso, a direção do festival já foi procurada por americanos que estão confusos quanto ao cronograma e às exigências da nova legislação.

Os viajantes que retornarem do Canadá por aviões ou embarcações precisarão de passaporte ou do cartão de passagem de fronteira até o final deste ano. A regra será aplicada aos motoristas até o final de 2007.

Nesta semana, o Grupo Jim Patterson, com sede em Vancouver, citando as novas regulamentações, cancelou os planos para a construção de um novo aquário que custaria 100 milhões de dólares canadenses. O aquário seria administrado pela Ripley Entertainment, uma divisão do grupo.

"A iniciativa de cancelamento do projeto se deveu em grande parte a essas novas regras", afirma Bradley. "Presenciaremos um grande declínio na movimentação turística dos dois lados da fronteira."

O deputado Don Manzullo, republicano de Illinois e presidente do Comitê de Pequenas Empresas da Câmara, que conduziu as audiências sobre o plano no ano passado, disse estar preocupado com a possibilidade de que as companhias européias e asiáticas que mantiveram várias fábricas operando no seu distrito percam o interesse em investir em uma América do Norte com fronteiras mais restritas.

"Estamos dando uma bofetada na cara do nosso parceiro comercial mais próximo", afirma Manzullo. "Temos que nos empenhar para não tratarmos os canadenses como terroristas."

Embora atualmente muitos motoristas de caminhões portem um cartão especial para a travessia da fronteira, Perrin Beatty, presidente da Canadian Manufacturers and Exporters, diz que a sua associação, com sede em Ottawa, está preocupada com a possibilidade de o controle mais rigoroso na fronteira vir a prejudicar o cronograma pontual de entregas de peças que atualmente é comum nas fábricas.

"Estamos antevendo o surgimento de graves gargalos na fronteira", alerta Beatty. Assim como muitos indivíduos no Canadá, ele preferiria que os Estados Unidos exigissem dos motoristas uma carteira de habilitação mais aperfeiçoada e segura, uma idéia que foi rejeitada pelo governo Bush.

Mas Beatty, ex-membro do Parlamento e do Gabinete canadenses pelo Partido Conservador, diz que se opõe ao plano americano por razões que não são apenas de natureza comercial.

"Será que desejamos erigir barreiras entre os nossos dois povos, impedindo-os de se conhecerem?", questiona Beatty. "Eu acreditaria que, após o 11 de setembro, fomentar a união norte-americana deveria ser a prioridade número um". Danilo Fonseca

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