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16/04/2006

Por que as celebridades batizam os filhos com nomes estranhos?

The New York Times
Alex Williams
Para se ter uma idéia do que passamos a esperar das celebridades, basta considerar que se Henry Fonda fosse vivo e tivesse filhos atualmente, seria provável que ele batizasse a filha de, digamos, Hanói, em vez de Jane.

Parece quase inimaginável que qualquer astro ou estrela de cinema do século 21 inserisse os seus filhos na elite de Hollywood equipados com nomes comuns como Michael, Eric, Joel e Peter, como fez Kirk Douglas no passado.

Esta questão veio novamente à tona na semana passada, quando Gwyneth Paltrow e o marido, Chris Martin, o líder da banda Coldplay, batizaram o filho recém-nascido de Moses. Foi um nome bastante improvável para um bebê nascido em 2006, mas talvez menos surpreendente que o mais discutido (e alvo de zombarias) nome que a sua irmã, Apple (Maçã), nascida há dois anos, carregará por toda a vida.

Isso não quer dizer que um nome como Apple Martin ainda se destaque entre os de outros filhos de celebridades. O diretor Peter Farrelly escolheu este mesmo nome para a filha antes do nascimento de Apple Martin. Até mesmo este nome empalidece quando comparado com os de outros bebês de Hollywood como Pilot Inspektor, engendrado por Jason Lee, o astro da série de televisão "My Name is Earl", ou Banjo, fruto da inspiração da estrela Rachel Griffiths, de "Six Feet Under", uma outra série televisiva, ou Moxie CrimeFighter, um nome escolhido no ano passado pelo comediante e mágico Penn Jillette para a sua filha.

Os céticos ridicularizam a corrida maluca das celebridades em busca de nomes exóticos de bebês e outros artifícios usados por indivíduos sedentos de atenção para aparecerem nas manchetes dos jornais. Mas os psicólogos e outros que trabalharam com celebridades dizem que o nome escolhido para os filhos pode funcionar como uma janela para se vislumbrar a psique. Eles dizem que, talvez inconscientemente, os astros e estrelas aproveitam a oportunidade proporcionada pelo nascimento de um filho para expressar as suas obsessões, ambições e fixações internas de uma forma inusitada e que não é gerenciada por publicitários.

Jillette, por exemplo, conseguiu satisfazer vários interesses e objetivos quando ele e a mulher, Emily, deram à filha o nome extremamente individual.

"É provável que em qualquer grupo de tamanho normal sejamos os únicos com tal nome", disse Jillette por e-mail. "'Moxie' é um nome criado por um norte-americano para o primeiro refrigerante nacional, e que depois passou a significar 'chutzpah' ("ousadia", em ídiche), o que para mim está muito bem".

Além disso, Moxie CrimeFighter se encaixa bem no universo criativo.

"Todo mundo que conheço que tem um nome inusual adorou este nome", escreveu Jillette. "Somente os fracassados com nomes como Dave acham que um nome incomum é ruim, mas quem dá bola para o que eles pensam?".

Nem todas as celebridades justificam as suas decisões dessa forma.

"As maçãs (apples) são tão doces e sadias, e isso é algo bíblico", disse Paltrow em uma entrevista com Oprah Winfrey em 2004. "E eu simplesmente achei que o nome tinha uma sonoridade adorável e clara" (Já "Moses" é uma música que Martin escreveu para Paltrow em 2003).

Mas, à medida que os pais da classe-média trocam cada vez mais os nomes padrões como Karen e Joseph por outros mais espalhafatosos, como Madison e Caleb, as celebridades do cinema parecem se sentir compelidas a adotar nomes ainda mais esquisitos para os filhos. Esses nomes podem ter um caráter meramente distintivo (digamos, Maddox, o filho de Angelina Jolie, adotado no Camboja), ou bizarros, como Makena'lei Gordon, filha de Helen Hunt, inspirado em uma localidade no Havaí. Com isso, as celebridades podem estar dizendo, de forma não muito sutil, que para elas as regras comuns não se aplicam.

Quando as celebridades fazem parte da nova aristocracia norte-americana, o nome exótico do bebê pode às vezes funcionar como o equivalente de um título de nobreza, uma forma de a casta privilegiada lançar o poder do seu legado sobre as futuras gerações.

"É como se essas pessoas estivessem dizendo: 'Sou especial, sou diferente e, portanto, o meu filho é especial e diferente'", explica Jenn Berman, psicóloga em Beverly Hills, que já atendeu atores e atrizes. "É algo de inconsciente, mas eles pensam: 'Somos uma família criativa, temos o potencial para sermos criativos, por isso eu dou ao meu filho o nome Joaquin'", afirma Berman.

Sendo artistas, os atores e atrizes com freqüência acreditam que é a sua obrigação sacudir as suposições tradicionais, desafiar as convenções e ampliar as fronteiras do possível. Escolher um nome entediante para uma criança seria quase que uma forma de rendição espiritual, afirma o psicólogo Stuart Fischoff, que também atendeu a clientes de Hollywood.

"Eles estão expressando sua criatividade, e também os seus medos", afirma Fischoff. "Para eles seria muito embaraçoso que a população os enxergasse como pessoas normais".

O fenômeno dos nomes inusuais dos bebês das celebridades não é novo. Há décadas, Anthony Perkins batizou os filhos de Osgood e Elvis, e Marlon Brando deu à filha o nome Cheyenne. E Paltrow, a filha da atriz Blythe Danner e do diretor e produtor Bruce Paltrow, foi, afinal de contas, batizada de Gwyneth.

Mas aqueles que acompanham a popularidade dos nomes de bebês dizem que a pressão para que astros e estrelas apresentem nomes criativos para os seus filhos aumentou nos últimos anos, especialmente à medida que os membros das gerações X e Y de Hollywood entraram na fase de gerar e criar seus filhos, levando consigo o gosto da sua geração pelas obscuras referências culturais pop, pelo iconoclasmo e pela ironia afetada.

Assim como Frank Zappa revelou ser o clássico hippie travesso ao batizar os filhos de Moon Unit e de Dweezil na década de 1960, a atriz Shannyn Sossamon, 26, se consolidou como um orgulhoso produto da sua época ao batizar o filho, nascido em 2003, de Audio Science.

"Um nome é uma escolha livre, é algo que todos têm, assim, se a pessoa é uma celebridade, vai ter que se esforçar bem mais para se diferenciar como indivíduo com um conhecimento especializado ou um gosto raro", opina Pamela Redmond Satran, que escreveu um livro de nomes de bebês com Linda Rosenkrantz, incluindo "Beyond Jennifer and Jason" ("Além de Jennifer e Jason"). Ela afirma que um impulso competitivo entre astros e estrelas parece ser a razão da recente bonança de nomes estranhos de bebês.

"De uma forma estranha, é algo como a anorexia em Hollywood", afirma Satran. "Qualquer um pode ser magro. Mas os famosos têm que ser mais magros".

As celebridades têm também um papel tradicional como criadores de gostos. Não é uma coincidência o fato de o nome Ryder, que foi o 901º nome mais popular de meninos nos Estados Unidos em 2001, segundo estatísticas da Administração de Segurança Social, ter passado a ser o 341º em 2004, o ano em que Kate Hudson e Chris Robinson o escolheram para batizar o filho recém-nascido.

Mas, à medida que as pessoas normais - do tipo que espera nas filas dos restaurantes e paga pelas suas próprias roupas - procuram escolher nomes heterodoxos para os filhos, astros e estrelas são empurradas ainda mais para os reinos dos nomes obscuros, em uma tentativa de manter a dianteira nesta curva particular do modismo. Assim, em busca de idéias para nomes, as celebridades mergulham mais profundamente no Velho Testamento (tanto Bono quanto Wynonna Judd possuem um Elijah, e Cynthia Nixon tem um Charles Ezekiel), na geografia (David e Victoria Beckham têm um Brooklyn, e Summer Phoenix e Casey Affleck uma Indiana), ou até mesmo no sótão da vovó (Jude Law tirou a poeira do nome Iris para a sua filha, e Heath Ledger e Michelle Williams exumaram o nome Matilda para a sua primeira filha neste outono).

Alguns terapeutas dizem que o impulso das celebridades no sentido de colocar nomes esquisitos nos filhos consiste simplesmente no narcisismo dos pais, e o status resultante é obtido em detrimento das crianças. Afinal, os filhos são os que terão que levantar as suas mãos todo vez que a professora chamar "Coco" ou "Eulala".

"É algo como ter um pequeno eu", critica Robert R. Butterworth, psicólogo de Los Angeles, que tem atores e atrizes como pacientes. "A criança é uma parte deles, e não um indivíduo. É um apêndice".

O peso da celebridade cai até mesmo sobre os ombros dos que ainda não nasceram. O filho que Brad Pitt e Angelina Jolie estão esperando já tem sido objeto de capas de revistas.

Outros psicólogos, no entanto, acreditam que os temores quanto ao bem-estar das crianças é exagerado. Se, por exemplo, o filho de Harvey Keitel, nascido em 2004, se sentir demasiadamente exposto por se chamar Roman, ele pelo menos terá companhia. Tanto Cate Blanchett quanto Debra Messing batizaram os seus filhos de Roman naquele ano.

Além disso, os filhos da elite de Hollywood têm outras questões a serem discutidas em terapia, afirma Berman, que disse já ter trabalhado com vários deles: "Honestamente, em se tratando de filhos de celebridades, os outros problemas tem uma dimensão tão grande que fazem com que, em comparação, a questão dos nomes empalideça". Danilo Fonseca

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