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17/04/2006

Indústria de mausoléus de luxo cresce nos Estados Unidos

The New York Times
Guy Trebay
Em Daytona Beach, Flórida
Ed Peck não tem pressa em chegar lá, mas, quando chegar a sua hora de passar para a eternidade, ele deseja que a sua última moradia terrestre seja consistente com o seu status social. Assim, Peck, um corretor de imóveis que fez a sua fortuna com a venda de condomínios na Flórida na década de 1970, se integrou a um pequeno, mas crescente, grupo de norte-americanos que erigiram os mais faraônicos monumentos para o período após a morte, os mausoléus familiares privados.

Uma estrutura em estilo neoclássico com pilastras gregas, feita de granito branco, o mausoléu de Peck possui pátio de granito, uma sala de meditação, portas de bronze e um candelabro. O nome da família é entalhado com letras douradas sobre uma padieira, e no modelo para as vendas traz a inscrição "O Seu Nome".

Criado há pouco mais de dois anos para dar conta de uma crescente demanda por mausoléus como aquele que Peck comprou, que custam aproximadamente US$ 400 mil (cerca de R$ 850 mil), a Seção de Imóveis Privados do centenário cemitério Daytona Memorial Park possui 15 áreas com uma vista para o lago. Seis foram vendidas.

"Com o mausoléu, a pessoa afirma: 'Eu sou realmente significante neste mundo. Creio que sou realmente significante para a minha família', e esta é uma forma de comunicar tal idéia à comunidade", explica Nancy Lohman, uma das proprietárias, juntamente com o marido, Lowell, deste e de vários outros cemitérios e funerárias na Flórida.

Peck, 87, um nativo de Atlanta, expôs um pensamento similar de forma mais modesta. "Começou a passar pela minha cabeça que não quero ficar na terra coberto por grama e lápide, totalmente esquecido", disse ele. "Não gosto da idéia da terra sendo jogada sobre mim".

Segundo representantes da indústria funerária, existe uma tendência cada vez maior por parte dos indivíduos para desejarem, após a morte, ficar dois metros acima do solo, e não abaixo. Além dos mausoléus familiares, os comunitários, para caixões e cinzas de crematório, também estão ganhando popularidade. Em estilos clássico ou contemporâneo, esses mausoléus muitas vezes contam com centenas de nichos para caixões ou urnas.

A Cold Spring Granite Corporation, uma das maiores construtoras de monumentos de cemitérios dos Estados Unidos, vendeu 2.000 mausoléus particulares no ano passado, comparados aos cerca de 65 que costumavam ser vendidos em um ano favorável na década de 1980. "Os preços variam de US$ 250 mil (cerca de R$ 530 mil) até os milhões de dólares", afirma Michael T. Baklarz, vice-presidente da companhia.

Isso talvez seja algo de se esperar dos membros da primeira leva da geração de baby boomers (geração de pessoas nascidas nos EUA entre 1946 e 1964, período de grandes taxas de natalidade no país), uma progressão natural para indivíduos que viveram em grandes espaços, dirigindo veículos utilitários esportivos que consomem muito combustível, e morando em suntuosas casas de 3.700 metros quadrados nos subúrbios.

"Isso é algo consistente com a mentalidade da 'supermansão' típica dos baby boomers", explica Thomas Lynch, escritor e diretor de uma funerária de Michigan. "Os imóveis são uma extensão da mentalidade do indivíduo".

Certos mausoléus imitam o templo romano de Fortuna Virilis. Alguns são estruturas pesadas e rústicas de pedra. Outros possuem área maior do que um apartamento de um quarto em Manhattan, e os seus interiores são repletos de carpetes artesanais, bancos acolchoados e nichos para a exibição de lembranças dos mortos. Não faz muito tempo que um ex-pianista de Tyler, no Estado do Texas, encomendou uma cripta particular em forma de piano. No final de 2004, uma família do sul da Califórnia encomendou um mausoléu com espaço para 12 caixões, 20 nichos para cinzas de crematórios e um vestíbulo trabalhado em mármore.

"Uma das idéias dessas pessoas é fazer uma espécie de declaração", explica Jed Hendrickson, gerente da empresa Santa Barbara Monumental Company.

Comum no século 19, quando imigrantes recém-enriquecidos e milionários corruptos procuravam obter áreas de solo norte-americano ao investir "no único imóvel cujo valor é permanente", conforme observou Mark Twain em uma frase famosa, o mausoléu pareceu atrair menos os indivíduos nos últimos anos. Um número maior de pessoas preferiu ser cremado --especialistas da indústria funerária dizem que mais de um quarto das 2,3 milhões de pessoas que morreram em 2004 foi cremado--, e alguns optaram por novas formas de funerais, como os "sepultamentos verdes", que foram uma sensação cultural depois que um personagem da série da HBO "Six Feet Under" foi enterrado sem embalsamamento ou caixão em uma sepultura não identificada, em uma reserva natural.

Mas os executivos da indústria funerária norte-americana de cerca de US$ 15 bilhões (cerca de R$ 32 bilhões) dizem que a moda breve dos sepultamentos ecológicos pode obscurecer a realidade maior de que, assim como aparentemente acontece em todas as outras facetas da vida contemporânea, o gosto pela "personalização" chegou a esta indústria.

"Ninguém quer mais um sepultamento modesto", diz Robert M. Fells, da Associação Internacional de Cemitérios e Funerárias, a principal associação comercial da indústria funerária. "Na convenção anual do grupo, no mês passado, em Las Vegas, o interesse ressurgente pela construção de mausoléus particulares foi notável", conta Fells.

"Nós modificamos a forma tradicional de vendas", afirma Christine Toson Hentges, vice-presidente de uma companhia que é dona de três cemitérios em Wisconsin. Tradicionalmente, os diretores de agências funerárias ou donos de cemitérios começavam a fazer a propaganda post-mortem para as famílias apresentando as opções mais baratas. "Mas agora esta tendência se inverteu, e começamos pelas construções particulares", diz ela. "Isso se deve ao fato de haver um grande número de pessoas que são financeiramente bem-sucedidas, e que estão pensando nessas questões. Elas querem uma estrutura que conte a história de suas vidas".

No histórico Cemitério Green-Wood, no Brooklyn, um porta-voz disse que não houve um aumento notável no número de mausoléus particulares recentemente, mas que no ano passado o cemitério concluiu a construção de um mausoléu de cinco andares, no valor de US$ 16 milhões (cerca de R$ 34,2 milhões), com 2.500 criptas, cheio de clarabóias e cascatas d'água.

"Tudo isso é muito recente", afirma Herbert B. Klapper, presidente do Cemitério Cedar Park, uma área de 121 hectares em Paramus, no Estado de Nova Jersey, que oferece sepultamentos em mausoléus nos quais o espaço das criptas tem o preço avaliado da mesma forma que os imóveis tradicionais, de acordo com a vizinhança e o andar (a partir do solo, ou "nível de oração", os preços das criptas ascendem até o "nível do coração", e a seguir até o "nível dos olhos", caindo novamente à medida que as alturas vão ficando difíceis de ser alcançadas, em uma fileira batizada de "nível de toque").

Mas o nicho mais grandioso em Paramus é modesto quando comparado à extravagância de granito erigida no Daytona Memorial Park, para abrigar os restos mortais de L. Gale Lemerand, um filantropo da Flórida que fundou uma companhia de isolamento térmico residencial. A empresa foi vendida por ele em 1995 por cerca de US$ 150 milhões (cerca de R$ 320 milhões). Duas tamareiras de US$ 4.000 (cerca de R$ 8.500 mil) fazem sombra sobre o mausoléu de granito vermelho de Lemerand, que custou US$ 650 mil (cerca de R$ 1,4 milhão), e que possui amplo espaço --conforme explica o proprietário do cemitério, Lowell Lohman-- para acomodar Lemerand, 71, bem como as suas ex-mulheres.

Do mausoléu do milionário pode-se apreciar a vista de um lago rodeado por palmeiras. Do outro lado do lago está a tumba familiar de Ed Peck.

"As pessoas que serão enterradas aqui podem arcar com o preço, de forma que dinheiro obviamente não é um problema", explica Peck. "É um local muito agradável para se ficar. Considerando as circunstâncias, é o lugar mais agradável possível". Danilo Fonseca

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